Quinta do Sobreiró de Cima, Sociedade Agrícola Comercial SA, 100% Syrah, Trás-Os -Montes, 2010

garrafa

(Informação actualizada)

Há dois Syrah em Trás –os-Montes. O da Quinta de Arcossó, de que já falámos, e este da Quinta do Sobreiró de Cima, de que vamos falar hoje, em Valpaços. São os dois especiais. E é com muito prazer que o fazemos. Embora nem tudo sejam rosas. Vamos à explicação.

O Syrah da Quinta do Sobreiró de Cima, que se pode encontrar na grande Lisboa em três sítios distintos, dos quais destacamos a garrafeira Estado de Alma, é um Syrah com 14,5% de graduação alcoólica, tratando-se de um  vinho de “cor granada concentrada, um aroma confitado a lembrar fruta preta muito madura, alguma especiaria, com toque balsâmico da casta, na boca é muito cheio, aveludado com os taninos presentes e com um final longo e persistente.” Depois duma exposição destas quem é que não ficou com vontade de o provar?

E depois de o provar vai ficar amigo dele…ou cliente!

É dum anónimo o seguinte poema intitulado justamente:

CLIENTE, MEU AMIGO
Lembre-se que quatro copos fazem um litro e que dois litros fazem uma rodada.
Duas rodadas uma discussão e uma discussão uma briga.
Uma briga uma pancadaria e uma pancadaria dois policiais.
Um juiz, um escrivão e um oficial de justiça efetuam uma multa ou alguns dias de prisão, mais as despesas do processo.
As despesas levam à ruína, a ruína ao suicídio, o suicídio à morte.
A morte deixa viúvas alegres e lindas mães satisfeitas.
Fora isso, venha aqui,
beba moderadamente,
pague honradamente
e saia amigavelmente.
Volte para a sua casa tranquilamente
e beije com carinho sua mulher
pensando nas dos outros.

logo

No princípio do texto dissemos que em relação a este Syrah “nem tudo são rosas” e é verdade. Não, em relação ao Syrah em si, que é de qualidade evidentíssima, mas em relação ao tipo de divulgação que a Sociedade Agrícola Comercial SA utiliza. E qual é? Nenhuma! Absolutamente nenhuma! E depois não nos venham gritar que o “negócio” está em crise! Esta sociedade detentora do Syrah Quinta do Sobreiró de Cima, não tem site, não tem blogue, não tem sequer Facebook, não está presente em nenhuma outra rede social. Não há nada em discurso directo sobre esta sociedade e este Syrah. O que há é em sítios informativos, o nome da sociedade, a morada nº de telefone e nº de fax. Mais nada! Aliás, diga-se em abono da verdade que conseguimos não um mas dois números de telefone da rede fixa. Durante três dias telefonámos para lá a diversas horas de expediente habitual duma empresa, de manhã, antes e imediatamente a seguir ao almoço, a meio da tarde… e nada! Os telefones não funcionam! Como é que é possível deste modo o público consumidor e amante de Syrah, e deste em particular, ter informação para além do que vem na garrafa? É muito difícil desta forma escrever sobre este Sobreiró, só não dizemos impossível porque pelo menos a região de onde vem está cheia de história, e de histórias.

Falemos pois de Valpaços, região onde é produzido este Syrah.

Inúmeras vinhas velhas que pareciam condenadas ao abandono estão hoje na base do renascimento dos vinhos de Valpaços, famosos desde os tempos do império romano.

Os vinhos de Valpaços, região de Trás-os-Montes, andam há muito tempo arredados do panorama mediático. Seguiram o mesmo declínio do interior do país, fossilizando-se pouco a pouco. Nunca deixaram de ser produzidos, mas a base de consumo foi-se estreitando e confinando-se praticamente ao mercado local e regional. No entanto, estamos a falar de vinhos com mais de dois mil anos de história, muito apreciados no tempo do império romano, existindo até a tese de que o nome de Valpaços estará relacionado com o vinho “passum“, o vinho doce pelo qual os romanos nutriam especial predilecção. Desse tempo, ainda subsistem no concelho alguns lagares esculpidos na rocha, naquela que é uma das maiores colecções de lagares romanos do mundo.

Hoje já ninguém faz vinho na pedra. Nos últimos anos, num movimento extensivo a outras zonas de Trás-os-Montes, vários produtores passaram a olhar mais longe e a produzir vinho de forma moderna. Recuperaram lagares antigos, construíram um ou outro de raiz e passaram a engarrafar o vinho com marca própria. Ainda são pouco conhecidos, mas alguns deles vão dar que falar, se conseguirem ser perseverantes e não desperdiçarem o melhor que têm: vinhas centenárias, castas bem adaptadas ao lugar, solos ideais para a cultura da vinha e cotas que garantem vinhos maduros mas ao mesmo tempo frescos. E por favor, não se esqueçam de fazer divulgação e partilhar informação.

As condições naturais do concelho são de tal forma ideais que no final da monarquia ainda foi equacionada a inclusão de Valpaços na região do Douro. A ideia não vingou e a vizinhança da região duriense, com o seu peso e prestígio, foi passando factura aos vinhos produzidos nas encostas do rio Rabaçal. Actualmente, a situação é mais favorável. A padronização crescente do vinho abriu novas oportunidades a regiões menos conhecidas e originais e as alterações climáticas estão a elevar a cultura da vinha para cotas mais altas e frescas. Castas como a Tinta Roriz, que no Douro produz fracos resultados nos vinhos tranquilos, podem originar vinhos magníficos em Trás-os-Montes, tirando partido da maior altitude.

No caso de Valpaços, além da Roriz, as castas com mais tradição são o Bastardo, a Tinta amarela (nos tintos), o Gouveio, a Códega do Larinho e a Malvasia Fina (nos brancos). Nas vinhas novas, começa a ganhar relevo a Touriga Nacional (com grandes resultados) e a Touriga Franca (a par de uma ou outra casta estrangeira, como a nossa Syrah, naturalmente).

Para mais conhecer mais sobre esta zona vinícola e não só, recomendamos uma visita à Adega Cooperativa de Valpaços, onde sim existe muita informação sobre a região.

Sabemos que este Syrah tem pernas para andar e continuar, e esperemos que assim prossiga!
É que seria uma pena não o encontrar mais: a classificação que lhe damos diz tudo!

Classificação: 17/20                            Preço: 12,50€

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