A elegância de agitar o Syrah na taça!

Quando se começa na sofisticada arte de apreciar um bom Syrah, como são todos, uma das primeiras indicações de um Mestre é: agite o copo sem derramar uma gota de líquido. O que desde logo não é fácil, e ao princípio o desastre é quase certo!

Este acto de delicadeza para com o Syrah, logo em início de degustação, já se tornou um clássico.

Mas nada disto é supérfluo e é muito importante função em todo o processo, tornando tudo uma experiência sensorial intensa. Quando se abre uma garrafa de Syrah, o néctar que lá habita em clausura e meditação, é libertado para a vida, passando a um estado de interacção com o oxigénio do meio ambiente. Esta oxigenação progressiva vai provocando modificações no conteúdo da garrafa. Dá-se como que uma decomposição do Syrah. Na realidade começam a ser libertados aqueles afrodisíacos aromas e texturas que tanto apreciamos depois no paladar. O resultado final seria a ruína do liquido. Claro que muito antes disso já a garrafa estará vazia! Portanto esta oxidação, que habitualmente acontece num Decantador, permite-nos absorver o aroma requintado libertado pelo líquido.

Agora quanto ao agitar a taça, tema que nos tem aqui hoje, o que acontece nesse acto é abrir mais rapidamente o caminho para o oxigénio fazer o seu trabalho, entrando assim no reino dos fénois e suas propriedades expressivas. O álcool vai-se evaporando directamente para o nosso apurado nariz, identificando todas a subtilezas que dão início às notas de prova.

Não consegue tal forma requintada de agitar a sua taça, não se preocupe, a prática traz a perfeição. O que interessa é a essência do acto, o ritual ancestral, aquela maneira tão próprio de trazer à vida a magia do precioso Syrah!


 

Um fim de tarde passado na garrafeira Algés com Sabores, e o Syrah Dona Dorinda

É sempre agradável passar um final de tarde na companhia de bons amigos, degustando Syrah e então se for Syrah topo de gama, como é o caso, ainda melhor!

aqui, aqui e aqui apresentámos os vinhos orgânicos Dona Dorinda, de Évora. Que mais há para dizer além disto: são vinhos superlativos e ainda por cima totalmente produzidos segundo certificação biológica, ou seja, só o que a terra dá.
E aquela terra dá Syrah extraordinário!

A garrafeira Algés com Sabores é dirigida pelo sabedor Jorge Antunes que, apesar de se tratar de uma pequena garrafeira, só tem coisas boas e o número de Syrahs tem vindo a aumentar, o que só nos pode deixar para lá de contentes.

E agora a novidade mais importante: o enólogo Vítor Conceição confidenciou-nos que em Setembro irá sair o Dona Dorinda 2015!
Na altura falaremos em pormenor desse Syrah.
As expectativas aqui no Blogue do Syrah são enormes.
Sabemos que não vamos ficar defraudados!

Segue-se a reportagem fotográfica:

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Senses, Adega Cooperativa de Borba, 100% Syrah, Alentejo, 2014

Já há algum tempo que não falávamos deste Syrah de Borba!
É do ano de 2014 e saiu há muito pouco tempo. Senses Syrah de seu nome e feito pela respectiva Adega Cooperativa.

As notas de prova deste Syrah dizem-nos o seguinte: “Aspecto límpido, cor granada com profundidade. Boa intensidade aromática, evidenciando frutos pretos, bolo inglês e chocolate. Sabor macio, com acídulo a bombom de ginja, taninos encorpados com ligeira tosta e grande untuosidade no longo final de boca.“ A graduação alcoólica é de 14%.

A área vitícola da Adega de Borba são 2.200 ha, dos quais, 70% são castas tintas e 30% castas brancas, com um aumento nos últimos anos da introdução de novas castas de qualidade: Aragonez, Trincadeira, Touriga Nacional, Tinta Caiada / Arinto, Antão Vaz, Roupeiro e a nossa Syrah. Fundada em 1955, a Adega de Borba foi a primeira de uma série de Adegas constituídas no Alentejo, com o incentivo da então Junta Nacional do Vinho, numa altura em que o sector não tinha o protagonismo que hoje tem na economia regional. De facto, não fosse esse empurrão decisivo dado pelo referido organismo estatal, que assim permitiu uma organização comercial e de transformação para os vinhos do Alentejo, a cultura da vinha teria desaparecido completamente da região, pois todos os incentivos da época estavam virados para a cultura dos cereais, e fazer do Alentejo o celeiro do País era uma política mais que consolidada para a época.

Hoje a Adega de Borba reúne 300 viticultores associados que cultivam cerca de 2.000 hectares de vinha, distribuindo por 70% castas tintas e 30% de castas brancas.
E tem vindo a crescer e a modernizar-se constantemente ao longo de mais de 5 décadas, ocupando 2 áreas distintas, a original de 12.000 m2 e a mais recente com 140.000 m2 onde está localizada a nova Adega.

Em 2011 foi feito um investimento de 12 milhões de Euros na construção de um novo centro de vinificação para vinhos tintos e armazenagem de granel, e armazenagem e expedição de produto acabado, depois de em 2004 já se ter investido num processo de modernização que ascendeu a 8 milhões de Euros. A capacidade de vinificação ascende assim a 1.200 Toneladas/ dia de uva, com uma capacidade total de fermentação de 6.000 Toneladas. Em termos de armazenagem de vinhos a granel, a capacidade da Adega de Borba é neste momento de 350.000 hl. Com o novo armazém de produto acabado e expedição a capacidade de armazenagem ascende a 7.000 paletes.

A Adega de Borba possui 3 linhas de engarrafamento, instaladas em ambiente de sala limpa com controlo ambiental, completamente automatizadas e com capacidades e características muito amplas que permitem dar resposta às solicitações dos diferentes mercados em termos de qualidade e diversidade de produtos.

Segundo o provérbio romano “Laudato vino non opus est hedera” ou seja, o bom vinho escusa pregão. Partimos deixando o convite à descoberta de mais este syrah de qualidade, assim como da sua região de origem, sempre um deleite!

 

Classificação: 16/20                                                           Preço: 7,49€


 

Quantas uvas são necessárias para produzir uma garrafa de Syrah?

Syrah/Shiraz é uma bebida adorada e conhecida em todo o mundo, gerando curiosidade em termos de números e estatísticas.

Eis algumas que encontrámos por aí:

  • Quantos bagos de uva são necessárias para produzir uma garrafa de Syrah? 300 uvas, mais ou menos, pois a quantidade poderá varia segundo o tamanho das uvas e da sua maturidade.
  • Quatro cachos de uvas dão origem a uma garrafa de vinho de 750ml, cada cacho tem aproximadamente 75 uvas, sendo que 1 cacho dá origem a aproximadamente 1 copo.
  • Cada videira poderá dar até 40 cachos, sendo assim uma videira poderá produzir até 10 garrafas de Syrah.
  • Concluindo, são necessários mais ou menos 1.200 cachos de uvas para encher um barril de Syrah.
  • A uva é pois a fruta mais cultivada em todo o mundo e existem cerca de 20 milhões de hectares de uvas plantadas no planeta.
  • 1 hectare pode produzir 5 toneladas de uvas.
  • Cinco toneladas de uvas são suficientes para encher 332 caixas de Syrah.
  • Só ao fim de 4 anos é que uma videira nova começa a produzir Syrah, existindo no total cerca de 10 mil variedades de uvas viníferas cultivadas em todo o mundo.

Este é o maravilhoso mundo do Syrah, e do vinho, estimulo para a alma e sentidos, assim como a curiosidade que desta forma ficou um pouco mais satisfeita!


 

Diogo Campilho e Pedro Pinhão ou a Dupla do Syrah

Desde a segunda metade dos anos 90 que se faz Syrah em Portugal!
O Blogue do Syrah tem feito o seu papel na divulgação desse percurso por terras lusas.
Já dissemos várias vezes que em Portugal se produz algum do melhor Syrah do mundo!
Como o Syrah é feito por pessoas, é natural que o Blogue do Syrah fale de quem colocou o Syrah português nas bocas do mundo, já que são eles os principais responsáveis pelo aparecimento deste espaço de apresentação, apreciação, devoção e divulgação.

Na sequência de artigos anteriores sobre os enólogos que fazem Syrah em Portugal, trazemos hoje à ribalta não um mas dois enólogos: Diogo Campilho e Pedro Pinhão!
Trabalham em conjunto há vários anos, tendo no seu currículo três Syrah, cada um com várias colheitas no activo.
Aqui vão eles, todos de peso, como se pode ver pelas classificações atribuídas:


Quinta da Lagoalva de Cima, 100% Syrah, Tejo
Classificação: 20/20


Monte Cruz, Herdade Monte do Outeiro, Reserva, 100% Syrah, Alentejo
Classificação: 20/20


Monte Cruz, Herdade Monte do Outeiro, 100% Syrah, Alentejo
Classificação: 17/20

 


Quinta da Lagoalva de Cima, 100% Syrah, Tejo
Feito pelos enólogos Diogo Campilho e Pedro Pinhão, o Syrah da Quinta da Lagoalva de Cima, cuja primeira safra é de 1994, provém de pequenos talhões cujas uvas seleccionadas são vindimadas à mão para caixas, e chegam à adega ainda durante a manhã. Após 3 dias de maceração pré fermentativa, a fermentação alcoólica ocorre em lagares de inox a 24ºC. As massas são espremidas em prensa hidráulica e a fermentação malo-láctica ocorre em barricas (novas e 1º ano) de carvalho Francês, onde estagia doze a catorze meses.
As safras seguintes deram-se nos anos de 1997, 2000, 2005, 2008 e a presente de 2010.
Apenas feito em anos excepcionais, este vinho de cor granada e aroma intenso tem no nariz segundo os seus produtores “notas de especiarias, fruta preta madura e tabaco. Na boca tem profundidade, taninos elegantes e um final longo.”
Como dizia Roland Betsch, segundo a nossa versão: “No Syrah está verdade, vida e morte. No Syrah está aurora e crepúsculo, juventude e transitoriedade. No Syrah está o movimento pendular do tempo. No Syrah se espelha a vida.”
A Quinta tem uma longa tradição como produtora de vinhos, que remonta a 1888, ano em que esteve presente na Exibição Portuguesa de Indústria. Com uma área de sete mil hectares aproximadamente, as suas principais produções são o vinho, o azeite, a cortiça, a floresta, cereais, vacas e ovelhas, e o cavalo lusitano. A produção anual ronda as duzentas e setenta mil garrafas e os cinquenta hectares de vinhas da Quinta da Lagoalva estão implantados nos melhores “terroirs” do Tejo, e são constituídos pelas castas nacionais e mundiais com as melhores aptidões, enologicamente comprovadas.
Este é um Syrah que vale mesmo a pena apreciar intensamente, e ao qual ciclicamente voltamos, porque se trata, à falta de melhor adjectivo, de um Syrah fabuloso!

Monte Cruz, Herdade Monte do Outeiro, Reserva, 100% Syrah, Alentejo
Estamos a falar de um Syrah mais graduado em termos alcoólicos, tem 14,5%, enquanto que o Monte Cruz sem ser reserva tinha 14%! As notas de prova na garrafa dizem-nos que possui “fruto maduro, notas ligeiras balsâmicas e tostadas. Na boca o fruto surge acompanhado de bons e firmes taninos. Mostrando um final longo e persistente.”
Quando este Syrah Reserva chegou até nós, foi recebido de certa forma com pouco entusiasmo, devemos de o confessar, porque francamente não estávamos à espera de grande diferença em relação ao outro que não era Reserva, mesmo sendo a diferença de preço muito apreciável!
Este é um assunto importante e vamos falar dele como merece. São dois vinhos da mesma vinha, portanto são as mesmas uvas, o mesmo terroir, mas a intervenção humana é completamente distinto, nomeadamente em todo o processo que dá origem ao estágio, quer em barrica, quer em garrafa, e isso vai fazer toda a diferença no resultado final. Desde o princípio, esta nossa aventura pelo mundo dos Syrah portugueses rapidamente nos fez concluir que o trabalho humano na confecção desta bebida tem uma percentagem de importância de pelo menos 70%. Hoje temos essa convicção mais forte do que nunca. O terroir é importante, sem dúvida, a qualidade das uvas é importante, seguramente, o clima, a localização, as características meteorológicas desse ano, etc, são importantes, mas a intervenção na adega e o que se segue depois é seguramente o mais importante. O Monte Cruz Reserva 2009 é a prova disso mesmo.
É um Syrah excepcional, ao contrário do outro Syrah seu irmão, que não era mais do que um bom Syrah. Este Reserva Monte Cruz é extraordinário logo ao primeiro trago e é isso que imediatamente impressiona. Um só trago deste Syrah faz-nos automaticamente perceber que se trata de um Syrah topo de gama!

Monte Cruz, Herdade Monte do Outeiro, 100% Syrah, Alentejo
Apesar do lançamento deste Syrah da Herdade Monte do Outeiro ser irregular – o último é de 2009 – estávamos com alguma expectativa aguardando a sua saída, devido a dois motivos. Primeiro por este Syrah, assim como o Reserva seu irmão de sangue, ser habitualmente de qualidade superior, e segundo porque os enólogos, a dupla Diogo Campilho e Pedro Pinhão, já mostraram anteriormente uma capacidade invulgar para fazerem Syrah de altíssima qualidade!
Neste nosso soberbo Alentejo encontramos perto da Vila de Portel a Herdade Monte do Outeiro, que produz o Syrah Monte Cruz, do produtor Manuel Bernardino Cruz. Syrah a 100%, como é devido, graduação alcoólica de 14%, sempre um deleite.
Conhecem-se três safras, a de 2012, 2009 e 2006. As notas de prova que escolhemos falam de um “aroma no nariz onde sobressaem notas de especiaria e frutos pretos. Em termos de paladar os taninos estão bem equilibrados e conferem uma boa estrutura.”


Sobre os nossos enólogos de hoje, Diogo Campilho licenciou-se em Enologia pela Universidade de Vila Real e completou a sua formação em Espanha e na Austrália, em áreas como Enoturismo, Provas de Azeite e Provadores de Vinhos. O seu percurso como Enólogo levou-o a colaborar com nomes como o da chilena Marcela Chandia e do neo-zelandês Cameron Webster. Passou ainda por várias vindimas na Nova Zelândia e Austrália; Pedro Pinhão licenciado pelo Instituto Superior de Agronomia e com variadas formações internacionais, desde cedo de dedicou à Quinta da Lagoalva de Cima onde estagiou durante várias vindimas. Passou ainda por diversas colheitas na Austrália e Nova Zelândia e em 2008 inicia um projecto pessoal de sucesso com os vinhos Hobby.

Na última prova cega que o Blogue do Syrah levou a cabo entre Syrah portugueses e Syrah franceses, estiveram presentes quer o Quinta da Lagoalva de Cima, 100% Syrah, Tejo de 2012, quer o Monte Cruz, Herdade Monte do Outeiro, Reserva, 100% Syrah, Alentejo de 2009. Este facto testemunha da importância que estes enólogos tiveram na história dos Syrah em Portugal.

Contamos com eles para mais Syrah de gabarito!


 

O Mistério dos Taninos

O que é isto do “tanino” e que influência tem no vinho?

Certos vinhos têm taninos suaves, outros tem taninos jovens, são expressões usadas quando se degusta vinho.
Taninos são pois uma gama de componentes químicos naturais complexos e diversificados, encontrados em muitas plantas, incluindo as videiras. Os taninos estão presentes no engaço (caule dos cachos), bem como nas cascas e nas sementes dos frutos. Especificamente, tanino é um composto capaz de interagir com as proteínas naturais da nossa saliva, alterando a sua composição e textura. Um tipo de “superfície rugosa” é criada, gerando uma sensação de adstringência na boca. A quantidade de tanino presente na polpa da fruta é quase insignificante. Assim, quanto mais cascas e sementes estiverem envolvidas no processo de vinificação, maior será o nível de taninos encontrado no vinho.

Os taninos desempenham funções importantes no vinho. Uma delas é dar estrutura e textura, pois a sua acção aglutina as proteínas do vinho, aumentando dessa forma a sua dimensão molecular. Quanto maior o nível de tanino presente, mais estruturado será o vinho. Outra função é o papel que desempenha no processo de envelhecimento dos vinhos. Isto porque são antioxidantes e ao mesmo tempo actuam como conservante natural, ou seja, mais taninos significa maior potencial de envelhecimento.

No caso dos vinhos tintos e do Syrah, claro, são ainda fundamentais para dar aquela cor característica e demais propriedades sensoriais. O manejo dos taninos durante o processo de vinificação de tintos influencia directamente a qualidade e o perfil do vinho. De facto, o equilíbrio de taninos é um dos principais factores do enólogo quanto ao estilo de vinho que pretende alcançar. Se o objectivo é um vinho mais simples no conteúdo, para ser consumido de modo ligeiro a vinificação faz-se de modo a extrair menos taninos da uva. Por outro lado, se a ideia for produzir um vinho mais encorpado, com maior estrutura, para ser guardado e envelhecido, o trabalho de adega procura extrair taninos de boa qualidade durante o processo de vinificação.

O grau de tanino varia consoante as castas e características do terroir. Algumas castas, como Syrah, por exemplo, são conhecidas por apresentarem alto grau de taninos. É portanto uma casta bastante ‘tânica’, com grande potencial de envelhecimento.

Para terminar, ainda mencionamos o tempo de maturação em madeira, que contribui igualmente para conferir estrutura e potencial de envelhecimento.

Com tudo isto, é hora de ir em busca de companhia e de um Syrah bem pleno de taninos!