Daily Archives: 03/09/2017

A importância do ‘Terroir’

Falar de Terroir, palavra francesa, é falar de um conceito que não tem equivalente noutros idiomas, por isso é utilizado sem ser traduzido, isto é, designa universalmente uma ideia bastante concreta: a relação íntima entre solo e um micro-clima particular, dando origem a um tipo de uva com uma qualidade e identidade próprias.

No mundo do vinho é consensual, em primeiro lugar, que um bom produto final começou na videira, logo a ideia de terroir ganha imediatamente corpo, e a seguir que uma uva equilibrada e completa, fruto desse terreno, evita mais tarde manipulações artificiais e correctivas que lhe diminuem o valor.

Falamos portanto da relação homem/natureza, logo o terroir pode aqui ser entendido como a combinação entre solo + geografia + clima + intervenção humana. Expressão com origem na região da Borgonha onde eram definidos os vinhos que não estavam dentro das minúsculas regiões demarcadas, mas eram igualmente de qualidade. Portanto, eram vinhos da terra, do terroir. Vê-se que a expressão nasceu como defesa dos produtores que, estando fora das áreas demarcadas, mesmo assim faziam vinhos de qualidade.

Há então cinco elementos-chave para entender do que estamos a falar, de forma sistematizada.

SOLO
O solo, além de dar suporte às raízes da videira, proporciona ao fruto água e elementos nutritivos. Solos ricos trazem vigor e elevam a produção de cachos mas não haverá concentração de fruta logo o vinho será menos complexo. Um solo pobre, contra o que se poderia pensar, ao limitar o rendimento da videira, determina a produção de uvas mais ricas, dando vinhos mais estruturados.

CLIMA
O clima determina a qualidade da uva. Os melhores são os climas temperados e com grande amplitude térmica, já que elevadas temperaturas diurnas favorecem o amadurecimento da fruta, enquanto que o frio nocturno faz a planta descansar, beneficiando a uva e dando uma vida mais longa à videira.

ALTITUDE
Está directamente relacionada com o clima, sobretudo a temperatura média, pois o aumento de altitude conduz a temperaturas mais frias. Mais frio significa maturação mais tardia da fruta, concentrando assim aromas e cor. Por esta razão os produtores geralmente destacam no rótulo a altura dos vinhedos.

HUMIDADE
Está relacionada com a quantidade de chuva ao longo do ano. A vinha reage de maneiras diversas perante a quantidade de chuva ao longo do ano. Mas o pior são as chuvas intensas próximas da época da colheita, que prejudicam o teor de açucares, chegando a aumentar a possibilidade de fungos devido a humidade excessiva.

RELEVO
Terrenos de declive, mais ou menos acentuados, modificam a exposição solar, influenciando a maturação das uvas. A topografia influencia por exemplo a protecção contra geadas ou a drenagem dos terrenos, factores com acção directa no matéria prima que entra na adega. Exemplo maior da influência do relevo é a nossa região do Douro, onde as vinhas em socalcos ou patamares de grande inclinação, dão lugar a vinhos de enorme carácter e individualidade. Ou o Alentejo, lugar de eleição onde frutifica algum do melhor Syrah do mundo!

Por fim temos a intervenção humana, catalisando e extraindo do terroir o melhor que lá existe. É entendendo bem o terroir com que se trabalha que se consegue essa magia que tanto apreciamos: saber identificar quais as uvas que melhor se adaptam ao terroir, como plantar a vinha, mais acima, mais abaixo, afastada do solo ou não, etc. A técnica e a enologia vão de mãos dadas com o terroir.

Por isso da próxima vez que um Syrah encher de sublime prazer o nossos sentidos, de certeza um grande trabalho de Terroir esteve por detrás da sua confecção.