Daily Archives: 01/01/2017

Brindar ao Ano Novo, toda a história!

Ou toda a história sobre este acto de brindar à saúde do que quer que seja fazendo bater os copos com bebida uns nos outros entre os convivas.

Tudo começa nos tempos idos de Luis XIV, em França, com o “Affaire des Poisons”, portanto o “Caso dos Venenos”. Houve um crime primeiro, depois outros, pessoas importantes da época estiveram envolvidas e segui-se uma grande investigação policial.

E então foi assim: Henriqueta Stuart de Inglaterra, amante de Luis XIV, morre pouco depois de ter bebido um copo de água com chicória! Logo aparece a suspeita de envenenamento, alguém que estive contra a aliança entre França e Inglaterra. A polícia, com Gabriel de la Reynie liderando a equipa, começa pois a investigar. Mas sem sucesso. Um ano depois mais duas mortes misteriosas ocorrem, o Ministro dos Negócios Estrangeiros e o Arcebispo de Paris, confessor do Rei.

Gabriel de la Reynie

Ao investigar a morte de um oficial do exército, a polícia encontra, por mero acaso, na sua casa uma colecção de venenos bem conhecidos, arsénio, cicuta, etc. E várias cartas para a sua amante, a Marquesa de Brinvilliers , onde se relatava a participação dos dois em vários atentados bem sucedidos. Logo se percebeu haver por ali uma rede bem organizada a ordenar os envenenamentos por razões que só se podiam adivinhar. A dita Marquesa entretanto desaparece, mas é encontrada num convento na Bélgica. Extraditada para França, sob tortura acaba confessando vários crimes, mas sem revelar nomes. Foi decapitada em frente ao Hotel de Ville, em Paris.

Marquise de Brinvilliers

Anos mais tarde, a polícia prende mais alguns suspeitos, tomando conhecidos de mais nomes envolvidos na conjura, entre eles Catherine Deshayes, apelidada La Voisin, especialista em magia negra e artes ocultas. Catherine era convidada famosa nos salões da alta aristocracia parisiense e proprietária de uma farmácia  onde vendia misteriosas poções e outros produtos secretos. Era também praticante de abortos, missas negras, orgias, feitiçarias e rituais com sacrifícios humanos. Dirigia também uma rede de agentes que incluía alquimistas, bruxas, padres de missas negras e charlatães da pior fama.

La Voisin

O verdadeiro escândalo rebentou quando o investigador conheceu os nomes dos clientes da La Voisin. Todos pessoas famosas, sobrinhas de cardeais, ministros, princesas, duquesas, duques, marqueses e poetas. Perante isto havia que prevenir o Rei que obviamente ficou paralisado de horror com as atrocidades que aconteciam no seu reinado. Foi então criada a comissão para lidar com todo este “Caso dos Venenos”.

Claro que La Voisin, em 1680, foi condenada a uma sentença atroz, onde lhe cortaram as mãos, sendo queimada viva em praça pública, mais uma vez em frente ao Hotel de Ville.

Mas a história continua, que falta o que nos interessa. A filha de La Voisin revela que a sua mãe fornecia várias poções venenosas para Madame de Montespan, amante preferida do Rei e mãe de seus 4 filhos, reconhecidos e apadrinhados. Montespan, com ciúmes de outra amante, teria encomendado a morte do rei e da sua jovem amante. Os dois crimes só não foram realizados porque La Voisin foi presa antes. Louis XIV interrompeu as investigações pois daí para a frente tratava-se de segredos da corte. Todos aqueles que souberam da ligação de Madame de Montespan e a bruxa foram enviados para prisões distantes de Versailles. Madame Montespan foi exilada para bem longe. Todos os documentos que a incriminavam foram queimados pelo próprio Luis XIV, após a morte da sua ex-amante em 1707.

Madame de Montespan

Pois bem, por causa desta longa história, quando o champanhe foi introduzido na corte de Louis XV criou-se o hábito do brinde: a pessoa olhava fixamente para os olhos de quem tinha servido a bebida, batia o copo de modo a provocar uma troca de gotas do líquido entre os dois copos e dizia: saúde!

Só no final do século XIX estas desconfianças começara a desaparecer.
Mas o brindar fazendo tilintar os copos quando se brinda permanece até hoje.

À saúde, com bom Syrah, livre de venenos.
E bom Ano Novo!