Syrah, Natal, Pecado, e o segredo da Uva

Hoje, que estamos perto do Natal, em vez de colocarmos a citação no fim, como é habitual, a mesma vai no princípio:

“Considera com indulgência os que bebem até à embriaguez. Lembra-te de que tens defeitos maiores.”
Omar Khayyám – (1048/1131). Matemático, astrónomo, filósofo e poeta iraniano. Um dos cientistas mais influentes da idade média.

Neste Irão actual, é proibido usar a palavra ‘vinho’ em documentos oficiais, livros, revistas, etc. E logo quando foi o Irão um dos primeiros e mais importantes produtores de vinho no médio oriente desde os inícios da humanidade. E o nosso bem amado Syrah deve provavelmente o seu nome a uma cidade Iraniana, Shiraz.

Outro facto relacionado com esta região e o Natal, diz que um grupo de cientistas da Universidade de Ariel, na Cisjordânia anunciou que está a tentar recriar o vinho que se bebia há 2 mil anos, para “recuperar e poder sentir no próprio paladar o sabor, o aroma, a cor e a textura que sentiu Jesus Cristo em sua época.” Para isso, o primeiro passo é a recuperação da Dabouki, a casta com a qual era elaborado o vinho da época. O processo ocorre através de transferência de material genético de sementes de uvas antigas para uvas actuais, algo tipo Jurassic Park, mas sem a parte do Tiranossauro Rex. A pesquisa inclui também a análise de tonéis feitos com barro, encontrados nas ruínas de diversos templos judaicos. Esse grupo de cientistas já conseguiu produzir vinho a partir da uva Maaravi, uma variedade considerada extinta e que era cultivada no leste de Belém, por volta do ano 220 d.C.

Portanto temos um país, Irão, que renega a sua relação com as raízes do vinho e outro tenta resgatá-la.

Numa degustação técnica moderna e de nível internacional, os profissionais falam de aromas, sabores e defeitos do vinho que são regidos por normas de organizações internacionais. A WSET, por exemplo, é uma organização internacionalmente reconhecida no mundo do vinho e suas fichas de degustação são uma das mais utilizadas nos meios profissionais do vinho.

Como classificar pois vinhos desta natureza, recriados a partir de castas de outras eras? Vamos pensar nisto este Natal, enquanto degustamos o nosso Syrah preferido, que sim é uma casta também ancestral! Como dizia o nosso sábio Omar:

“Ah, encha a taça: de que vale repetir
Que o tempo passa rápido sob nossos pés:
Não nascido no amanhã, e falecido ontem,
Por que angustiar-se frente a eles, se o hoje pode ser doce?”

Continuando a falar de vinho nesta quadra natalícia, este nosso néctar de eleição faz parte da liturgia cristã representando o sangue de Jesus Cristo – na verdade o próprio Cristo, na Ceia Pascal (ou Santa Ceia), disse solenemente que “este é o meu sangue”. Mais do que isso, o vinho aparece frequentemente na Bíblia Sagrada, por exemplo na história de um Noé embriagado, ou nos tempos de Abraão, quando o vinho contribuiu para o incesto que resultou em gravi­dez das filhas de Ló. Na Bíblia o vinho e pão são citados como o sustento essencial do corpo. As palavras encontradas nas Sagradas Escrituras que representam vinho são yayin e tirosh, termos do hebraico, utilizado para escrever quase todo o Antigo Testamento e oinos, termo grego, idioma usado predominantemente para escrever o Novo Testamento. “Yayin” é a palavra mais comum, um termo usado 141 vezes no Antigo Testamento e “tirosh” ocorre 38 vezes no Antigo Testamento, referindo exactamente o produto não-fermentado da videira, algo como um suco de uvas. Voltando ao tema inicial, não seria interessante saber que tipo de vinho era bebido pelos antigos cristãos, através da recriação desse mesmo vinho?

Para descobrir o sabor deste vinho, especialistas estão a analisar uma série de sementes de uvas da época e traços em fragmentos de potes de barro utilizados para o armazenamento de vinhos, materiais encontrados em templos judeus antigos. No momento, com base em testes prévios já realizados foram identificados 120 tipos diferentes de uvas do antigo Israel. Desse total, em colaboração com vários produtores de vinho, os cientistas determinaram que 20 delas seriam adequadas para a produção de vinho, mas este trabalho ainda pode demorar. Quem sabe se a disputa entre Israel e Palestinianos, pois os trabalhos estão a decorrer na Cisjordânia e nas Colinas do Golã. Quem sabe não é este o vinho que finalmente vai ser usado para brindar a paz?

Falamos pois de uma bebida que acompanha a evolução da humanidade. E a variedade dominante era precisamente Syrah, originária da Pérsia, como frequentemente referimos. A alta sociedade romana tinha uma  preferência pelo vinho branco e doce, mas os moradores das regiões palestinianas preferiam vinho tinto. As menções bíblicas ao vinho, são sempre relacionadas ao vinho tinto. Segundo os historiadores, após a colheita as uvas eram pisadas por escravos. Após a fermentação, vinhos diferentes eram produzidos para estratos diferentes da sociedade. Adicionava-se mel, água, ervas, especiarias, além de pó de mármore, clara de ovo, etc. A maior parte dos vinhos era exposta em fumeiro, o que daria um sabor defumado típico. O vinho das celebrações religiosas eram sempre os mais apurados e bem envelhecidos. Qual era o sabor desse vinho? Talvez um dia se possa saber isso.

Aqui ficam pois a nossa reflexão natalícia. Os nossos leitores que forem à Missa do Galo esta quadra podem in loco meditar sobre o que aqui se disse, ao som de um Te Deum sacramental, e um Syrah para comemorar o nascimento de Cristo!


 

2 thoughts on “Syrah, Natal, Pecado, e o segredo da Uva

  1. Muitos parabéns! Um texto muito bem feito!
    Um Feliz Natal à equipa do blog do Syrah!!!!

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