Quinta do Côro, 100% Syrah, Tejo, 2011

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Hoje estamos na região vinícola do Tejo, anteriormente chamada de Ribatejo, para conhecer um Syrah feito por uma empresa familiar, à semelhança de tantas outras que se podem encontrar com muita frequência por todas as regiões vitivinícolas do País.

Situada num  terroir característico do Ribatejo, esta propriedade possui 80 hectares de área total e tem implantados cerca de 20 hectares de vinha em micro-clima excepcional, onde as castas, Touriga Nacional, Trincadeira, Cabernet Sauvignon e Syrah encontram condições únicas para a produção de bons vinhos, com estrictas regras de protecção ambiental.

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As notas de prova deste Syrah dizem-nos que tem “cor rubi, aromas com notas de menta fresca e frutos de bosque maduros, toque de especiarias finas e madeira bem integrada. A boca é bastante equilibrada com taninos maduros de excelente qualidade e final com muita persistência“. Tem uma graduação alcoólica de 14%.

A vindima manual para caixa de plástico decorre durante a terceira semana de Setembro, com escolha em mesa vibratória antes do desengace. A fermentação dá-se em lagar inox de pequena capacidade à temperatura de 24ºc, com pré-maceração durante 3 dias. O estágio faz-se em barricas novas de carvalho francês (70%) e americano(30%), durante 9 meses. O vinho não é filtrado antes do engarrafamento, podendo criar ligeiro depósito natural.

A Quinta do Côro fica situada junto à Vila do Sardoal, distando, em linha recta, 6 Km do rio Tejo.

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Esta Vila florida do Sardoal existe desde tempos remotos. Vale a pena contar um pouco da sua história, já que é também o local onde nasceu um dos co-autores do Blogue do Syrah. Acompanhem-nos!

O Sardoal, enquanto povoação, é antiquíssimo, sendo que em alguns locais do concelho têm sido encontrados vestígios da presença do Homem desde tempos muito longínquos.

Do período da ocupação romana também ficaram alguns sinais como, por exemplo, um troço de calçada romana junto ao Casal da Graça, a sul de Valhascos, que alguns historiadores pensam ser medieval, e um outro pequeno troço, próximo da ponte de S. Francisco.

Dos árabes, ainda que não se conheçam vestígios da sua presença, é seguro que aqui permaneceram durante muito tempo, uma vez que este povo conquistou Abrantes aos Godos em 716 e que só em 1148 é que D. Afonso Henriques tomou a Praça de Abrantes.

Dada a proximidade e a relação de vizinhança que sempre existiu entre Sardoal e Abrantes, não é difícil de acreditar que tenham ocupado o que é, hoje, o concelho de Sardoal. Em 1313, no documento mais antigo que existe no arquivo municipal, a Rainha Santa Isabel, mulher de D. Dinis, dirige-se já aos juízes e procuradores do concelho de Sardoal, concedendo, ao lugar do Sardoal, diversos privilégios. Desde então, quase todos os reis de Portugal dedicaram a sua atenção ao Sardoal, sabendo-se que em 7 de dezembro de 1432, aqui nasceu a Infanta D. Maria, filha de D. Duarte e de D. Leonor, sua mulher, que morreu no dia seguinte.

Em 22 de setembro de 1531, D. João III, por sua vontade expressa e sem ninguém lho requerer, por carta dada em Évora, elevou o lugar de Sardoal à categoria de Vila e, em 10 de agosto de 1532, por carta dada em Lisboa mandou-lhe demarcar um novo termo, mais de acordo com a nova categoria e decretando que a partir de 1531, o Sardoal passasse a ser totalmente independente em relação a Abrantes, passando a ter jurisdição própria e apartada em todas as áreas do poder municipal.

De facto, o século XVI pode considerar-se o “século de ouro” da história do Sardoal. Em 1509 foi fundada a Santa Casa da Misericórdia de Sardoal; por volta de 1510 foram pintados os Quadros do Mestre do Sardoal, que se encontram na igreja Matriz; entre 1507 e 1532 são representados os autos de Gil Vicente que contêm referências ao Sardoal, entre os quais a “Tragicomédia Pastoril da Serra da Estrela” e o “ Auto do Juiz da Beira”; em 1531, D João III eleva o lugar de Sardoal à categoria de Vila, demarcando-lhe um novo termo em 1532; em 1551 é construída a igreja da Misericórdia; em 1571 foi fundado o convento de Santa Maria da Caridade, dos Franciscanos Menores da Província da Soledad.

Sabe-se, também, que muitos sardoalenses participaram nos Descobrimentos e nas conquistas de África, da Índia e do Brasil, situação a que não seria estranho o facto de o Senhorio do Sardoal pertencer aos Almeidas (família dos Condes de Abrantes) que ocupavam, nesse tempo, os mais altos cargos de governação do reino. Bastará recordar o facto de D. Francisco de Almeida, 1º Vice-Rei da Índia, ter sido comendador do Sardoal.

Refira-se, por curiosidade, a tradição popular transmitida de geração em geração, que diz que os freixos que ladeiam a escadaria do convento de Santa Maria da Caridade foram trazidos da Índia, na segunda viagem de Vasco da Gama. Confirmada está, também, a participação de muitos sardoalenses na fatídica jornada de África de D. Sebastião em que muitos morreram ou ficaram cativos, na batalha de Alcácer-Quibir, como se pode verificar em diversas escrituras pelas quais foram vendidas diversas fazendas para pagamento do resgate dos que se encontravam em cativeiro.

Também aqui se fizeram sentir os reflexos das riquezas vindas do Brasil nos finais do século XVII e nos princípios do século XVIII, a que não será alheio o facto de ter sido um sardoalense, D. Gaspar Barata de Mendonça, ter sido o 1º arcebispo da Baía e primaz do Brasil, que se encontra sepultado num rico mausoléu no altar-mor da igreja de Santa Maria da Caridade, o qual por razões de saúde, nunca chegou a deslocar-se ao Brasil, o que não impedia que recebesse as rendas e benefícios inerentes às suas elevadas funções episcopais. A referida riqueza reflete-se no riquíssimo retábulo de talha dourada e no revestimento de azulejos da capela-mor da igreja Matriz de Sardoal.

Voltando ao que nos traz aqui hoje, embora o mercado seja essencialmente nacional, os vinhos “Quinta do Côro” já foram distinguidos, várias vezes, em concursos internacionais.

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A adega actual, reconstruída em 2002, tem capacidade para 200 000 litros, com equipamentos modernos, em aço inox, que copiam os antigos, com tanques e pisa.

Na Quinta do Côro produzem-se ainda, há cerca de 30 anos, vários doces e compotas, (Marmelada Quinta do Côro; Geleia de Marmelo; Cubos de Marmelada e Figos Delicias de Pingo de Mel), que se encontram disponíveis na maior parte das lojas Gourmet, espalhadas pelo País. A Quinta possui no espaço do antigo lagar de azeite, recuperado como pequeno museu Agro-Industrial, uma sala de provas, com capacidade para 40 pessoas. Existem duas casas rústicas, com capacidade para alojar 8 a 10 pessoas. Ostenta ainda uma árvore gigante, e um sobreiro centenário, tido de interesse público.

E quando estiverem a beber uma taça deste nosso Syrah carregado de história, lembrem-se do que dizia o escritor Claude Tillier: “Comer é uma necessidade do estômago; beber Syrah é uma necessidade da alma.”

Classificação: 15/20                                                     Preço: 7,50€

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