Monthly Archives: March 2015

Adega de Pegões, Cooperativa de Pegões, 100% Syrah, Setúbal, 2012

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Novo syrah, de qualidade, como sempre, agora de Setúbal, mais precisamente de Pegões.

A Cooperativa de Pegões é um verdadeiro colosso no panorama vitivinícola português!
Produz 12 milhões de garrafas de vinho por ano, distribuídas por 48 referências, que é assimilado em 75% pelo mercado nacional. Os outros 25% são para exportar, praticamente para todo o lado. Apresentar aqui a lista de países nos diversos continentes em que os vinhos da  Cooperativa de Pegões estão representados seria fastidioso, mas interessante, porque são algumas dezenas!

Mas o nosso interesse está todo canalizado para o syrah da Adega de Pegões!
Existe desde 2004, ano da primeira safra. Daí para cá tem havido syrah  novo todos os anos. O último, que é aquele que o consumidor consegue encontrar com alguma facilidade nos hipermercados em Portugal, é de 2012. Para nós é o melhor. Superior às duas safras anteriores que também conhecemos bem!

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Em conversa com a Eva Figueira, secretária da Cooperativa e pessoa muito bem informada sobre tudo aquilo que ao syrah diz respeito, para além duma grande simpatia, ficamos a saber que a produção do syrah de 2004 até 2010 foi de 10000 garrafas por safras. Em 2011 e 2012 o volume de garrafas produzidas duplicou, fixando-se nas 20000. É um bom indicativo, quer da qualidade do produto em relação ao preço, quer da reacção positiva do consumidor português em relação ao syrah. Reacção esta que por nós haverá de ser cada vez mais entusiasta e total. Estamos aqui para isso!

O enólogo deste syrah é Jaime Quendera, responsável por estas notas de prova: ”Notas de frutos vermelhos/pretos muito maduros , notas de compota , volumoso na boca , final muito prolongado.” A cor é granada, a fermentação foi realizada em cubas de lagar inox com temperatura controlada seguida de maceração pelicular prolongada. O envelhecimento foi de 12 Meses em pipas de carvalho americano e francês, seguido de 4 meses em garrafa, antes de ser lançado no mercado.

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A Península de Setúbal, região onde estão situadas as vinhas da Cooperativa de Pegões, assim como outras grandes herdades de que já aqui falámos e continuaremos a falar, é caracterizada por um microclima com óptimas condições climáticas, únicas onde se destaca os solos arenosos ricos em água e o clima Mediterrâneo com influência marítima devido à proximidade do mar. A perfeita harmonia destes elementos favorecem o desenvolvimento de castas nobres perfeitamente adaptadas originando vinhos de qualidade.

Agora precisamos de um pouco de história para percebermos o porquê de chamarmos colosso à Cooperativa de Pegões.

Foi o grande proprietário rural e industrial de cerveja José Rovisco Pais quem doou as suas herdades de Pegões aos Hospitais Civis de Lisboa. Nelas viria a ser executado o maior projecto de colonização interna com a fixação de centenas de casais agrícolas e a plantação de 830 hectares de vinha. A Cooperativa Agrícola constituída por Alvará de 7 de Março de 1958 veio fornecer o apoio técnico e logístico à elaboração dos primeiros vinhos de Pegões.

Numa primeira fase da sua existência a Cooperativa beneficiou de substanciais apoios financeiros e tecnológicos do sector estatal. Nos últimos 15 anos a Cooperativa empreendeu uma estratégia sistemática de modernização e estabilização financeira com o objectivo de melhorar e valorizar os vinhos da sua marca.

Neste período a Cooperativa investiu cerca de 7 milhões de Euros para dotar a Adega com sistemas de vinificação e estabilização a frio, revestimento a “EPOXY” dos primitivos depósitos de cimento, complexo de cubas de INOX para fermentação com controle de temperatura, prensas de vácuo e pneumáticas, modernas linhas de enchimento e rotulagem, ETAR, caves para estágio de vinhos com mais de 1.000 barricas, obras de beneficiação e conservação geral de edifícios e pavimentação dos acessos fabris. No plano da organização interna, avançou-se na informatização da empresa que, neste momento, já está certificada.

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Se, como dizia o filósofo alemão do século XIX Ludwig Feurbach, Der Mensch ist, was er ißt – O homem é o que come”, nós aqui no Blogue do Syrah dizemos que “O homem é o Syrah que bebe”. Eventualmente o mesmo se pode aplicar à mulher, cada um, ou uma, que o diga. Certo é: quem beber syrah da Adega de Pegões faz uma óptima escolha, com uma qualidade acrescida de ano para ano… temos dito!

 

Classificação: 16/20                                           Preço: 4,99€

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Vale Zias, Fazendas da Estremadura, Sociedade Agrícola Unipessoal Lda, 100% Syrah, Lisboa, 2011

Do Alentejo para a região vinícola de Lisboa é um pulinho. O “terroir” é diferenciado mas mantém-se algo em comum: syrah de qualidade inolvidável. E o syrah que temos hoje para vos apresentar (os leitores do Blogue do Syrah merecem os melhores vinhos) é de excelência. Mais: o que também impressiona é a relação qualidade/preço, sempre muito importante para nós, constantes bebedores deste néctar dos deuses. Trata-se de um syrah cujo preço está claramente abaixo dos 5 euros, e em essência acima da média em termos de apreciação.

Reparem nas notas de prova: “cor rubi violácea, aromas com boa definição onde predominam frutos vermelhos e bagas, assim como aroma a frutos maduros e de grande estrutura, boca elegante de taninos redondos e maduros, final harmonioso e de boa persistência”. É preciso dizer mais?

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A vinificação é feita à boa maneira dos antigos. As uvas são fermentadas em lagar de forma tradicional.

Em conversa com o produtor e enólogo, Manuel Arsénio, que já o ano passado gentilmente se tinha encontrado connosco (e generosamente nos tinha dado a provar duas garrafas do Vale Zias que ainda se encontrava nas pipas, mostrando já toda a sua pujança!) ficamos a saber que o Vale Zias syrah conheceu 4 safras. Desde 2005, a primeira, com 5000 garrafas. A segunda em 2007 com uma subida brutal para 16000 garrafas. A terceira safra em 2009 com 18000 garrafas (situação não muito habitual para um monocasta syrah em Portugal) e finalmente a safra que hoje apresentamos, a de 2011, com 8500 garrafas, justificadas com o ajustamento ao mercado nacional tendo em conta o facto de que 85 a 90% de toda a produção se destinar ao mercado nacional.

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A empresa Fazendas da Estremadura, Sociedade Agrícola Unipessoal Lda foi fundada em 2005, no entanto as suas origens têm por base um cariz familiar, que já desenvolve a sua actividade agrícola na região vinícola de Lisboa há várias décadas, tendo procedido ao primeiro enchimento de vinho nos anos 30. E tem como principais actividades a produção e comércio de vinho engarrafado, produção de pêra rocha e consultoria técnica em Enologia.

Em frente de uma taça de Vale Zias, um melancólico dia destes, encontrámos alguns textos do poeta, matemático e astrónomo persa dos séculos XI e XII, Omar Khayyām, entre eles o poema RUBAIYAT, que nos diz o seguinte:

“Vinho faz perdoar a pena de viver.
Bebe vinho! Vinho cor de rubi, vinho cor-de-rosa, vinho cor de sangue!
Bebe vinho!
Tens muitos séculos para dormir.
Vinho é amargo? Não importa! Tem o gosto da vida!
Todos os reinos por uma taça de vinho precioso.
Todos os livros e toda a ciência dos homens por um perfume suave de vinho.
Todos os hinos de amor pela canção do vinho que corre.
Toda a glória de Feridoum pelos reflexos do vinho na ânfora.
Bebo o vinho que me oferece uma linda rapariga e não cuido de minha salvação.
Sempre ouço dissertar sobre os gozos reservados aos eleitos, limitando-me a dizer:
Só tenho confiança no vinho.
Bebe vinho!
Só ele te dará a mocidade, ele é a vida eterna.
Bebe um pouco de vinho porque dormirás muito tempo,
debaixo da terra, sem amigo, sem camarada, sem mulher.
Nosso amigo mais velho é o vinho mais novo.
O vinho destrói os cuidados que nos atormentam e nos dá a quietude perfeita.
Ouço dizer que os amantes do vinho serão castigados no inferno.
Se os que amam o vinho e o amor vão para o inferno o paraíso deve estar vazio.
Vinho! Eis o remédio que carece o meu coração doente.
Vinho com perfume almiscarado! Vinho cor-de-rosa!
Dá-me vinho para apagar o incêndio da minha tristeza.
Bebe e esquece que o punho da tristeza breve te derrubará.
Vinho! Vinho em torrentes! Que ele palpite em minha veias.
Que ele borbulhe em minha cabeça!
Quando bebo, ouço mesmo o que não me pode dizer a minha bem amada!
Mais vale uma ânfora de vinho do que o poder, a glória e as riquezas.
O vinho libertar-te-á das névoas do passado e das brumas do futuro.
O vinho inundar-te-á de luz, livrando-te dos grilhões de prisioneiro.
Quando Deus me criou sabia que eu beberia vinho.
Se me tornasse abstémio, sua ciência estaria errada.
Trazei-me todo o vinho do Universo!
Meu coração tem tantas feridas!…
O vinho proporciona aos sábios uma embriaguez semelhante à dos eleitos.
Dá-nos a mocidade, restitui-nos o que perdêramos, põe ao nosso alcance tudo o que desejamos.
O vinho queima como torrente de fogo,
mas, às vezes, tem sobre as nossas mágoas o efeito da água pura e fresca”.

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Agora uma pequena dica: guardem este syrah durante uns anos, apostamos, para já, em 4 anos, e depois vejam a evolução! Este é um syrah capaz de aguentar e melhorar com o tempo. Até apostamos, se for caso disso!

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E terminamos dizendo: se quiserem fazer um brilharete junto de amigos e familiares e não despender muito dinheiro, eis uma óptima opção: Vale Zias syrah!

 

Classificação: 16/20                                              Preço: 4,54€

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Herdade dos Lagos, Soc. Agrícola Herdade dos Lagos, Lda, 100% Syrah, Alentejo, 2012

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E voltamos de novo ao Alentejo, sempre com enorme regozijo. Tem mesmo que ser! É que se trata de uma combinação perfeita: Syrah e Alentejo!

Explique-se: os grandes syrah (com excepções, que torna tudo mais “aliciante”) encontram-se aquém e além Tejo. Isto é uma verdade, se não a cem por cento, pelo menos a noventa!

Hoje trazemos ao nosso convívio o syrah da Herdade dos Lagos, concelho de Mértola. É um vinho feito em regime de agricultura biológica. Não tem químicos, nem pesticidas! Trata-se de um vinho regional alentejano, cuja produção foi de 12000 garrafas. “Apresenta cor rubi intensa. Aroma frutado a ameixa madura. Cheio, redondo, complexo, boa acidez, terminando longo.” Em suma, qualidade plena e assegurada!

Foi vinificado pelo processo tradicional de curtimenta em lagares inox com temperaturas de fermentação a cerca de 28ºC. Teve  um estágio em barricas de carvalho francês e americano durante 12 meses. A longevidade prevista é de 8 anos. O blogue do syrah prevê pelo menos 12 anos! Apresenta um teor alcoólico de 14,5 %.

Em conversa telefónica com Carlos Delgado, agrónomo e responsável pela produção da Herdade dos Lagos, e que já tínhamos tido a oportunidade de conhecer o ano passado na Feira dos Vinhos na FIL, em Lisboa, ficamos a saber o historial do syrah na Herdade.

Fizeram-se 6 safras: 2004 e 2005 com 7000 garrafas, 2006 com 24000 garrafas, 2008 com 12000 garrafas, todas do mestre António Saramago. Em 2010 e devido a uma grande encomenda específica para a Alemanha toda a safra foi acondicionada em garrafas de 1,5 litro e de 3 litros. 2700 garrafas da primeira e cerca de um terço da segunda. A presente safra de 2012, com 3500 garrafas é de agricultura biológica (daí a quebra da quantidade) e é do enólogo Carsten Heinemeyer.

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E agora um pouco de história vinícola local.

A produção agrícola é desenvolvida em 1000 hectares, seguindo os princípios da agricultura biológica certificada, como já referimos, um modelo de negócio baseado na utilização eficiente dos recursos através do uso de energias renováveis e na preservação ativa da natureza. A Herdade dos Lagos pertence à família Zeppenfeld há mais de trinta anos. Ao longo do tempo, a propriedade foi alvo de muitas alterações.

A região do Alentejo está situada no sul de Portugal e era antigamente considerada o celeiro de Portugal,  pelo que a actividade principal da quinta foi sempre a agricultura.

Quando o armador de Bremen Horst Zeppenfeld, na altura capitão, se rendeu a Portugal, tinha já um sonho: cultivar vinhas e olivais. A sua família e o gerente Dietmar Ochsenreiter trabalharam continuamente para a concretização desse sonho.

Actualmente, uma área de 1000 hectares com as suas cinco barragens serve de pastagem a cerca de 1000 ovelhas, mas em primeiro plano está o cultivo da vinha, da oliveira e da alfarroba.

Na família, a filha, Antje Kreikenbaum, assumiu os departamentos de marketing e distribuição dos produtos da Herdade dos Lagos, bem como a responsabilidade de promover novas perspectivas, com o apoio do marido, o arquitecto paisagista Thorsten Kreikenbaum.

A transição para a produção biológica revelou ser um enorme desafio e uma das mais significativas mudanças na Herdade.

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Em cerca de 25 hectares crescem as castas Syrah (a estrela internacional), Aragonez (conhecida na Espanha como Tempranillo), Touriga Nacional (uma uva tradicionalmente usada no vinho do Porto) e Alicante Bouschet (do intenso jogo decor).

A diferenciação que resulta na produção de diferentes qualidades de vinho começa na própria vinha. A melhor zona está destinada aos vinhos de Reserva e é também nesta que se verifica uma poda mais intensa. A zona com mais sombra está destinada ao Rosé e ao Blanc de Noir. Dado que a sua colheita é a mais precoce e a que implica menos poda, consegue-se obter um teor de álcool mais baixo e uma boa acidez. As uvas são colhidas à mão nas primeiras horas da manhã e transportadas em frio para a adega.

Nem só de políticas macro-económicas, planos de ajustamento e programas de reformas estruturais, se fazem as relações entre Portugal e Alemanha!

O exemplo está na Herdade dos Lagos, a “meio caminho” entre Beja e Mértola e propriedade de Horst Zappenfeld, empresário alemão com interesses na área do transporte de carga por via marítima, que exporta mais de dois terços da sua produção anual de vinho para terras germânicas.

Cerca de 70% do vinho é vendido para a Alemanha e também para a Suíça. O restante vai para o mercado nacional, onde não se trabalha com as grandes cadeias de supermercados, à excepção do Intermarché, mas há consumidores que adquirem os vinhos e o compram através das garrafeiras e dos restaurantes. Localizada próximo da localidade de Vale de Açor, na freguesia de Alcaria Ruiva, a Herdade dos Lagos perde-se de vista e por lá é possível encontrar gado e olival (80 hectares), além do maior alfarrobal de Portugal (260 hectares) e 25 hectares de vinha e onde trabalham a tempo inteiro doze pessoas.

Em 2011 saíram da herdade perto de 130 mil garrafas, num total de 100 mil litros de vinho, e nos anos seguintes a produção teve valores semelhantes, sendo que cerca de 70% se destina à exportação, sobretudo para a Alemanha e para a Suíça.

A Herdade está também a pensar entrar no Canadá e nos EUA, além de querer reforçar as suas vendas na Europa.

Há um provérbio francês que vem bem agora a propósito e que diz que “na água vemos o próprio rosto reflectido. Mas no vinho, contemplamos o coração do outro.”

Façam o favor de ver o nosso coração:
“Olhe desculpe, importa-se de me trazer mais uma taça de syrah da Herdade dos Lagos?”

Classificação: 17/20                                           Preço: 11,50€


 

Quinta do Sobreiró de Cima, Sociedade Agrícola Comercial SA, 100% Syrah, Trás-Os -Montes, 2010

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(Informação actualizada)

Há dois Syrah em Trás –os-Montes. O da Quinta de Arcossó, de que já falámos, e este da Quinta do Sobreiró de Cima, de que vamos falar hoje, em Valpaços. São os dois especiais. E é com muito prazer que o fazemos. Embora nem tudo sejam rosas. Vamos à explicação.

O Syrah da Quinta do Sobreiró de Cima, que se pode encontrar na grande Lisboa em três sítios distintos, dos quais destacamos a garrafeira Estado de Alma, é um Syrah com 14,5% de graduação alcoólica, tratando-se de um  vinho de “cor granada concentrada, um aroma confitado a lembrar fruta preta muito madura, alguma especiaria, com toque balsâmico da casta, na boca é muito cheio, aveludado com os taninos presentes e com um final longo e persistente.” Depois duma exposição destas quem é que não ficou com vontade de o provar?

E depois de o provar vai ficar amigo dele…ou cliente!

É dum anónimo o seguinte poema intitulado justamente:

CLIENTE, MEU AMIGO
Lembre-se que quatro copos fazem um litro e que dois litros fazem uma rodada.
Duas rodadas uma discussão e uma discussão uma briga.
Uma briga uma pancadaria e uma pancadaria dois policiais.
Um juiz, um escrivão e um oficial de justiça efetuam uma multa ou alguns dias de prisão, mais as despesas do processo.
As despesas levam à ruína, a ruína ao suicídio, o suicídio à morte.
A morte deixa viúvas alegres e lindas mães satisfeitas.
Fora isso, venha aqui,
beba moderadamente,
pague honradamente
e saia amigavelmente.
Volte para a sua casa tranquilamente
e beije com carinho sua mulher
pensando nas dos outros.

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No princípio do texto dissemos que em relação a este Syrah “nem tudo são rosas” e é verdade. Não, em relação ao Syrah em si, que é de qualidade evidentíssima, mas em relação ao tipo de divulgação que a Sociedade Agrícola Comercial SA utiliza. E qual é? Nenhuma! Absolutamente nenhuma! E depois não nos venham gritar que o “negócio” está em crise! Esta sociedade detentora do Syrah Quinta do Sobreiró de Cima, não tem site, não tem blogue, não tem sequer Facebook, não está presente em nenhuma outra rede social. Não há nada em discurso directo sobre esta sociedade e este Syrah. O que há é em sítios informativos, o nome da sociedade, a morada nº de telefone e nº de fax. Mais nada! Aliás, diga-se em abono da verdade que conseguimos não um mas dois números de telefone da rede fixa. Durante três dias telefonámos para lá a diversas horas de expediente habitual duma empresa, de manhã, antes e imediatamente a seguir ao almoço, a meio da tarde… e nada! Os telefones não funcionam! Como é que é possível deste modo o público consumidor e amante de Syrah, e deste em particular, ter informação para além do que vem na garrafa? É muito difícil desta forma escrever sobre este Sobreiró, só não dizemos impossível porque pelo menos a região de onde vem está cheia de história, e de histórias.

Falemos pois de Valpaços, região onde é produzido este Syrah.

Inúmeras vinhas velhas que pareciam condenadas ao abandono estão hoje na base do renascimento dos vinhos de Valpaços, famosos desde os tempos do império romano.

Os vinhos de Valpaços, região de Trás-os-Montes, andam há muito tempo arredados do panorama mediático. Seguiram o mesmo declínio do interior do país, fossilizando-se pouco a pouco. Nunca deixaram de ser produzidos, mas a base de consumo foi-se estreitando e confinando-se praticamente ao mercado local e regional. No entanto, estamos a falar de vinhos com mais de dois mil anos de história, muito apreciados no tempo do império romano, existindo até a tese de que o nome de Valpaços estará relacionado com o vinho “passum“, o vinho doce pelo qual os romanos nutriam especial predilecção. Desse tempo, ainda subsistem no concelho alguns lagares esculpidos na rocha, naquela que é uma das maiores colecções de lagares romanos do mundo.

Hoje já ninguém faz vinho na pedra. Nos últimos anos, num movimento extensivo a outras zonas de Trás-os-Montes, vários produtores passaram a olhar mais longe e a produzir vinho de forma moderna. Recuperaram lagares antigos, construíram um ou outro de raiz e passaram a engarrafar o vinho com marca própria. Ainda são pouco conhecidos, mas alguns deles vão dar que falar, se conseguirem ser perseverantes e não desperdiçarem o melhor que têm: vinhas centenárias, castas bem adaptadas ao lugar, solos ideais para a cultura da vinha e cotas que garantem vinhos maduros mas ao mesmo tempo frescos. E por favor, não se esqueçam de fazer divulgação e partilhar informação.

As condições naturais do concelho são de tal forma ideais que no final da monarquia ainda foi equacionada a inclusão de Valpaços na região do Douro. A ideia não vingou e a vizinhança da região duriense, com o seu peso e prestígio, foi passando factura aos vinhos produzidos nas encostas do rio Rabaçal. Actualmente, a situação é mais favorável. A padronização crescente do vinho abriu novas oportunidades a regiões menos conhecidas e originais e as alterações climáticas estão a elevar a cultura da vinha para cotas mais altas e frescas. Castas como a Tinta Roriz, que no Douro produz fracos resultados nos vinhos tranquilos, podem originar vinhos magníficos em Trás-os-Montes, tirando partido da maior altitude.

No caso de Valpaços, além da Roriz, as castas com mais tradição são o Bastardo, a Tinta amarela (nos tintos), o Gouveio, a Códega do Larinho e a Malvasia Fina (nos brancos). Nas vinhas novas, começa a ganhar relevo a Touriga Nacional (com grandes resultados) e a Touriga Franca (a par de uma ou outra casta estrangeira, como a nossa Syrah, naturalmente).

Para mais conhecer mais sobre esta zona vinícola e não só, recomendamos uma visita à Adega Cooperativa de Valpaços, onde sim existe muita informação sobre a região.

Sabemos que este Syrah tem pernas para andar e continuar, e esperemos que assim prossiga!
É que seria uma pena não o encontrar mais: a classificação que lhe damos diz tudo!

Classificação: 17/20                            Preço: 12,50€

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Alentejo eleito melhor região vinícola do Mundo

Alentejo eleito melhor região vinícola do Mundo

O vinho alentejano está de parabéns.

Isto porque o nosso Alentejo foi eleito a melhor região vinícola do mundo, de acordo com uma votação promovida pelo USA Today, o maior diário norte-americano, e pelo portal para viajantes 10Best que é conhecido pelas suas populares votações sobre diversos tópicos relacionados com o mundo das viagens. Superou outros 19 concorrentes, entre os quais nomes sonantes no universo vínico, como Champanhe (França) e La Rioja (Espanha).

O concurso terminou no passado dia 4 de Agosto. A tão aguardada vitória — o destino luso estava na liderança no que a votos diz respeito — foi confirmada esta quarta-feira.. Em competição estavam 20 candidatos pré-selecionados, escolhidos pelos peritos em vinho Frank Pulice e Kerry Woolard, colaboradora que descreve a região assim: “Quando a maior parte das pessoas pensa em Portugal, pensam imediatamente no Douro. Mas rume para sul até ao Alentejo e não ficará desapontado. Adegas, hotéis de serviço completo, excelentes restaurantes e, claro, vinhos formidáveis”. O destino, o único português em competição, é tido como uma região rural que potencia uma viagem no tempo. Além disso, e segundo Kerry, é conhecido pelos “vinhos tintos robustos” e por fazer chegar à mesa comida “rústica e autêntica”.
O top 5 fica completo com Okanagan Valley na Colúmbia Britânica, Maipo no Chile, Marlborough na Nova Zelândia e Croácia.

O Alentejo de acordo com o USA TODAY é “esta intrigante região rural situada a duas horas de Lisboa é como uma viagem de volta no tempo para os amantes do vinho. O terreno diverso detém olivais e vinhas, aldeias pitorescas, prados cheios de flores e florestas”. É ainda referido que a comida no Alentejo “é rústica e autêntica, aproveitando ao máximo o estilo de vida agrário na região”.

Entre os 20 candidatos pré-selecionados, escolhidos por Kerry Woorlard e Frank Pulice, dois peritos do sector dos vinhos, o Alentejo era o único representante de Portugal.

Para a presidente da CVRA -Comissão Vitivinícola Regional Alentejana- Dora Simões, “é uma distinção importante para o Alentejo e também para o país, que tem impacto muito positivo no potencial de notoriedade que a região pode obter nos mercados internacionais; o facto de os leitores terem preferido o Alentejo a regiões tão famosas como a Borgonha, Champanhe, Rioja ou o Piemonte, vem também dar um grande impulso ao trabalho que é desenvolvido na promoção do vinho e do enoturismo no Alentejo, quer internamente, quer junto de mercados externos estratégicos”.

O Alentejo é a região líder no mercado nacional – quer na quota de mercado em volume (44,9%) quer em valor (46,7%), segundo os dados ACNielsen, na categoria de vinhos engarrafados de qualidade com classificação DOC e IG. Os Vinhos do Alentejo juntam 263 produtores e 97 comerciantes numa área total de vinha de 21 970 hectares, sendo que a área total de vinha aprovada para DOC Alentejano é de 11 371 hectares.

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Perante todos estes dados, qual a interpretação que o blogue do syrah apresenta?
Não nos podemos esquecer que a revolução vitivinícola que se operou em Portugal nos últimos 20 anos pode ter várias aspectos a salientar, sem dúvida que sim, mas o mais importante e verdadeiramente revolucionário a ter presente foi a introdução da casta syrah no sul do país e que se foi espalhando depois pelo norte.

Hoje a syrah é a quarta casta mais plantada no território nacional, e a zona com mais syrah do país é justamente o Alentejo, com 39 syrah declarados nestes 20 anos, para além de existirem blend alentejanos com percentagens variáveis de syrah na ordem das centenas.

Mark Squires uma autoridade no mundo dos vinhos escreveu no site de Robert Parker em Dezembro de 2007 que “Alentejo has always had some flagships, the region is developing an exciting group of wineries that can act as additional standard bearers and adding them to existing stalwarts like Cortes de Cima.”

Nos syrah alentejanos e na classificação atribuída pelo blogue do syrah temos dois syrah com nota de 19, sete com nota de 18 e dez com nota de 17. No total são 19 syrah muito bons ou, se quisermos dizer de outra maneira, de elevadíssima qualidade. Mas os onze syrah avaliados com a nota 16 não são obviamente desprezíveis, muito pelo contrário.

Muitos consumidores que só têm presente as marcas comerciais dos vinhos que bebem e não as castas envolvidas na feitura dos mesmos não fazem a menor ideia do syrah presente nos vinhos alentejanos que adoram e bebem. Lembra-me um pouco por analogia a mesma situação quando o Alicante Bouschet foi introduzido no Alentejo, faz mais de cem anos, mas os produtores não o mencionavam nos rótulos das garrafas, com vergonha de admitirem que usavam uma casta francesa na elaboração de vinhos alentejanos a par de castas tipicamente locais como a Trincadeira e o Aragonez (esta vinda há mais tempo ainda da vizinha Espanha).

Resumindo e concluindo: O Alentejo foi eleito a melhor região vinícola do Mundo e não temos que nos admirar com esse facto!
Só temos que o compreender e o incorporar na nossa cultura vinícola.

Podemos, por isso mesmo, passar a consumir, apreciar e degustar mais syrah!


 

Labrador, Quinta do Noval, 100% Syrah, Douro, 2011

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O Labrador é o outro syrah que existe no Douro. Já aqui tínhamos apresentado o syrah da Quinta da Romaneira, sendo que hoje cabe a vez ao syrah da Quinta do Noval, uma das quintas emblemáticas do Douro, conhecida e reconhecida internacionalmente.

E isto não é literatura como alguns poderiam pensar! Mas citamos o texto de Luís Fernando Veríssimo, que disse o seguinte sobre a dificuldade de descrever as sensações proporcionadas pela degustação do vinho: “Já disse mais bobagem sobre vinhos do que sobre qualquer assunto, com a possível excepção do orgasmo feminino e da vida eterna. Isto porque é impossível transformar em palavras as qualidades ou defeitos de um vinho, ou as sensações que ele provoca, assim como é impossível, por exemplo, descrever um cheiro e um gosto. Tente descrever o sabor de uma amora. Além de amplas e vagas categorias, como “doce”, “amargo”, “ácido”, etc., não existem palavras para interpretar as impressões do paladar. Estamos condenados à imprecisão ou ao perigoso terreno das metáforas. Tudo é literatura.”

Literatura ou não, este syrah da Quinta do Noval, nascido e criado pelo talento do enólogo António Agrellos, famoso pelo vinho do Porto, da mesma quinta, decidiu fazer esta experiência da qual se saiu bastante bem. Conhecemos a safra de 2010 e a de 2011, presentemente no mercado. É um syrah de “aroma muito marcado pela fruta preta, com traços minerais e aromas balsâmicos com alcaçuz. Intenso e poderoso, com notas pungentes a alcatrão, pimenta, casca de laranja. Na boca está fino e texturado, com acidez viva a dar-lhe leveza, taninos elegantes, boa textura e muita intensidade. Longo, equilibrado, com muita precisão e austeridade.”

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A Quinta do Noval, com 145 hectares que dominam o Vale do Pinhão, é a alma e a essência desta propriedade. O solo é essencialmente constituído por rocha xistosa, o que faz com que todos os trabalhos na vinha sejam particularmente difíceis.

A Quinta do Noval replantou desde 1994 100 hectares da vinha com as castas mais nobres da região do Douro, adaptando os métodos de poda à tipologia das parcelas. As parcelas foram replantadas em lotes de uma casta só, sendo cada uma escolhida de acordo com as características de cada parcela de terra: a altitude, a exposição solar e o tipo de plantação da videira.

Hoje em dia, as parcelas plantadas com misturas de castas estão progressivamente a desaparecer do Vale do Douro. A Noval foi uma pioneira nesta tendência, tendo sido a primeira a replantar as vinhas, conservando intactos os magníficos socalcos tradicionais com os seus muros de pedra de xisto.

Porque cada parcela é plantada com uma só casta, é possível escolher o momento ideal para as vindimar.

A Quinta do Noval é o único exportador histórico de Vinho do Porto que tem o nome da sua vinha. Beneficia de uma localização privilegiada, bem no coração do Vale do Douro.

A vinha, constituída pelas castas nobres da região do Douro, Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinto Cão, Tinta Barroca, Tinta Francisca e Sousão, está totalmente classificada com letra A, ou seja, de acordo com a classificação das vinhas foi criada pela Casa do Douro, que é revista todos os anos. Esta classificação tem por base sobretudo a qualidade do solo, a altitude, o microclima e o método de cultivo da vinha em cada parcela. As parcelas são classificadas segundo uma escala qualitativa de «A» a «F».

As parcelas da vinha possuem uma diversidade geográfica rica quer em altitude, em exposição e em solos. Estas características conferem aos vinhos diferentes nuances conforme a sua parcela de origem. Dessa fusão nasce a magia dos vinhos da Quinta do Noval.

Christian Seely proprietário da Quinta desde 2001 afirmou que «Estou sempre pronto para experimentar castas de outras partes do mundo. Considero essencial que se adaptem bem ao seu novo meio e se integrem como se fossem castas do Douro. Neste caso, a casta Syrah adaptou-se perfeitamente, exprimindo mais o “terroir” do Douro do que a tipicidade da casta.” Devemos dizer que não concordamos com esta última afirmação. O Labrador exprime mais, do nosso ponto de vista, a casta de que é feito, syrah, neste caso, do que o terroir do Douro. Colocando a questão deste modo, diríamos que o syrah da Quinta da Romaneira, de que já aqui falámos, está muito mais de acordo com a afirmação de Christian Seely.

Para concluir esta nossa digressão falta-nos explicar o nome deste syrah, que é uma homenagem ao cão, um Labrador precisamente, do António Agrellos, o enólogo que o concebeu e realizou.

É caso para dizer: “Syrah de um cão!”

Classificação: 16/20                           Preço: 11,50€