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Vale das Areias, Sociedade Agrícola da Labrugeira, 100% Syrah, Lisboa, 2010

ValedasAreias

Hoje apresentamos um syrah que, em Portugal e pela primeira vez, ganhou um concurso nacional de vinhos. Vamos repetir: O Vale das Areias syrah 2010 foi o primeiro syrah português a ganhar um concurso de vinhos tintos abarcando todas as regiões de Portugal. É o reconhecimento que os syrah podem dar cartas e que não é preciso ser obrigatoriamente um blend para causar sensação e ganhar o que houver para ganhar! Em que circunstâncias é que isso aconteceu é o que vamos a seguir explicar.

O syrah Vale das Areias Syrah 2010 foi o grande vencedor absoluto do Concurso Vinhos de Portugal, cuja primeira edição foi em 2013, o maior concurso de vinhos nacionais realizado até hoje no nosso país. Os premiados foram anunciados em cerimónia realizada no Pátio da Galé (Terreiro do Paço, Lisboa). Este concurso, organizado pela Viniportugal em Maio de 2013, recebeu mais de 1000 vinhos de todo o país e contou com mais de uma centena de provadores, entre os quais 36 estrangeiros de diversos países. A direcção técnica da prova esteve a cargo do único Master Sommelier português, João Pires, escanção em Londres. As provas decorreram no salão do CNEMA, em Santarém, e duraram de segunda a sexta-feira. Nos primeiros quatro dias os jurados pontuaram todos os vinhos para de seguida emergiram os candidatos a vencedores, os vinhos que tiveram pontuação para entrar nas medalhas de ouro. O último dia foi exclusivamente dedicado a escolher entre esses, 52, os que deveriam ascender à Grande Medalha de Ouro, o prémio máximo da competição. Essa tarefa coube a cinco jurados, capitaneados por Luís Lopes, director da Revista de Vinhos. Todos os outros jurados eram estrangeiros. De referir, que os vinhos vão a provas de forma anónima. E por todo isto se compreende que uma vitória neste concurso é algo de muito relevante.

Dito isto, é importante investigar um pouco sobre a origem deste syrah e saber de quem o faz!…

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Falamos pois da Sociedade Agrícola da Labrugeira, que produz e engarrafa vinho na antiga região da Estremadura, sendo a própria designação herdada da vinha mais antiga da família, situada no Vale das Areias, entre a capela dedicada a São Jorge e a Serra de Montejunto, Alenquer.
A paixão pela vitivinicultura foi passando de geração em geração, pelo que nos anos 90, fruto da vontade em aperfeiçoar a herança dos antepassados e das novas exigências do mercado, começou a modernização das vinhas e da adega, datada de 1930.

Procedeu-se ao estudo das condições do local, de forma a seleccionar as castas que permitissem alcançar os melhores níveis de qualidade. Optou-se por um rendimento baixo por hectare (através de podas severas e de mondas de cachos) e uma produção integrada, em cumprimento com as normas agro-ambientais. Foram assim escolhidas as castas nacionais Touriga Franca, Tinta Roriz, Castelão, Touriga Nacional e Fernão Pires, e as estrangeiras Sauvignon e, naturalmente, o nossa Syrah.

Foi na vindima de 2003 que se produziu o primeiro vinho a partir das novas plantações e, no ano seguinte, concluiu-se a reestruturação dos 15 hectares de vinha. Respeitando os ditames da natureza, efectua-se a vindima consoante a maturação de cada casta. Recolhem-se os cachos manualmente que são depois seleccionados para pequenas caixas individuais. Posteriormente, desengaça-se e esmaga-se suavemente as bagas, sendo a vinificação realizada em separado, casta por casta, parcela por parcela, em cubas de inox com controlo rigoroso e individual da temperatura (adaptável às características de cada mosto). A maceração nas cubas é prolongada, para que todos os componentes fenólicos sejam extraídos.
Em seguida, o vinho fica em estágio, em barricas de carvalho francês de qualidade, entre 6 a 12 meses. Finalmente é engarrafado, aguardando ainda na adega, em novo estágio, de 3 meses, até ser lançado no mercado.

O vinho é exportado para a Alemanha, Bélgica, Holanda, Polónia, Suécia e Suíça.

Voltando ao nosso syrah e em conversa com o responsável da quinta, o dr. Bernardo Nobre, ficamos a saber que se fizeram safras desde 2005 até 2013. Cinco mil litros em cada safra que deram cerca de 7000 garrafas. A vinha foi plantada em 2001 duma parcela única e a safra de 2010 teve o êxito já relatado.

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O grande problema é que este syrah não tem distribuição garantida. A única hipótese é encontrá-lo no hotel da quinta. De outro modo, hoje em dia, será quase impossível. Merece a pena a demanda!

O syrah, com 15% de teor alcoólico, apresenta “cor granada intenso, aroma intenso, complexo, com notas de baunilha e pimenta preta num conjunto bem casado com a madeira. Com bastante estrutura, envolvente e final longo, com taninos bons finais.”

E com esta descrição até apetece acompanhar com uma taça de Vale das Areias a leitura desta “Ode ao Vinho” de Pablo Neruda

Vinho cor do dia
vinho cor da noite
vinho com pés púrpura
o sangue de topázio
vinho,
estrelado filho
da terra
vinho, liso
como uma espada de ouro,
suave
como um desordenado veludo
vinho encaracolado
e suspenso,
amoroso, marinho
nunca coubeste em um copo,
em um canto, em um homem,
coral, gregário és,
e quando menos mútuo.

Às vezes
alimentas-te de recordações
mortais,
na tua onda
vamos de túmulo em túmulo,
pedreiro de gelado sepulcro,
e choramos
lágrimas passageiras,
mas
tu formoso
traje de primavera
és diferente,
o coração sobe pelos ramos,
o vento move o dia,
nada fica
dentro da tua alma imóvel.
O vinho
move a primavera
cresce como uma planta de alegria
caem muros,
penhascos,
se fecham os abismos,
nasce o canto.
Oh tu, jarra de vinho, no deserto
com a saborosa que amo,
disse o velho poeta.
Que o cântaro de vinho
ao beijo do amor soma o seu beijo.

Amor meu, rápida
a tua anca
é a curva suave
da taça,
o teu peito é a raiz,
a luz do álcool o teu cabelo,
as uvas o teu peito,
o teu umbigo estampa pura
marcado como taça no teu ventre,
e o teu amor a cascata
de vinho inextinguível,
a claridade que cai nos meus sentidos,
o esplendor terrestre da vida.

Mas não só o amor,
beijo ardente
o coração queimado
és, vinho da vida,
mas também
amizade entre os seres, transparência,
coro de disciplina,
abundância de flores.
Amo sobre uma mesa,
quando se fala,
à luz de uma garrafa
de inteligente vinho.
Que o bebam,
que recordem em cada
gota de ouro
ou copo de topázio
ou colher de púrpura
que trabalhou no outono
até encher de vinho as vasilhas
e aprenda o homem obscuro,
no cerimonial de seu negócio,
a recordar a terra e seus deveres,
a propagar o cântico do fruto.

Classificação: 17/20                                              Preço: 14,00€

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