Porque é que o Vinho dá Sono?

vinho sono

Além de reduzir o risco de doenças cardíacas, prevenir o acidente vascular cerebral, combater o envelhecimento prematuro e lutar contra várias formas de cancro, o vinho tinto também ajuda o corpo a obter o descanso que precisa para se recuperar da rotina diária.

Um estudo de cientistas italianos da Universidade de Milão, publicado há alguns anos no Journal of the Science of Food and Agriculture, descobriu uma grande presença de melatonina em algumas variedades de uvas viníferas.

A melatonina é um hormónio que “avisa o corpo que é hora de dormir”, além de ser um potente antioxidante e desintoxicante das nossas células.

A pesquisa foi realizada com 8 diferentes cepas, todas provenientes de controlados vinhedos do Instituto Experimental de Viticultura, em Treviso, situado no nordeste da Itália. Infelizmente nenhuma delas foi Syrah.

As castas utilizadas foram Nebbiolo e Barbera, por serem as principais variedades do Piemonte. Sangiovese, pela sua relevância na Toscana. Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Merlot, pela importância na produção mundial e finalmente Croatina e Marzemino, duas uvas locais.

A concentração de melatonina percebida pelos pesquisadores foi maior na cepa Nebbiolo, seguida pela Croatina e Barbera. Cabernet Sauvignon, Sangiovese e Merlot apresentaram índices considerados medianos, enquanto Marzemino e Cabernet Franc apresentaram apenas vestígios do hormónio. O que se concluiu com esse estudo, é que o álcool presente no vinho pode não ser o único responsável pelo efeito relaxante que essa bebida proporciona. E, talvez, um copo de vinho tinto antes de dormir tenha mais vantagens do que imaginamos.

Um dos cientistas responsáveis Marcelo Iriti, acredita que os valores de melatonina no vinho tinto poderá ajudar a regular os padrões de alternância entre sono e vigília. Diz ele especificamente: “O teor de melatonina no vinho poderá ajudar a regular os padrões de sono-vigília, tal como acontece com a própria melatonina produzida pela glândula pineal nos mamíferos”, afirma Iriti num comunicado.

Mas, como a ciência só vive e evolui a partir da permanente interrogação (não é por acaso que é irmã gémea da filosofia), é importante referir o outro lado da moeda: alguns especialistas recomendam evitar o consumo de bebidas alcoólicas antes de dormir, pois o álcool poderia prejudicar o sono profundo, mantendo algumas pessoas somente nos estágios mais leves de sono. Dessa forma, é bom ficar atento para ver qual é a reacção específica do seu corpo, antes de decidir o que é melhor para cada um de nós.

Não é a primeira vez que o vinho tinto – e as uvas que lhe dão origem – são apontados como benéficos para a saúde. Estudos anteriores já tinham indicado que o consumo moderado de vinho tinto poderia diminuir a taxa de “mau colesterol” no organismo e até ajudar a prevenir a doença de Alzheimer.

Já não há dúvidas de que o vinho tomado ao deitar torna o sono mais repousante e reduz a quantidade de tranquilizantes e pílulas para dormir. Finalmente, sempre se soube que o metabolismo e a absorção do álcool pelo fígado, 30g por hora, é muito mais lenta com vinho do que com outras bebidas. Como o vinho é sempre tomado lentamente e às refeições – com o estômago cheio a absorção é ainda mais lenta – os níveis de álcool no sangue não atingem proporções intoxicantes, como acontece com os destilados.

O Copenhagen Heart Study, uma pesquisa que envolveu 13.000 pessoas durante dez anos, concluiu que aqueles que consumiram até seis cálices de vinho por semana durante o período de avaliação, tiveram somente 40 por cento da taxa de mortalidade daqueles que não beberam. Ficou também demonstrado que cerveja e destilados não forneceram tal protecção.

O Dr. R. Curtis Ellison, Chefe de Medicina Preventiva e Epidemiológica da Escola de Medicina da Universidade de Boston diz que os dados científicos são claros: “O consumo moderado de vinho está associado com um risco bem menor de doenças do coração e derrame, as principais causas de morte nos EUA.” Pode-se portanto concluir que não beber vinho é em si um factor de risco!

Apetece terminar esta reflexão relembrando o soneto do vinho do Jorge Luís Borges:

 Em que reino, em que século, sob que silenciosa 
Conjunção dos astros, em que dia secreto
Que o mármore não salvou, surgiu a valorosa
E singular idéia de inventar a alegria?

Com outonos de ouro a inventaram. O vinho
Flui rubro ao longo das gerações
Como o rio do tempo e no árduo caminho
Nos invada sua música, seu fogo e seus leões.

Na noite do júbilo ou na jornada adversa
Exalta a alegria ou mitiga o espanto
E a exaltação nova que este dia lhe canto

Outrora o cantaram o árabe e o persa.
Vinho, ensina-me a arte de ver minha própria história 
Como se esta já fora cinza na memória.


 

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