Monthly Archives: May 2015

Vinho – Alguns preconceitos que é preciso desmistificar!

Um dos principais mitos sobre o vinho diz que quanto mais velho melhor. Tal não é verdade, como iremos ver!

Há muitos anos um amigo nosso de longa data ofereceu-nos um vinho tinto da Adega Cooperativa de Valpaços, do ano de 1962. Ficámos sensibilizados, porque o ano em causa é o ano de nascimentos de um dos autores do Blogue do Syrah, logo uma prenda com cariz simbólico. Ficámos muito agradados, e logo ali prometemos que quando abríssemos a garrafa, esse nosso amigo estaria também presente para todos degustarmos da preciosidade em causa. Alguns meses após essa intenção, surgiu a possibilidade de um jantar em que esse nosso amigo estaria presente. As promessas são para se cumprir e no dia em causa lá se abriu o célebre vinho tinto da Adega Cooperativa de Valpaços de 1962. Só que… pois… logo pelo cheiro se percebeu que o vinho estava obviamente estragado. Um pivete a vinagre. Na qualidade de vinagre estava bom, mas como vinho de mesa estava uma autêntica desgraça.

O vinho, exceptuando a água e a cerveja, deverá ser a bebida alcoólica mais antiga que existe, talvez desde a Idade do Bronze. Além de ser uma bebida hedónica, ligada ao culto de Baco, foi igualmente muito utilizada para muitos cuidados de saúde, numa era sem analgésicos ou anticépticos, e está presente no dia a dia da civilização ocidental há milénios. É claro que tamanha tradição e utilidade geram muitos mitos e lendas.

Vamos passar a limpo alguns dos mais famosos preconceitos que envolvem uma das maiores dádivas do mundo ocidental. Então vamos às primeiras dúvidas que envolvem o vinho, as suas verdades e mitos, começando pela história com a qual começámos este texto:

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1º preconceito: Vinho quanto mais velho, melhor?

O vinho é a bebida fermentada com maior capacidade de envelhecimento, e alguns vinhos chegam a durar décadas antes de estragar. Mas a maioria, os chamados “vinhos comerciais”, possuem uma durabilidade média de seis anos. Os vinhos que duram muitos anos são aqueles que possuem alto grau de acidez, taninos e álcool, e que, quando jovens, são muito adestringentes, sendo necessário que evoluam lentamente na garrafa até atingir seu ponto ideal.

Os vinhos que possuem capacidade de envelhecimento superior a dez anos são os Bordeaux Cru Classé, o Porto Vintage, o Riesling Grand Crus alemão, o Sauterne Cru Classe, o Borgonha Grand Cru, e mais uns poucos. Entre nós, famoso, temos  por exemplo o Colares Chita, que só se pode beber a partir dos 15 anos de garrafa.

 

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2º preconceito: Garrafas de base profunda são garantia de vinhos melhores?

Mais um grande equívoco. Na verdade, o fundo serve de encaixe entre as garrafas que ficam no depósito da adega, antes de serem rotuladas. Deitadas, as garrafas ocupam pouco espaço, mas precisam estar bem encaixadas para que a pilha não desabe. Portanto uma garrafa de fundo profundo pode conter um excelente vinho ou uma bebida ordinária, bem embalada, para fisgar bebedores incautos. A prova do vinho deve ser feita no copo, nunca pela embalagem ou rótulo.

 

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3º preconceito: O vinho precisa ser guardado em ambiente escuro e com temperatura controlada?

O vinho é uma bebida que não resiste muito ao calor e à luminosidade. Por isso, deve ser mantido em temperatura constante entre 14ºC e 18ºC e sem luz direta sobre a garrafa. Pode até ser armazenado na casa dos 20ºC, e com alguma luz, mas isso pode acarretar um envelhecimento precoce na bebida.

 

4º preconceito: O fundo da garrafa serve para se apoiar o dedo.

A pessoa que vai servir o vinho deve achar um modo confortável e seguro de manejar a garrafa, mas o formato côncavo do fundo não foi desenvolvido para este propósito. Uma das utilidades é para dar apoio às garrafas na adega, como já dissemos.

Outro motivo para a utilização deste formato é mais comum na produção de vinho espumante, para a distribuição da pressão na hora de colocar a rolha no gargalo, a fim de que a garrafa não rebente.

 

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5º preconceitoVinho rosé é resultado da mistura de vinho tinto e de vinho branco.

O vinho rosé é resultado da fermentação de uvas tintas, mas com pouco contacto com a casca – que dá a cor ao vinho – e não da mistura entre vinhos feitos. A afirmação acima serve apenas para denegrir a imagem de um vinho muito sutil e bom companheiro para aves, carnes brancas, saladas e legumes grelhados.

Durante as primeiras horas de fermentação, as cascas passaram um tom cereja para o mosto. Neste momento, o enólogo retira as cascas e a fermentação segue, mas sem mudança da cor. O vinho rosado é elaborado com uvas para vinhos tintos: Malbec, Cabernet, Sangiovese, Grenache, Pinot Noir e também o nosso Syrah. Já agora por curiosidade há um Syrah Rosé, só um, da Quinta do Monte d´Oiro de Alenquer (falaremos dele em breve). As exceções são os espumantes: neste caso, é permitida a mistura entre vinhos.

 

6º preconceito:   Vinho feito de várias castas não é bom. Os melhores são os de uma única casta.

Os vinhos do Novo Mundo, em sua maioria, são feitos de uma única casta, cujo nome vem estampado no rótulo. Entretanto, isso não significa que os vinhos de uma única casta são os melhores. Na Europa, a maioria dos vinhos vêm de corte entre duas ou mais castas.

O que torna um vinho bom não é só a casta da qual foi feito, mas a qualidade da videira, a quantidade praticada na colheita, a técnica de vinificação, a higiene na elaboração e a qualidade da safra, e tanto faz se vem de uma ou de mais uvas.

 

7º preconceitoVinho feito de uma só casta não é bom. Os melhores são os de várias castas.

Este preconceito pode ser rebatido da mesma maneira que o preconceito anterior. Um vinho de só casta pode ser muito bom ou não, o mesmo acontecendo com vinhos feitos com duas, três, quatro ou cinco castas. Mais uma vez o que torna um vinho bom não é só a casta da qual foi feito, mas como foi dito anteriormente, a qualidade da videira, a quantidade praticada na colheita, a técnica de vinificação, a higiene na elaboração e a qualidade da safra, e tanto faz se vem de uma ou de mais uvas.

 

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Ponto único:

É claro que para nós Blogue do Syrah o melhor vinho terá que ser feito sempre com a casta que nos enche o palato e todos os sentidos com profunda paixão, a Syrah, mas isso é uma questão de opção cujas motivações tentamos apresentar continuamente e explicar a cada texto aqui apresentado!


 

Brett Edition, Herdade do Arrepiado Velho, 100% Syrah, Alentejo, 2009

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Na zona de Sousel, Alentejo, aparece-nos, da planície a perder de vista, um Syrah de uma qualidade acima da média, sobre o qual olhar e paladar se alongam… e com um nome enigmaticamente inglês!
Fomos à procura de respostas.

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Em primeiro lugar a explicação para este nome. O “Brett” do nosso título, nome curto para designar a levedura «Brettanomyces/Dekkera», tem a capacidade de produzir determinado tipo de aromas, que se tentam descrever falando em suor de cavalo, cabedal e outros. Defeito ou virtude é parte da composição do aroma dos grandes clássicos de sempre e é, por muitos, apelidado como a “complexidade do velho mundo”. No entanto, é por outro lado, também, considerado por muitos um escandaloso defeito. Esta edição do Brett é um desses casos em que a natureza decidiu tomar liderança na enologia, estagiando parte do vinho nas barricas da edição anterior. E é aqui que reside a explicação: um Syrah ‘infectado’, de modo natural, pela levedura Brettanomyces. O resultado é um néctar multidimensional, produzindo o “Brett” níveis de complexidade aromática, que só seriam possíveis com vários anos de garrafa, mas mantendo ainda toda a fruta.

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O mestre deste resultado é António Maçanita, enólogo sobejamente conhecido no mundo vitivinícola português. O Brett Syrah tem as seguintes notas de prova: “Cor ruby- violeta, concentrado. Nariz exuberante, caixa de cigarro, couro, especiarias e groselhas pretas. Ataque redondo, suave e rico. Boa frescura e persistência no final de prova.” Tem um teor alcoólico de 14,5%, com 16 meses de estágio em barricas de carvalho francês.

A qualidade começa nos solos xistosos e na vinha, cuidada e respeitada durante todo o ano. As castas foram plantadas em duas fase. A primeira fase Touriga Nacional (42%) e Syrah (18%) e numa segunda fase , cerca de 4 anos depois as restantes: Cabernet Sauvignon (24%) e Petit Verdot (16%); e as castas brancas – Antão Vaz (22%), Chardonay (8%), Viognier (30%), Verdelho (15%) e Riesling (15%).

Todas as uvas são vindimadas à mão, seleccionadas em mesa de escolha à entrada na adega, e a vinificação decorre a temperatura controlada. Em regra, os tintos fazem curtimenta de 20 a 30 dias e estagiam, no mínimo, 9 meses em barricas de madeiras seleccionadas para a obtenção do perfil pretendido para os vinhos.

Com um perfil diferenciado em relação à grande maioria dos vinhos da região, numa aliança entre a tradição das castas alentejanas e traços de uma enologia moderna e jovem, os vinhos do Arrepiado marcam a diferença pelo seu carácter arrojado, mas de qualidade superior.

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E agora um pouco de história sobre a Herdade do Arrepiado Velho. Sousel, a cerca de 40 km de Portalegre, no Alto Alentejo, viu nascer um espaço havia muito abandonado. O monte alentejano do séc. XIX foi construído de acordo com a arquitectura tradicional da região, magnificamente conservado, pleno de espaços de rara beleza. Com uma área total de cerca de 100 hectares, a barragem destaca-se entre vinhas e olival, num misto de cores e tranquilidade, como só o Alentejo consegue oferecer. O conjunto destas características faz com que a Herdade do Arrepiado Velho se integre na Rota de São Mamede – um dos três caminhos da rota dos vinhos do Alentejo.

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Decorria o ano de 2002 quando os 33 hectares de vinha foram plantados de raiz, num terroir que combina, de forma rara, solos xistosos de acentuados declives com temperaturas amenas e abundância de água, características naturais indicadoras de grande potencial. David Both (viticultor) e António Maçanita (enólogo) juntaram os seus conhecimentos, inovação e dedicação, seleccionando, com elevado critério, as castas a plantar, e criaram a já apelidada “Vinha dos 100 pontos”. A partir de 2012, a vinha passa a ficar a cargo de Nuno Ramalho, viticultor actual. Apesar de já haver o projecto para uma adega nova, a já existente está equipada com a mais avançada tecnologia disponível e devidamente dimensionada para a actual produção de vinhos únicos e sedutores, que nascem a partir de enologia moderna combinada, de forma sublime, com a tradição.

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E vamos pois entrar no enlevo deste Syrah, misturando nos eflúvios degustativos as palavras de Byron, um dos nossos poetas de eleição, que dizia:
“O Syrah consola os tristes, rejuvenesce os velhos, inspira os jovens, alivia os deprimidos do peso das suas preocupações.”

É por aí que vamos!

 

Classificação: 18/20                                                     Preço: 18,50€

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Quinta Vale de Fornos, 100% Syrah, Tejo, 2012

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Hoje estamos na Azambuja para apresentar o Syrah da Quinta Vale de Fornos, um vinho de cor granada, que segundo as notas de prova tem “um aroma complexo a fruta confitada, pimenta e chocolate. Apresenta-se com uma boca bem estruturada por taninos aveludados e elegantes. Complexo, apresenta notas varietais de trufa e especiarias. Termina persistente e com um bom retronasal.” Tem uma graduação alcoólica de 15%.Três safras viram até agora a luz do dia: as de 2005 e 2007, e esta, em análise, de 2012.

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A Quinta Vale de Fornos situa-se no concelho da Azambuja, em pleno coração do Ribatejo, beneficiando de uma excelente localização e de uma deslumbrante envolvência paisagística.

A Quinta Vale de Fornos é hoje o resultado da história que ao longo dos séculos por ali passou, consolidando a sua responsabilidade cultural. Comprada por Dª Antónia Ferreira (a Ferreirinha) para oferecer à sua filha, por altura do casamento desta com o 3º Conde da Azambuja, esta propriedade foi palco de vários episódios históricos, onde figuraram tão ilustres nomes como Napoleão e Cristovão Colombo.

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Diz-se que nesta propriedade estiveram alojadas as tropas de Napoleão durante as invasões Francesas e pelos seus vinhedos terá também passado Cristovão Colombo a caminho da casa de D. João II em Vale do Paraíso, para comunicar ao Rei a descoberta do Continente Americano.

Sendo uma propriedade de 200 hectares que alia a herança histórica e a tradição cultural ao lazer, aos eventos e, principalmente, à produção de vinhos, a Quinta Vale de Fornos torna-se um espaço único para quem a visita, onde impera a sintonia entre as suas diversas valências, entre elas o Enoturismo e Eventos.

Com uma tradição que remonta ao século XVIII, o objectivo da Quinta Vale de Fornos é internacionalizar a sua esfera comercial, preservando os seus valores culturais e as características próprias dos seus produtos. Dispondo de uma imponente casa senhorial, cuja traça e cor, características das paredes, sempre foram mantidas, a propriedade goza de uma forte tradição, tanto pela antiguidade e pelo património, como pela ligação a ilustres famílias da Nobreza.

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A Quinta de Vale de Fornos foi adquirida pelos presentes proprietários em 1972 a D. Pedro de Bragança.

O Syrah da Quinta Vale de Fornos é um daqueles vinhos com peso histórico a que ciclicamente apetece regressar, até para podermos dizer como Homero: “O Syrah pode iludir o conhecimento dos sábios e fazer os sérios sorrirem e brincarem.”
Fica dito!

 

Classificação: 15/20                                                     Preço: 11,00€

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Cortém, Vinhos Cortém, 100% Syrah, Lisboa, 2010

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Hoje estamos na região vitivinícola de Lisboa, para falar de uma aventura migratória, a de dois ingleses que a dada altura da vida decidem mudar de vida. Estamos a falar do casal Christopher Price e da sua mulher Helga Wagner. Como é que um engenheiro de som britânico e uma editora de som germânica chegam a Portugal para produzir Syrah, e ainda por cima biológico? É essa história que vamos contar!

A vontade de alterar o ritmo de vida surge quando menos se espera, por motivos a maior parte das vezes sem explicação aparente. Mesmo quando a vida profissional parece estável, com sucesso, por vezes debaixo de grande ansiedade. Talvez aqui a motivação primeira tenha sido o amor pelo vinho, e também pela fama tranquila deste nosso Portugal, marginal e aprazível. Eis então que dois profissionais do som para cinema decidem abandonar um certo modo de viver e comprar uma pequena parcela de terra com 4,5 hectares perto de Caldas da Rainha, uma zona predominantemente virada para a fruticultura, e começar a plantar videiras com o objectivo de produzir vinho, criando assim o Vinhos Cortém, numa atitude de verdadeira paixão por esta arte tradicional.

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E o que assim começou foi continuando a crescer, até à produção actual de 15 mil garrafas por ano. Foi um processo auto-didacta e de estudo, de partilha de informação e de leitura de livros. Todo o trabalho é feito pelo próprio casal com a ajuda de amigos, tirando o melhor partido do terroir de Cortém, a aldeia que dá o nome ao vinho, de clima frio mas temperado pela brisa do Atlântico.

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A variedade de castas plantadas leva à produção de 7 vinhos diferentes em pequenos lotes, utilizando-se as técnicas ancestrais de vinificação. O facto de não ser uma região muito quente, leva a que as vindimas sejam atrasadas em comparação com outras zonas, geralmente para Outubro. Existem assim as castas tintas portuguesas tradicionais  Jaen, Touriga Nacional, Touriga Franca, Aragonez e Tinto Cão; as castas tintas mais internacionais, como a nossa Syrah, Merlot, Cabernet Sauvignon, Petit Verdot, Cabernet Franc, Tannat, Pinot Noir, Syrah, Carmenere; e as castas brancas: Sauvignon Blanc, Viognier.

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Os Vinhos Cortém possuem ainda a particularidade de serem produzidos segundo a certificação orgânica, como já referimos, não se utilizando qualquer aditivo ou agentes químicos, com excepção do sulfito, em baixa concentração, para estabilizar o vinho. O nosso casal declara também não usar o carvalho no processo de envelhecimento. A fermentação decorre durante 2 a 3 semanas em banheiras cobertas parcialmente e agitação manual duas vezes por dia. O estágio final dá-se em tanques de aço inoxidável durante 2 a 3 anos.

Já foram vários os prémios obtidos pelos Cortém, e já houve quem os achasse semelhantes aos Bordeaux, pela relativa semelhança entre o clima.

O que nos regozija sim é que estes nossos amigos decidiram, e muito bem, fazer um Syrah. Dizem as notas de prova que é “encorpado, proveniente do clima marítimo e fresco da nossa região, que apesar de intenso é fresco e agradável ao palato e exibe o toque fino e profundo da casta“. Tem 14.5% de graduação alcoólica, e em 2014 ganhou uma medalha de ouro no Berlin Wine Trophy. Bebe-se com alma e paixão, sorvendo aromas e histórias.

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Outra particularidade interessante diz respeito ao design das garrafas. Cada ano é pedido a um artista que exponha o seu trabalho nos rótulos dos vinhos produzidos, e no caso do Syrah 2010 o escolhido foi George Farmer, um pintor e músico inglês que reside na Alemanha.

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Na quinta existe uma sala de degustação localizada no edifício mais antigo do local, de atmosfera tradicional, com comida preparada a preceito pela anfitriã Helga Wagner, que geralmente inclui iguarias locais, assim complementando os vinhos servidos, em sintonia harmoniosa com a região. Há ainda a possibilidade de acomodação em regime de turismo rural com pensão completa. Existe muito para ver e desfrutar nesta região, desde Óbidos até zonas balneares como a Foz do Arelho.

Já tivemos oportunidade de encontrar em pessoa estes nossos imigrantes produtores de Syrah, que com toda a generosidade nos deram a provar o fruto do seu trabalho, para nosso imenso deleite. Tanto que nos lembrámos de citar Baudelaire: “É preciso estar sempre embriagado. Para não sentirem o fardo incrível do tempo, que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso. Com quê? Com Syrah, poesia, ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.”
Assim foi e continuará a ser!

Classificação: 16/20                                                     Preço: 8,50€


 

Quinta do Côro, 100% Syrah, Tejo, 2011

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Hoje estamos na região vinícola do Tejo, anteriormente chamada de Ribatejo, para conhecer um Syrah feito por uma empresa familiar, à semelhança de tantas outras que se podem encontrar com muita frequência por todas as regiões vitivinícolas do País.

Situada num  terroir característico do Ribatejo, esta propriedade possui 80 hectares de área total e tem implantados cerca de 20 hectares de vinha em micro-clima excepcional, onde as castas, Touriga Nacional, Trincadeira, Cabernet Sauvignon e Syrah encontram condições únicas para a produção de bons vinhos, com estrictas regras de protecção ambiental.

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As notas de prova deste Syrah dizem-nos que tem “cor rubi, aromas com notas de menta fresca e frutos de bosque maduros, toque de especiarias finas e madeira bem integrada. A boca é bastante equilibrada com taninos maduros de excelente qualidade e final com muita persistência“. Tem uma graduação alcoólica de 14%.

A vindima manual para caixa de plástico decorre durante a terceira semana de Setembro, com escolha em mesa vibratória antes do desengace. A fermentação dá-se em lagar inox de pequena capacidade à temperatura de 24ºc, com pré-maceração durante 3 dias. O estágio faz-se em barricas novas de carvalho francês (70%) e americano(30%), durante 9 meses. O vinho não é filtrado antes do engarrafamento, podendo criar ligeiro depósito natural.

A Quinta do Côro fica situada junto à Vila do Sardoal, distando, em linha recta, 6 Km do rio Tejo.

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Esta Vila florida do Sardoal existe desde tempos remotos. Vale a pena contar um pouco da sua história, já que é também o local onde nasceu um dos co-autores do Blogue do Syrah. Acompanhem-nos!

O Sardoal, enquanto povoação, é antiquíssimo, sendo que em alguns locais do concelho têm sido encontrados vestígios da presença do Homem desde tempos muito longínquos.

Do período da ocupação romana também ficaram alguns sinais como, por exemplo, um troço de calçada romana junto ao Casal da Graça, a sul de Valhascos, que alguns historiadores pensam ser medieval, e um outro pequeno troço, próximo da ponte de S. Francisco.

Dos árabes, ainda que não se conheçam vestígios da sua presença, é seguro que aqui permaneceram durante muito tempo, uma vez que este povo conquistou Abrantes aos Godos em 716 e que só em 1148 é que D. Afonso Henriques tomou a Praça de Abrantes.

Dada a proximidade e a relação de vizinhança que sempre existiu entre Sardoal e Abrantes, não é difícil de acreditar que tenham ocupado o que é, hoje, o concelho de Sardoal. Em 1313, no documento mais antigo que existe no arquivo municipal, a Rainha Santa Isabel, mulher de D. Dinis, dirige-se já aos juízes e procuradores do concelho de Sardoal, concedendo, ao lugar do Sardoal, diversos privilégios. Desde então, quase todos os reis de Portugal dedicaram a sua atenção ao Sardoal, sabendo-se que em 7 de dezembro de 1432, aqui nasceu a Infanta D. Maria, filha de D. Duarte e de D. Leonor, sua mulher, que morreu no dia seguinte.

Em 22 de setembro de 1531, D. João III, por sua vontade expressa e sem ninguém lho requerer, por carta dada em Évora, elevou o lugar de Sardoal à categoria de Vila e, em 10 de agosto de 1532, por carta dada em Lisboa mandou-lhe demarcar um novo termo, mais de acordo com a nova categoria e decretando que a partir de 1531, o Sardoal passasse a ser totalmente independente em relação a Abrantes, passando a ter jurisdição própria e apartada em todas as áreas do poder municipal.

De facto, o século XVI pode considerar-se o “século de ouro” da história do Sardoal. Em 1509 foi fundada a Santa Casa da Misericórdia de Sardoal; por volta de 1510 foram pintados os Quadros do Mestre do Sardoal, que se encontram na igreja Matriz; entre 1507 e 1532 são representados os autos de Gil Vicente que contêm referências ao Sardoal, entre os quais a “Tragicomédia Pastoril da Serra da Estrela” e o “ Auto do Juiz da Beira”; em 1531, D João III eleva o lugar de Sardoal à categoria de Vila, demarcando-lhe um novo termo em 1532; em 1551 é construída a igreja da Misericórdia; em 1571 foi fundado o convento de Santa Maria da Caridade, dos Franciscanos Menores da Província da Soledad.

Sabe-se, também, que muitos sardoalenses participaram nos Descobrimentos e nas conquistas de África, da Índia e do Brasil, situação a que não seria estranho o facto de o Senhorio do Sardoal pertencer aos Almeidas (família dos Condes de Abrantes) que ocupavam, nesse tempo, os mais altos cargos de governação do reino. Bastará recordar o facto de D. Francisco de Almeida, 1º Vice-Rei da Índia, ter sido comendador do Sardoal.

Refira-se, por curiosidade, a tradição popular transmitida de geração em geração, que diz que os freixos que ladeiam a escadaria do convento de Santa Maria da Caridade foram trazidos da Índia, na segunda viagem de Vasco da Gama. Confirmada está, também, a participação de muitos sardoalenses na fatídica jornada de África de D. Sebastião em que muitos morreram ou ficaram cativos, na batalha de Alcácer-Quibir, como se pode verificar em diversas escrituras pelas quais foram vendidas diversas fazendas para pagamento do resgate dos que se encontravam em cativeiro.

Também aqui se fizeram sentir os reflexos das riquezas vindas do Brasil nos finais do século XVII e nos princípios do século XVIII, a que não será alheio o facto de ter sido um sardoalense, D. Gaspar Barata de Mendonça, ter sido o 1º arcebispo da Baía e primaz do Brasil, que se encontra sepultado num rico mausoléu no altar-mor da igreja de Santa Maria da Caridade, o qual por razões de saúde, nunca chegou a deslocar-se ao Brasil, o que não impedia que recebesse as rendas e benefícios inerentes às suas elevadas funções episcopais. A referida riqueza reflete-se no riquíssimo retábulo de talha dourada e no revestimento de azulejos da capela-mor da igreja Matriz de Sardoal.

Voltando ao que nos traz aqui hoje, embora o mercado seja essencialmente nacional, os vinhos “Quinta do Côro” já foram distinguidos, várias vezes, em concursos internacionais.

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A adega actual, reconstruída em 2002, tem capacidade para 200 000 litros, com equipamentos modernos, em aço inox, que copiam os antigos, com tanques e pisa.

Na Quinta do Côro produzem-se ainda, há cerca de 30 anos, vários doces e compotas, (Marmelada Quinta do Côro; Geleia de Marmelo; Cubos de Marmelada e Figos Delicias de Pingo de Mel), que se encontram disponíveis na maior parte das lojas Gourmet, espalhadas pelo País. A Quinta possui no espaço do antigo lagar de azeite, recuperado como pequeno museu Agro-Industrial, uma sala de provas, com capacidade para 40 pessoas. Existem duas casas rústicas, com capacidade para alojar 8 a 10 pessoas. Ostenta ainda uma árvore gigante, e um sobreiro centenário, tido de interesse público.

E quando estiverem a beber uma taça deste nosso Syrah carregado de história, lembrem-se do que dizia o escritor Claude Tillier: “Comer é uma necessidade do estômago; beber Syrah é uma necessidade da alma.”

Classificação: 15/20                                                     Preço: 7,50€

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Herdade São Miguel, Casa Agrícola Alexandre Relvas, 100% Syrah, Alentejo, 2010

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A Herdade de São Miguel foi adquirida por Alexandre Relvas em 1997, e está situada no concelho de Redondo, possuindo cerca de 175 hectares de área total, dos quais 35 são de vinha plantada em solos franco-argilosos, derivados de xisto. Existem ainda 97 hectares de sobreiros, plantados entre 1998 e 1999. No restante espaço o pessoal da Herdade dedica-se à criação e preservação de espécies autóctones portuguesas em vias de extinção, tais como o ‘Burro de Mirandela‘ e o ‘Garrano do Gerês‘, em tempos grandes auxiliares agrícolas, e que hoje estão em vias de extinção devido à mecanização da agricultura.

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Tendo um terço da área e apenas um décimo dos habitantes de Portugal, o Alentejo caracteriza-se pelo seu clima ensolarado, pela sua beleza natural única e pela genuinidade dos que lá habitam. É neste território de  vastidões que este Syrah viu a luz do dia.

A sub-região de Redondo está situada no centro Alentejano, dentro dos limites do Distrito de Évora, aos pés da Serra d’Ossa. Esta vila deve a D. Afonso II o seu primeiro foral, concedido no ano de 1250. Não foi esquecida por D. Dinis que aí mandou edificar um Castelo em 1319, do qual restam hoje apenas duas portas, duas torres e alguns excertos de muralha.

Numa região, por excelência de produção de vinho, especialmente tinto, a Vila de Redondo é ainda famosa pela sua olaria tradicional, pelo seu azeite e pela produção de ovinos. A zona caracteriza-se por uma clima quente e seco no Verão e rigoroso no Inverno. A pluviosidade média anual á de 540 mm.

A Casa Agrícola Alexandre Relvas também possui a Herdade da Pimenta que foi adquirida em 2011.Tem 170 hectares. A vinha ocupa 65hectares de terra, 10 dos quais em campo experimental. Os solos são maioritariamente Argilo – Arenosos de Origem Granítica com afloramentos de Granito. O restante espaço é utilizado para a criação de ovelhas Merino Branco e Cavalos de Desporto.

Dado o crescimento e busca de complexidade e genuinidade dos vinhos, a Casa Agrícola Alexandre Relvas tem vindo ao longo dos anos a estabelecer acordos de fornecimento com viticultores alentejanos, tendo neste momento vários pólos de produção, todos eles no norte alentejano, privilegiando solos esqueléticos de preferência xistosos e graníticos.

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A Herdade São Miguel foi projectada e construída em 2003 num estilo minimalista, esta adega está situada no centro das vinhas da Herdade. Foi pensada para transformar 500.000 quilos de uvas anualmente. Nesta adega todo o trabalho é feito artesanalmente de forma a preservar ao máximo a genuinidade da uva.

A adega da Herdade da Pimenta foi construída em 2009, e foi pensada para a produção de vinho em larga escala respeitando ao máximo a qualidade da matéria prima. A arquitectura da adega foi decidida de forma a integrar da melhor forma o edifício na paisagem. Toda a adega é revestida a cortiça o que favorece o isolamento térmico, estando equipada com tecnologia de ponta. Neste momento está preparada para a transformação de 2,5 Milhões de quilos de uvas por ano.

A Casa Agrícola Alexandre Relvas é um dos grandes produtores de vinhos do Alentejo. Gere 350 hectares de vinhas e produz três milhões de garrafas de vinho e exporta para mais de 30 países.

O Syrah da Herdade São Miguel foi sujeito a vindima mecânica durante a noite, seguida de desengaço total.  A maceração pré-fermentativa a frio decorreu durante 48h. A fermentação propriamente dita deu-se a temperatura controlada (22-28ºC) em cubas de inox. Segui-se a maceração pós-fermentativa durante 5 a 10 dias. Por fim veio a fermentação malolática em cuba inox com aduelas de carvalho francês. Teve um estágio de 6 meses em barricas igualmente de carvalho francês.
Syrah tem assim uma graduação alcoólica de 14%. As notas de prova apontam para uma “cor rubi com reflexos violetas. O aroma é complexo a frutos vermelhos e casca de laranja com notas de tostado. O paladar é redondo, rico e volumoso. Acidez equilibrada e taninos fino. Final longo e complexo.” Que nós confirmamos, de olhos largamente fechados, para lhe retirar os eflúvios em pleno deleite sensitivo.

Dito isto, só falta mesmo acabar em beleza com uma citação que se aplica muito bem ao nosso Syrah de São Miguel. Dizia o escritor Clifton Fadiman que “Uma garrafa de vinho pede para ser compartilhada;  jamais encontrei um apreciador de vinhos avarento. “

Classificação: 16/20                                                     Preço: 10,50€

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