Monthly Archives: May 2015

São Filipe, Filipe Palhoça, 100% Syrah, Setúbal, 2011

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Estamos em Setúbal, Quinta da Invejosa, Poceirão, para apresentar um Syrah a 100%, bem feito, numa palavra: honesto!
A boa relação qualidade/preço fazem deste Syrah uma boa hipótese para o consumo diário da nossa beberagem preferida.
Conhecem-se duas safras. A primeira de 2009 e a segunda, a que nos traz aqui hoje, de 2011.

A fermentação deste Syrah foi feita a 28ºC, com desengace total e maceração peculiar suave e prolongada em cubas de inox, seguida de estágio 8 meses em barrica de  carvalho. As notas de prova dizem-nos que este vinho tem uma “cor granada, com um aroma intenso e marcado por especiarias com corpo robusto e típico da casta. O paladar é macio e volumoso, com taninos suaves. O final é suave e persistente.” Tem um teor alcoólico de 14% e o enólogo responsável é o engenheiro Jaime Quendera.

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Filipe Palhoça, como produtor de vinhos, viu as suas raízes crescerem de uma pequena e antiga adega pertencente a seu pai, João Loureiro Palhoça. Desde cedo ligado ao mundo da viticultura e produção de vinhos, consegue adquirir novas propriedades e construir uma nova adega em 1984, na Quinta da Invejosa, freguesia do Poceirão.

Durante cerca de 20 anos a produção esteve orientada para o mercado a granel, mas com a crescente alteração do consumo e dos mercados nacionais e internacionais, deu-se início, em meados da década de 90, a uma nova fase de comercialização e engarrafamento do vinho, produzido com marca própria. Actualmente os vinhos são vendidos directamente na adega e em cadeias de supermercado.

Filipe Palhoça conta com 85 hectares de vinha, distribuídos em 8 propriedades. O seu encepamento está dividido pelas seguintes castas tintas, o Castelão (dominante), Syrah, Alicante Boushet, Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon, nas castas brancas existe apenas 10 hectares entre Fernão Pires (dominante) e Síria.

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As vinhas estão localizadas no concelho de Palmela, nomeadamente entre as freguesias de Poceirão e Marateca, em solos com características especificas e únicas desta região, designadamente solos arenosos. No campo ambiental todas estão inseridas no regime de produção integrada, respeitando assim o ambiente ao utilizar o menos possível produtos químicos.

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Equipada com a mais moderna tecnologia, todo o equipamento em inox, com cubas e lagares ligados ao sistema de frio com o objectivo de assegurar as fermentações a temperaturas controladas, capaz assim de vinificar toda a uva das várias propriedades de forma a produzir vinhos de qualidade. Uma adega funcional e tradicional mas aliada à tecnologia mais moderna, um espaço único com áreas desde a produção, armazenagem, cave, engarrafamento e comercial (loja do vinho).

Robert Mondavi um especialista em vinhos chegou a dizer que “Fazer vinho é uma técnica; fazer um bom vinho é uma arte.” Diríamos que o Syrah São Filipe, de Setúbal, é um vinho tecnicamente bem feito! Mas não mais do que isso!

 

Classificação: 15/20                                                Preço: 6,19€

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Quinta do Francês, Quinta do Francês Patrick Agostini, Lda. 100% Syrah, Algarve, 2011

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É com desmedida emoção que hoje fazemos este texto.

Vamos falar de um Syrah que obteve a mais alta classificação atribuída até agora pelo Blogue do Syrah: 20 valores!

Robert Parker, o mais conhecido e, provavelmente, o mais influente crítico de vinhos, disse, não há muito tempo, numa recente entrevista à publicação “The Drinks Business“ que os críticos de vinho que não conseguem dar pontuações perfeitas (os famosos 100 pontos) para vinhos que as merecem, é  “porque se estão a esquivar dessa responsabilidade“. Mais à frente, na mesma entrevista, afirmou: “Quando, na sua análise mental, um vinho é o melhor exemplar que você já provou daquele tipo em particular, você tem a obrigação de dar-lhe uma pontuação perfeita“. E concluiu, acrescentando que aqueles que são incapazes de atribuir uma pontuação perfeita a um vinho que lhe faça jus, são “irresponsáveis“. Concordamos com Robert Parker e é por isso que damos a nota mais alta ao Syrah 2011 da Quinta do Francês! Como a nossa tabela vai de 14 a 20, damos os 20 valores a este Syrah que corresponde aos 100 pontos de Parker!

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A história deste Syrah é impressionante a todos os níveis! É isso que iremos contar a seguir. Se entretanto, pelo meio da leitura, acharem desejos de o irem logo degustando, na zona de Lisboa pode ser encontrado na loja El Corte Inglés ou no Centro Comercial Amoreiras, ou ainda e sempre na Garrafeira Estado D’Alma.

E como vai ser bem empregue o tempo que dedicarmos à reflexão sobre este néctar em particular, pois já dizia o grande Pasteur: “Existe mais filosofia numa garrafa de vinho do que em todos os livros”!

É pois um Syrah que espanta, em primeiro lugar, porque é algarvio. Os vinhos algarvios, ao contrário de outras regiões vitivinícolas, nunca tiveram grande projecção nacional ou outra. Situação esta que também está a mudar e não é só por causa deste Syrah, como é óbvio!

Seria mais fácil de entender esta nossa pontuação se este Syrah fosse alentejano ou da região do Tejo ou mesmo da região vitivinícola de Lisboa! Depois, é a primeira safra de Syrah da Quinta do Francês! Como é possível que, logo na primeira vez, se consiga um vinho com esta soberba qualidade? Seria mais fácil de compreender se estivéssemos perante um produtor com larga experiência e conseguisse à décima safra um Syrah fantástico! Não é o caso deste nosso francês, Patrick Agostini, médico especialista no activo, que não se dedica em exclusividade à vinha. Como pôde ele fazer um Syrah que nos leva aos céus? São as mãos de médico que ajudam?

Vamos então aprofundar esta história extraordinária!

A quinta é mesmo de um francês que por isso tomou o nome que está no título. Patrick Agostini é oriundo de uma família do Piemonte, na Itália, com tradições na vinha e no vinho. Médico patologista mas com formação em viticultura e enologia em Bordéus, Patrick com 33 anos  e a mulher Fátima, de origem portuguesa, decidiram abandonar a França há alguns anos e vir para Portugal. Escolheram a região de Odelouca, no Algarve, onde Patrick vislumbrou um terroir compatível com o seu sonho de “fazer um grande vinho”.

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Estamos em plena serra de Monchique e o solo de xisto, em zona colinosa, e a exposição a sul foram para este médico as características ideais. O plantio da vinha obrigou a fazer previamente uma desmatação, a drenagem dos solos mais húmidos, correcções de acidez e nutrientes, e a instalação da rega. Em 2002 foram instaladas as vides, numa área de 8,5 hectares, com as castas Aragonês, Cabernet Sauvignon, Trincadeira e, claro, Syrah. A adega ficou terminada em 2008 e os enólogos Cláudia Favinha e António Maçanita começaram a dar a consultoria necessária.

Este magnífico Syrah esteve 17 meses em barricas novas de carvalho francês. Tem uma graduação alcoólica de 16%, mas, não se assustem, nem se nota!

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As notas de prova dizem-nos que se trata dum “vinho de cor rubi escura com aromas exuberantes a frutos pretos silvestres, com especiarias, pimenta, tabaco, chocolate. Na boca revela-se um vinho com enorme estrutura, taninos suaves, de uma grande elegância. Longo final na boca.” Estas palavras lembram-nos a máxima de um anónimo que dizia: “Quem não ama as mulheres, o vinho e a música permanece um tolo por toda a vida.” Só acrescentaríamos “não necessariamente por esta ordem.”

Com o seu clima excepcional, o Algarve não só atrai os turistas à procura de sol e praias de águas cálidas, mas também é um óptimo terroir para as vinhas, que crescem numa variedade de solos como argila, calcário, grés e mesmo em zonas com xisto, produzindo uvas de alta qualidade.

Durante muitos anos o comércio de vinhos no Algarve foi muito importante, mas em meados do século XX, a produção de vinho diminuiu, pois os seus benefícios não podiam competir com os lucros que o turismo trazia à região. No entanto, na década de 80, o Algarve ganhou o estatuto de região demarcada para Lagos, Portimão, Lagoa e Tavira.

Nos últimos 10 anos, houve o renascer da tradição de produção de vinhos no Algarve, aparecendo novas adegas que produzem vinhos de qualidade. De uma delas já aqui falámos, pois possui igualmente um Syrah: a Adega do Cantor! Outra história memorável que nos deu muito prazer contar.

Voltando ao que hoje nos traz aqui, o terreno que o nosso produtor escolheu, no vale da ribeira de Odelouca, com encostas viradas a sul, com um solo xistoso e com as castas plantadas, Trincadeira (Tinta Amarela), Aragonês (Tinta Roriz), Cabernet Sauvignon e Syrah, fazem deste vinhedo um “terroir” ideal com condições perfeitas para produzir grandes vinhos.

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Patrick Agostini produz um vinho topo de gama “Quinta do Francês”, e o segundo vinho, “Odelouca”. Ambos foram muito bem aceites, ganhando medalhas em  famosos concursos internacionais, como Bruxelas, e atraindo críticas muito favoráveis na imprensa nacional e internacional.

A vinha encontra-se distribuída em dois tipos de solos:
– 6,5 hectares  nas encostas e terraços, com solos xistosos, onde temos as 4 variedades plantadas;
– 1,5 hectares de Cabernet Sauvignon em solo de aluvião, muito perto da ribeira de Odelouca.

O clima algarvio, quente e seco, juntamente com a frescura da brisa marítima do Atlântico, permitem controlar o processo de maturação. Por outro lado, o solo pobre xisto-argiloso que limita a ingestão de água, pode criar tensão suficiente para concentrar as uvas, produzindo assim um vinho excepcional, neste vinhedo.

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A adega, num estilo tipicamente algarvio, foi acabada de ser construída em 2008, tem 800m2 de construção moderna (conforme as últimas normas) com áreas separadas para as cubas de inox, as barricas de carvalho francês e a zona de armazenamento das garrafas prontas para serem comercializadas.

A Quinta do Francês exporta para a Bélgica, a França o Reino Unido e a Suíça e, muito em breve, vai começar a exportar para Angola e Ásia.

Patrick Agostini, com quem tivemos oportunidade de conversar, tem ideias muito claras sobre o que o motiva em termos vitivinícolas, e sabia ao que vinha quando decidiu fixar-se no Algarve. Ouçamos o que ele tem para dizer:

“Eu sabia desde logo que o Algarve não estava no “mapa” dos “grandes vinhos”, mas esse foi precisamente um dos meus grandes desafios: tornar esse posicionamento uma realidade.”

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E sobre os vinhos, Agostini diz-nos:

“Acreditamos que os vinhos devem ser de longa duração, de grande degustação e, acima de tudo, inesquecíveis. Com grandes vinhos, os nossos sentidos, principalmente o olfato e o paladar, devem ser chamados à atenção com excitação, antecipação e estimulação. Entendemos que os grandes vinhos reflectem o seu terroir, o ano da colheita e a personalidade e que a sua qualidade depende de um domínio profundo das técnicas de vinificação, conjuntamente com a qualidade das uvas.”

Os franceses que conhecem os vinhos de Patrick Agostini dizem que na Quinta do Francês  “c’est le vin portugais au charme français

Pela nossa parte só podemos entender isso como irónico e prestigiante, não para o algarvio de adopção, mas sim para os franceses e os seus vinhos.

E, citando de novo Pasteur: “O vinho pode ser de direito considerado como a mais higiénica das bebidas”. Este Syrah é higiénico, porque é perfeito!

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No Blogue do Syrah já premiámos vários vinhos com a nota de 19. Pode-se questionar: O que aconteceu para que este Syrah não tivesse também 19 e “arriscássemos” a nota 20?

A diferença, para além de tudo o que ficou dito é que, tratando-se de um vinho feito em 2011, foi para o mercado em 2013, e foi por nós degustado precisamente nessa ocasião, ou seja, para todos os efeitos tratando-se de um Syrah novo, na boca parecia ter uma década! Não nos perguntem como é que isto foi feito, mas a verdade é que foi a única vez que tal aconteceu em toda a nossa experiência vinícola! E esta foi uma das muitas sensações subjectivas que pesou na nossa apreciação, entre muitas outras objectivas, das quais a principal é o puro deleite físico sensorial que se experimenta durante todo o percurso degustativo, desde a apreciação da cor, bouquet, passando pelas diversas fragrâncias que navegam pelo palato em sublime sinfonia harmónica que se alonga e não se esquece!

Agora imaginem, por momentos, a degustação deste Syrah quando passar uma década da data em que foi feito!

Não hesitámos: 20 valores!

P.S. Já temos em nosso poder, desde Março, a nova safra de 2012. Tem, objectivamente, uma diferença visível. No contra-rótulo diz-se que tem 14,5% de graduação alcoólica em vez dos 16% da safra de 2011. Não o provámos! Ainda não tivemos coragem para isso! No fundo, temos receio de que a nova safra por muito boa que, eventualmente, possa ser, seja inferior à de 2011. Mas isso não altera nada do que foi dito anteriormente!

 

Classificação: 20/20                                                     Preço: 25,00€

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A questão das rolhas de cortiça!

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Este é um tema muito debatido e nós também vamos meter a colherada.

É hora de almoço e, obviamente, estamos a beber um Syrah como parte integrante do repasto. Neste caso trata-se de um Shiraz, como eles dizem, australiano, de 2012, Weighbridge de seu nome. Falamos deste pormenor apenas porque é relevante para o que vamos dizer a seguir, porque como se sabe o Blogue do Syrah é totalmente dedicado aos Syrah portugueses.

Porque a questão que queremos abordar é a seguinte: de facto a garrafa deste Shiraz tem uma tampa de alumínio com rosca, e, como se não bastasse, enroscando ao contrário, muito diferente das nossas habituais e estimadas rolhas de cortiça.

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No velho e orgulhoso mundo vitivinícola em que Portugal se insere opta-se, e sempre assim se fez, pelas rolhas de cortiça, ao contrário do novo mundo vitivinícola, que seguramente também tem os seus orgulhos, em que predomina a tampa de alumínio com rosca. Quais as vantagens e as desvantagens da utilização de cada sistema? É sobre isso que nos propomos falar. Dito de outro modo…
Qual a melhor maneira de fechar uma garrafa de Syrah, pelo modo tradicional ou pelo modo mais moderno e recente da dita de metal roscado?

Uma batalha surda está a ser travada entre as tradicionais rolhas de cortiça e as cibernéticas tampas de alumínio com rosca. A nova tampa preserva melhor as qualidades do vinho, enquanto que o uso da rolha de cortiça para fechar as garrafas pode não vedar bem, e fazer com que vinhos oxidem. Além disso, se a rolha estiver defeituosa, pode passar o gosto do TCA (Tri-Cloro-Anisol) dela para o vinho.

Há dois lados da moeda a serem analisados. De um lado, a rolha de cortiça que agrega charme e valor ao vinho. Do outro lado, as roscas de alumínio que vedam bem as garrafas de vinho e ainda permitem uma abertura simples, sem uso de um saca-rolhas.

Economicamente, as roscas de alumínio são bem mais baratas que uma rolha convencional. Defensores do novo sistema alegam que as rolhas estão ultrapassadas e que além dos diversos defeitos exigem que o vinho permaneça guardado na posição horizontal, para evitar que as rolhas fiquem ressequidas.

Mas então as rolhas de cortiça estão com os seus dias contados?

Vamos ver os factos. O enófilo Neo Zelandês  Alan Limmer escreveu, em 2005, um artigo para uma revista australiana dedicada à enologia dizendo que as roscas de alumínio podem gerar aromas de enxofre, conhecido como SLO (Sulphur-Like Odour). Se por um lado as roscas parecem uma evolução tecnológica eficaz, cabe também ressaltar que as rolhas de cortiça, por serem mais porosas, permitem uma pequena passagem de oxigênio, o que beneficia muitos vinhos de guarda, resultando numa evolução mais harmoniosa.

Em conclusão, nenhum dos sistemas de fechamento da garrafa é perfeito. Com rolha, o vinho pode adquirir odores de TCA, com roscas de alumínio o vinho pode adquirir odores de SLO.  Estamos no mundo das siglas, sem saída à vista.

As roscas de alumínio podem ser interessantes em vinhos que não suportam a guarda por muito tempo, como vinhos brancos e tintos correntes. A rosca é prática para consumir o vinho em locais que não tenham um saca-rolhas por perto, ou ainda para garrafas pequenas de consumo individual com 375 ml. Mas para vinhos em garrafas de tamanho normal que geralmente são apreciados a longo prazo por um grupo de pessoas, as rolhas não devem ser substituídas pelas roscas, pois parte do glamour existente no acto de servir o vinho será perdido.

Se alguém comprovar que as tampas de rosca são melhores para o vinho do que a rolha, nós como consumidores apoiaremos a mudança. Se isso for só para diminuir custos de produção, só se justificará nos casos anteriormente apresentados.

Resumindo e concluindo em modo prós e contras.

Rolha de cortiça
prós:
mais porosa, permite uma evolução harmoniosa do vinho de guarda
mais elegante ao ser retirada do que as roscas

contras:
mais cara do que as tampas de rosca
pode deixar um odor de TCA no vinho
exige a guarda do vinho em posição horizontal para não ficar ressequida

 

Rosca de alumínio
prós:
bom sistema de vedação, sendo bom para vinhos que não suportam oxidação
muito fácil de se abrir, pois dispensa o uso de saca-rolhas, podendo popularizar o consumo de vinho no dia-a-dia
mais barata para o produtor

contras:
pode deixar um odor de SLO no vinho
indiscutível mau gosto
parecem-se com as tampas de garrafa de refrigerante

Tire você mesmo as conclusões devidas e, se desejar, mande-nos os seus comentários.

Pop, lá saltou mais uma rolha de cortiça de um Syrah… à vossa!


 

Santa Vitória, Casa de Santa Vitória, 100% Syrah, Alentejo, 2012

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Bebo o vinho do teu corpo
Devagar como se a boca
Fosse uma flor onde o tempo
Desenha um mapa da vida

Corre o vinho do teu corpo
Nos lençóis da madrugada
E há carícias debruçadas
À janela do silêncio

Bebo o vinho do teu corpo
Bebo até morrer de sede
Bebo o vinho do teu corpo
Bebo até morrer de sede

E provo o vinho do teu corpo
Gota a gota e beijo a beijo
Como quem recolhe o sonho
De entre os dedos de um sorriso

Corre o vinho do teu corpo
Nos regatos do luar
Que hão-de vir desaguar
Mansamente nos meus braços

Bebo o vinho do teu corpo
Bebo até morrer de sede
Bebo o vinho do teu corpo
Bebo até morrer de sede

Bebo o vinho do teu corpo
Devagar e quase a medo
Na surpresa dos segredos
Copos cheios de prazer

Bebo o vinho do teu corpo
Bebo até morrer de sede
Bebo o vinho do teu corpo
Bebo até morrer de sede

Gota a gota beijo a beijo

Pablo Neruda, e a sua poesia, é um dos nossos companheiros de andanças aqui no Blogue do Syrah.
Syrah rima com poesia!
Bebo o vinho do teu corpo, Santa Vitória… poderia ser este o mote para falarmos sobre mais um syrah alentejano, de qualidade acima da média.

Os Syrah por estas bandas são densos, corpulentos, de cor carregada e duradouros, plenos de poesia, poderíamos acrescentar. Um clima quente e seco é indispensável ao florescimento e frutificação desta uva tinta. Ao contrário de outras castas, há nela uma estreita relação entre a sua poda severa e a eventual qualidade do vinho.

O Santa Vitória Syrah é de safra única, com uma tiragem de 3300 garrafas, e tem  graduação alcoólica de 15%. Estagiou durante 14 meses em barricas de carvalho francês e foi engarrafado sem filtração. As notas de prova apontam “aromas frutados, notas de ameixas pretas, cassis, chocolate preto e especiarias.”

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Os vinhos da Casa Santa Vitoria são produzidos a partir de 3 vinhas: Encosta, Albernôa e Juliana. Situam-se na Herdade da Malhada, em Santa Vitória, no concelho de Beja. No encepamento as castas tintas são: Touriga Nacional, Trincadeira, Aragonês, Cabernet Sauvignon, Syrah, Merlot, Alfrocheiro, Tinta Caiada, Alicante Bouschet e Baga. As castas brancas são: Verdejo, Sauvignon Blanc, Viozinho, Antão Vaz, Arinto e Chardonnay.

As vinhas giram à volta da adega, permitindo que as uvas aí cheguem rapidamente sem sofrer alterações durante o percurso, sendo processadas logo após a sua chegada. A plantação da vinha teve início no ano 2000. Com o objectivo de potenciar a qualidade das uvas, sempre que necessário são feitas mondas de cachos, operação que na práctica significa retirarem-se cachos da videira para melhorar a qualidade dos cachos que ficam.

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Numa área total de vinha de cerca de 127 hectares, as castas tintas compreendem cerca de 105 hectares e as brancas 22 hectares. Foram escolhidas as mais nobres castas nacionais e estrangeiras, que melhor se adaptam ao “terroir“. O estágio em barricas de carvalho de elevada qualidade, promove a passagem de alguns componentes da madeira (taninos e compostos aromáticos) para o vinho, conferindo-lhe complexidade e elegância.

Combinando características únicas e claramente diferenciadas dos restantes parceiros neste sector, a Casa de Santa Vitória oferece grandes vinhos e uma cuidada oferta de gastronomia regional.
Aprecie-se a sua apresentação em vídeo.

A vinha foi plantada nos solos mais pobres, com declives suaves e uma exposição dominante a Sul. O clima é caracterizado por Primaveras temperadas e Verões quentes mas com noites frias. Estas amplitudes térmicas diárias permitem atingir um ponto óptimo de maturação mantendo, no entanto, a elegância na justa medida.

Os valores relativos à insolação são muito elevados, aproximadamente 3000 horas/ano, particularmente no trimestre que antecede as vindimas, contribuindo para a perfeita maturação das uvas e qualidade dos vinhos. São de facto condições marcadamente favoráveis à síntese e acumulação dos açúcares e à concentração de matérias corantes na película dos bagos, originando vinhos macios, com muito corpo e cor.

Os melhores vinhos estagiam em barricas de carvalho francês numa cave com controlo de humidade e temperatura, possibilitando uma maturação adequada. Na Adega é onde tudo acontece: a vinificação, o controlo de qualidade, o estágio, o engarrafamento e o armazenamento.

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A Casa de Santa Vitória é uma empresa, propriedade do Grupo Vila Galé, focada na produção e comercialização de vinhos e azeites alentejanos de qualidade superior. Fundada em 2002, e fruto de uma paixão pelos produtos ligados à terra, esta empresa representa um investimento que pretende proporcionar um contacto directo com o que de melhor se produz no Alentejo.

Acabamos como começámos, acariciando os sentidos sorvendo este Santa Vitória gota a gota, como se fossem beijos…

Bebo o vinho do teu corpo
Bebo até morrer de sede
Gota a gota beijo a beijo!

Classificação: 18/20                                                     Preço: 18,00€

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Vila Santa, João Portugal Ramos, 100% Syrah, Alentejo, 2013

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No Alentejo, mais precisamente em Estremoz, de novo, para conhecermos um Syrah de superior qualidade, e que nos vai ficar na vinícola memória: o Vila Santa Syrah, do enólogo João Portugal Ramos.

Em pleno coração do Alto Alentejo, os solos derivados de xisto e argilo-calcários, bem como o clima de influência continental, permitem obter reduzidas oscilações qualitativas e vindimas sem chuva, condições ideais para uma cultura vitivinícola de excepção.

Foi este o local eleito por João Portugal Ramos para fazer os seus próprios vinhos, após a longa carreira como enólogo de sucesso, consultor de algumas das principais regiões vitivinícolas de Portugal.

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Foi em Estremoz que João Portugal Ramos criou a sua empresa e fez o seu primeiro Syrah, que vai na sua quarta edição, a melhor de todas, afiançamos nós! A primeira safra foi em 2008. A segunda em 2009. A terceira em 2011 e a quarta em 2013, esta que está hoje aqui em escrutínio.

É desta maneira que o enólogo apresenta a nossa menina: “Casta tinta de qualidade, apresenta cachos e bagos pequenos, uniformes e com bons taninos, que dá origem a vinhos densos, encorpados, de cor carregada, com boa capacidade de envelhecimento, potenciando o desenvolvimento do aroma.” E o que nos é dito sobre as notas de prova? Pois o seguinte: “Uma grande concentração aromática destacando-se notas minerais, especiarias e ainda algumas sugestões a chocolate amargo e fruta madura. É um tinto potente, elegante e macio, com taninos compactos e grande persistência final.” Tem uma graduação alcoólica de 14%. O estágio foi de  6 meses em pipas novas de carvalho americano e francês.

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Depois de um longo percurso por todas as principais zonas vitivinícolas do país, em 1990, João Portugal Ramos plantou os primeiros hectares de vinha em Estremoz, onde reside, dando início ao seu projecto pessoal. Foi este o local eleito por João Portugal Ramos para fazer os seus próprios vinhos. A primeira vindima realizou-se em 1992, sendo 1997 o primeiro ano em que foi vinificada nas novas instalações. Dado o sucesso do projecto, foram sucessivamente ampliadas.

Para os tintos foram escolhidas as castas Aragonez, Trincadeira, Touriga Nacional, Castelão, Alicante Bouschet e, ainda, Cabernet Sauvignon, Syrah, Petit Verdot e Merlot, embora em menores quantidades.

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Os brancos, nascem das castas Antão Vaz, Arinto, Roupeiro, Verdelho, Sauvignon Blanc, Alvarinho e ainda Viognier.

João Portugal Ramos elabora a sua arte a partir de uvas provenientes de 600 hectares de vinhas, entre próprias e arrendadas, sendo os técnicos de viticultura responsáveis por toda a sua orientação programática: escolha das parcelas, selecção das castas, acompanhamento das vinhas e marcação da data da vindima. As parcelas de vinhas estendem-se de sul a norte do Alentejo, com altitudes compreendidas entre as cotas 150 e os 400 metros, sendo a grande maioria ao redor de Estremoz. Os tipos de solos dominantes são predominantemente de origem xistosa, pardos mediterrânicos, argilocalcários e uma pequena área de argilosos.

E como já é habitual temos uma citação de alguém do mundo da cultura que nos deixa um pensamento ou uma breve reflexão que tem a ver com Syrah. Hoje estamos para citar a escritora de ‘Bonjour Tristesse’, Françoise Sagan: “Devemos celebrar o fim de um caso de amor da mesma maneira que celebramos a morte em New Orleans, com música, riso, dança e muito Syrah.” Se por lá houver, dizemos nós, que haverá, muito e igualmente bom, embora o nosso seja melhor, assim o achamos.

Esse Syrah poderia muito bem ser o Vila Santa, mesmo sem a morte à espreita ou amores à beira do fim!

 

Classificação: 17/20                                                     Preço: 9,90€

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Analisar e degustar vinhos não é matéria científica!

Hoje queremos abordar uma questão importante, embora bem vistas as coisas não seja um assunto determinante.

Aquilo que fazemos aqui no Blogue do Syrah desde há vários meses, sempre com muito gosto, e assim pretendemos continuar durante muito tempo, é degustar e analisar vinhos a 100% da casta Syrah. E para o nosso assunto de hoje o facto de ser syrah não é relevante, pois vamos falar de algo subjectivo que não podemos considerar,  nem queremos, matéria de ordem científica, estando ligado ao mundo dos vinhos em geral.

Vejamos. É possível determinar se um vinho é superior tendo em conta as sua qualidade e potencialidades demonstradas a vários níveis. Mas a partir desse ponto, o que verdadeiramente impera, é o gosto pessoal daquele que degusta o vinho. Desse modo não é possível dizer que a degustação de um vinho é matéria de ordem científica.

Já nos temos cruzado com muitas pessoas altamente qualificadas que dizem convictamente que a sua casta preferida é a célebre Touriga Nacional. E quando nos dizem isso respondemos que ainda bem que há pessoas que gostam dessa casta porque senão os vinhos do Douro mais cedo ou mais tarde desapareceriam.

Na mesma linha de pensamento também é possível dizer que o vinho mais caro não quer dizer que seja obrigatoriamente aquele que mais apreciamos. É possível, e um enófilo encontrará vários exemplos para dar, encontrar um vinho a um preço mais moderado e ser, para o nosso gosto pessoal, superior a um outro vinho de um preço bem mais elevado.

Mas nesta análise, também há limites. Que ninguém tenha a pretensão de apresentar um vinho corrente de supermercado que custa um euro e pouco e ter o descaramento de defender o argumento de que é de qualidade superior a um vinho de, por exemplo, oito ou dez euros. Uma certa flexibilidade é possível, mas milagres é que não. Convidamos pois os nossos leitores a verem atentamente o vídeo que a seguir apresentamos.

É precisamente do nosso tema de hoje que trata este vídeo. Como se pode ver, apresenta uma degustação muito especial, porque reúne 15 dos maiores provadores de âmbito internacional sobre uma prova às cegas sobre alguns dos melhores Bordeaux da altura, isto em 2001.

Num conjunto de 11 vinhos degustados, o mais caro, um Pétrus, que custa mais de 1500 euros, ficou em oitavo lugar, enquanto que o vinho mais barato de 14 euros ficou classificado em segundo. Em primeiro lugar ficou um vinho que em termos de preço era o terceiro mais barato, custando um pouco mais de 150 euros, enquanto que o segundo vinho mais caro de mais de 740 euros só conseguiu o quinto lugar.

Por aqui se vê bem que a relação preço qualidade não é uma relação directa e isto leva-nos naturalmente a salientar o que dissemos no princípio deste texto:
analisar e degustar vinhos não é, de modo algum, uma matéria de natureza científica!

Fica desde já a deixa para uma próxima reflexão: o que determina o preço dos vinhos, ou seja, o que leva alguém a pedir 1500 euros por uma garrafa de vinho?