Herdade do Esporão, 100% Syrah, Alentejo, 2011

garrafa

Estamos em Reguengos de Monsaraz: terra de vinhos mas sobretudo uma terra de Syrah. E são vários os Syrah que nasceram aqui. Hoje falaremos de um deles, associado a uma marca bem conhecida: a Herdade do Esporão.

2011 é um ano reconhecido como memorável para todas as regiões vinícolas Portuguesas. A Primavera e o Verão com temperaturas mais amenas que o habitual trouxeram intensidade, equilíbrio e frescura aos vinhos.

O Syrah da Herdade do Esporão é feito com vinhas de 13 anos. Estagiou durante 12 meses em barricas de carvalho americano, seguidos de mais 18 meses em garrafa antes de ir para o mercado. Tem uma graduação alcoólica de 14,5%. Fez-se uma pequena produção de cinco mil litros, o que deu qualquer coisa como 6600 garrafas. As notas de prova dizem-nos: “Nariz compacto, com notas evidentes de tosta, e ligeiras notas de café torrado. Revela fruta negra madura com taninos musculados e acidez que conduz a um final bastante persistente.” Várias foram as safras deste syrah anteriores: houve a de 2010, 2009, 2008.Conhece-se igualmente a de 2004.

A Herdade do Esporão começa uma nova vida a partir de 1973, como vamos explicar. Tem actualmente uma produção global de 9 milhões de litros de vinho anual. Vende-se por todo o mundo. É um dos empórios do vinho português. A herdade possui um total de 194 castas, embora só 37 estejam em plena produção. Estas 37 variedades fundamentais correspondem às castas que melhor se adaptaram à região do Alentejo, muita das quais se encontram na região desde tempos longínquos.

A Herdade do Esporão alberga um terroir único, fruto da aliança entre um clima muito particular, regulado e amenizado pelo grande lago central, com os diferentes tipos de solo, e um vasto património vitícola constituído por castas autóctones, castas oriundas de outras regiões e castas internacionais. A paisagem tipicamente mediterrânica é composta por suaves planícies ondulantes que ocupam um pouco mais de 1.800 hectares de área total, 450 hectares dos quais ocupados com vinha e cerca de 80 hectares ocupados com olivais. O clima é particularizado pelas grandes amplitudes térmicas anuais características dos climas mediterrânico-continentais, suavizados pela grande massa de água do lago central. Beneficiando de muitas horas de sol, os solos muito pobres dividem-se em derivados de xistos argilosos e granitos derivados de rochas eruptivas. A Herdade do Esporão decidiu inovar, ensaiando um número elevado de castas pouco conhecidas em Portugal. A lista é extensa, e inclui nomes como Uva Salsa, Tinta do Bragão, Arinto do Interior, Larião, Amor-não-me-deixes, Carrasquenho ou Rabigato Francês, bem como castas internacionais de nome pouco vulgar como Ahmeur bou Ahmeur, Chasselas, Feteasca Alba ou Müller-Thurgau.

local

Desde a sua fundação em 1267, os limites geográficos da Herdade do Esporão têm-se mantido praticamente inalterados, apesar de este ter sido um lugar de sangrentas batalhas e de feitos heróicos, ao longo de quase nove séculos de existência. Soeiro Rodrigues, juiz da cidade de Évora, terá sido o primeiro dos muitos proprietários, entre os quais se incluem o mestre de Santiago Rodrigues de Vasconcelos, o Morgado D. Álvaro Mendes de Vasconcelos, que terá erigido a Torre do Esporão, e dos condes de Alcáçovas, que mantiveram a propriedade na família até 1973, ano em que venderam a Herdade do Esporão a José Roquette e Joaquim Bandeira. No centro da Herdade do Esporão erguem-se os três monumentos históricos da propriedade: a Torre do Esporão, o Arco do Esporão e a Ermida de Nossa Senhora dos Remédios, esta última ligada a um intenso e devoto culto popular na região que leva as gentes da terra em procissão sempre que a chuva tarda em chegar. A Torre do Esporão, símbolo de afirmação na sociedade e exibição de poder militar, é uma das torres mais importantes na ilustração da transição da Idade Medieval para a Idade Moderna em Portugal. Terá sido edificada pelo Morgado já referido antes, entre os anos 1457 e 1490, datas que correspondem, respectivamente, ao momento da posse do morgado e ao seu falecimento. Esta atribuição é do historiador José Pires Gonçalves, que teve em conta o projecto arquitectónico de implantação da Torre. Álvaro Mendes de Vasconcelos vinha de uma família nobre em ascensão ligada à poderosa Casa de Bragança – era cavaleiro da casa do Duque de Bragança e regedor da cidade de Évora. Entende-se, assim, a construção da Torre do Esporão como um sinal visível de erupção da pretensão aristocrática. Esta era uma necessidade de afirmação da nova linhagem que, entre outros sinais, tinha por hábito erguer uma torre ou casa forte como verdadeiros símbolos da sua afirmação na sociedade. A função primeira deste tipo de torres era a de habitação, mas nos finais do século XV as torres que existiam em Portugal dificilmente serviriam de morada permanente, uma vez que as suas dimensões eram muito reduzidas. Podiam também ter sido refúgios seguros para pessoas e bens, em caso de extrema necessidade. Mas, antes de tudo, eram um símbolo de senhorio e poder militar. A importância que as torres medievais voltaram a adquirir no final da Idade Média verifica-se essencialmente na existência da referida Ermida de Nossa Senhora dos Remédios: a sua presença indica não só que os seus possuidores tinham começado a fazer mais uso das torres espaçosas, mas também que existia uma certa sacralização do espaço em que se erguiam. Desenhando um quadrilátero de 14,40m por 10,9m, a planta da Torre do Esporão apresenta dimensões pouco usuais – é relativamente mais larga, quando comparada com construções antecedentes ou mesmo contemporâneas. No entanto, mais tarde, acabou por servir de modelo a outras torres, o que demonstra bem a influência que teve em posteriores construções de torres no Alentejo.

herdade

Devido ao passar do tempo, a Torre do Esporão perdeu o seu esplendor. Tratando-se de um monumento marcante do património português, o Esporão tomou a iniciativa de lhe restituir a dignidade perdida. A autorização do Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR) para a sua reabilitação foi obtida, e o Esporão, por sua conta e risco, iniciou o processo de reabilitação deste monumento nacional em 2003, tendo recuperado a sua antiga grandeza e importância. É o edifício mais importante e representativo de todo o conjunto que compõe a Herdade. No rés-do-chão da Torre pode visitar-se um Museu Arqueológico, onde estão expostos diversos achados arqueológicos da região.

Isto tudo se conta também porque no logotipo da Herdade a torre aparece com todo o destaque, servindo com toda a relevância a divulgação da marca.

logo

A Herdade do Esporão beneficia de um clima mediterrânico-continental, com exposição solar intensa, com uma média anual de 300 dias de sol. O clima é também caracterizado por grandes amplitudes térmicas anuais, com Verões muito quentes e secos e Invernos curtos e chuvosos, com consideráveis amplitudes térmicas diárias. Estas características definem profundamente, a fauna, a flora, a paisagem, a arquitectura e as gentes do Alentejo. A Herdade do Esporão apresenta todas as características de uma paisagem tipicamente mediterrânica. São vários os hectares de montado de azinho que aqui estão presentes. A azinheira, espécie com distribuição mais alargada na zona mediterrânica, domina a paisagem do Esporão, fazendo parte de um ecossistema que alberga espécies tão importantes como a cegonha-negra ou a lontra que vagueia pela ribeira da Caridade, uma ribeira importantíssima para anfíbios e mamíferos desta Herdade. A albufeira existente na propriedade, com 120 hectares, construída para servir as necessidades típicas de um clima deste tipo, é hoje em dia, um ecossistema totalmente natural, já visitada por cerca de 90% das aves de todo o Alentejo e a “casa” de patos, mergulhões, galinhas-de-água, lontras, entre muitas outras espécies. É aqui, entre montados, olivais e vinhas que se podem encontrar todas as características de uma paisagem mediterrânica.

vinhas

Se as vinhas são o pulmão da Herdade do Esporão, a adega é o coração que palpita ao ritmo da vindima e da sequência dos trabalhos definidos pelo calendário e pela equipa de enologia. A equipa de enologia do Esporão é liderada pelo Luso-Australiano David Baverstock, uma referência na enologia portuguesa, que tem dado um contributo decisivo para a afirmação nacional e internacional dos vinhos do Alentejo. A equipa de enologia completa-se com os enólogos Luis Patrão, a quem estão atribuídas responsabilidades na elaboração dos vinhos tintos, e a Sandra Alves, a quem estão atribuídas responsabilidades na elaboração dos vinhos brancos e rosés. A mesma equipa é responsável pelos vinhos da Quinta dos Murças no Douro, a que se junta o Australiano Michael Wren durante os meses de Julho a Outubro.

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O grande túnel de barricas do Esporão, por si só uma das atracções turísticas da Herdade do Esporão, ao assemelhar-se na sua estrutura a um túnel de metro com os seus quinze metros de largura, está firmemente enterrado a doze metros de profundidade, permitindo assim que se mantenham as melhores condições de temperatura e humidade de forma natural, sem necessidade de regulação de temperatura de forma artificial e sem custos energéticos e ambientais. Neste longo túnel de descanso repousam aproximadamente 1.500 barricas bordalesas de 225 litros cada, das quais cerca de 70% são de carvalho americano e as restantes de carvalho francês. Cerca de 30% do parque de barricas é renovado periodicamente a cada três ou quatro anos. Para além do grande túnel de barricas existem ainda nichos laterais onde se guarda e estagia o vinho já depois de engarrafado, para além de uma garrafeira onde se guarda um acervo o histórico das nossas melhores colheitas.

Nada melhor para acabar esta digressão do que citar o filósofo grego Heráclito quando dizia: “É melhor esconder a ignorância, mas é difícil fazê-lo quando nos descontraímos em redor do Syrah!”

Classificação: 18/20                                           Preço: 24,50€

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