Daily Archives: 07/11/2017

Graça Gonçalves, a Enóloga D’Oiro

Desde a segunda metade dos anos 90 que se produz Syrah em Portugal. O Blogue do Syrah tem feito o seu papel na divulgação desse percurso por terras lusas. Já dissemos várias vezes que em Portugal se produz algum do melhor Syrah do mundo! Como o Syrah é feito por pessoas, é natural que o Blogue do Syrah fale de quem colocou o Syrah português nas bocas do mundo, já que são eles os principais responsáveis pelo aparecimento deste espaço de apresentação, apreciação, devoção e divulgação.

Na sequência de artigos anteriores sobre os enólogos que fazem Syrah em Portugal, trazemos hoje à ribalta Graça Gonçalves que tem no seu currículo, na Quinta do Monte d`Oiro, não dois, não três, mas quatro Syrah, cada um com várias colheitas. A Quinta do Monte d`Oiro, é preciso dizê-lo, é a propriedade vinícola portuguesa que tem no activo um maior número de Syrah! E a qualidade? A qualidade é elevada e está presente deste o início!

Aqui vão eles, todos de peso, como se pode ver pelas classificações por nós atribuídas:


Syrah 24, Quinta do Monte d’Oiro, 100% Syrah, Lisboa
Classificação: 18/20


Reserva, Quinta do Monte d’Oiro, 96% Syrah, 4% Viognier, Lisboa
Classificação: 18/20

Lybra, Quinta do Monte d’Oiro, 100% Syrah, Lisboa
Classificação: 17/20

Lybra Rosé, Quinta do Monte D’Oiro, 100% Syrah, Lisboa
Classificação: 18/20

Vejamos cada um em pormenor.

Syrah 24, Quinta do Monte d’Oiro, 100% Syrah, Lisboa
Apenas se produzem 900 garrafas por safra, e com 14% de graduação alcoólica, mais um vez referida à safra actual. A designação 24 provém do facto das uvas terem origem numa parcela de vinha com esse número. Complexo, com notas de frutos pretos e sugestões de compota, chocolate, especiarias e uma sugestiva e discreta presença de barrica de alta qualidade. Um vinho muito atraente, moderno, com belíssimos taninos, acetinado na boca. Este vinho foi elaborado a partir de uma seleção massal de Syrah, plantada na parcela 24 de somente 2 hectares e proveniente de vinhas velhas (com mais de 60 anos) da região francesa de Hermitage. A grande variabilidade genética nesta parcela, origina, assim, um vinho de extrema complexidade. “Estamos perante uma vinha perfeita de Syrah”,afirma Grégory Viennois, o experiente enólogo francês que acompanha a vitivinicultura da Quinta do Monte d’Oiro. Tem sido desde o seu lançamento alvo de integralmente merecidas pontuações bastante elevadas pelos maiores especialistas.
O nosso SYRAH 24, produzido por José Bento dos Santos na Quinta do Monte d’Oiro, já recebeu por três vezes (2007, 2009 e 2011) a classificação de 93 pontos pela prestigiada Wine Advocate, de Robert Parker (o mais famoso crítico de vinhos do mundo), o que o coloca entre o grupo de vinhos portugueses a que Parker atribuiu uma pontuação igual ou superior a 95.
É um feito notável!

Reserva, Quinta do Monte d’Oiro, 96% Syrah, 4% Viognier, Lisboa
Temos em primeiro lugar o Reserva, que existe desde 1997, (o Blogue do Syrah teve um exemplar desse ano nas mãos, durante a já referida e memorável visita) que é para a Quinta o Syrah que não pode deixar de ser produzido. Tem 4% de Viognier (em co-fermentação) e é o Syrah mais parecido com os Syrah franceses do Vale do Rhône, considerada a referência a nível mundial.
Olhar para esta garrafa é sentir o tempo apurado em eflúvios ancestrais!
A tiragem corrente tem 14% de graduação alcoólica e produzem-se em média 24 mil garrafas. É o seu Syrah de marca! As notas de prova que escolhemos dizem que é um vinho de “Rubi concentrado, negro. Aroma frutado com predominância para as ameixas pretas bem maduras e frutos do bosque, ligeiras notas tostadas e de especiarias finas. Elegante na boca, revela um conjunto equilibrado entre a fruta e a madeira bem integrada, taninos aveludados, acidez correcta, final muito prolongado e distinto.” Teve um estágio de 18 meses em barricas de carvalho francês, das quais 40% eram novas.

Lybra, Quinta do Monte d’Oiro, 100% Syrah, Lisboa
Continuando hoje a falar de uma quinta abençoada, vamos seguir com o respectivo Syrah gama de entrada, o Lybra, com uma graduação alcoólica de 13,5%, e do qual são produzidas em média 15 a 20 mil garrafas por safra. O estágio é de 10 a 12 meses em barricas de carvalho francês. As notas de prova escolhidas dizem que se trata de um Syrah “Cor rubi intensa e nariz marcado pelos aromas de frutos pretos e do bosque, bem como delicadas notas de especiarias e alguma madeira, na boca é um vinho equilibrado, de taninos polidos e um volume e estrutura de expressão média, conta com um paladar frutado e especiado, além de ligeiramente vegetal, terminando com um final de boca de comprimento e persistência medianos.”

Lybra Rosé, Quinta do Monte D’Oiro, 100% Syrah, Lisboa
Este Lybra especial nasceu de uma parcela especifica, tratada e conduzida para o produzir em forma Rosé, como já explicado, através de vindima manual e escolha cuidadosa, seguida de esmagamento com prensagem directa. Tem 12,5% de graduação alcoólica. Foi com enorme prazer que o degustamos, lentamente, apreciando a frescura natural vinda de uma cor pálida e aroma delicado, ligeiro e floral, com algo de especiarias ténues. O delicadeza da fruta estava presente estendendo-se para final mais longo que o normal. É Syrah em forma ligeira e refrescante, gostámos muito, sobretudo da sua pureza, além de que é produzido segundo a filosofia biológica com gestão parcelar. Chega-se mesmo a falar de um tema, conceito muito original, citando directamente a Balança como signo de harmonia e de vindimas, equilíbrio harmoniosa entre casta, fruta e terroir, um Syrah que se interpenetra com a alegria da sua juventude na culinária do dia-a-dia… não devia ser assim sempre?
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Os Syrah da Quinta do Monte d’Oiro, em Alenquer, são a cara e a alma do seu proprietário, José Bento dos Santos. Mas desde 2005 que têm por trás o dedo de Graça Gonçalves, de 42 anos, a directora técnica da casa.

É uma mulher, transmontana de nascença (Bragança), mas devia ser um homem. A meio da década passada, Bento dos Santos andava à procura de uma pessoa que assumisse a enologia e a viticultura da quinta e tinha na cabeça a imagem de um homem, vá-se lá saber porquê. Em conversa, um professor do Instituto Superior de Agronomia (ISA), deu-lhe conta do profissional que precisava e o professor respondeu-lhe. “Conheço essa pessoa, só que é uma mulher”. O engenheiro Bento dos Santos “convidou-me a visitar a quinta, gostei imenso dele e acho que ele também gostou de mim e comecei a trabalhar”, recorda Graça Gonçalves. Formada no ISA em Engenharia Agro-Industrial, Graça frequentou o primeiro mestrado em viticultura e enologia daquele instituto. Antes, já participara numa investigação em polifenóis na Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa. Da fileira agro-industrial, “o vinho era o que pedia mais” dela, explica.
Durante o mestrado, trabalhou em microbiologia de contaminação de vinhos com o professor e enólogo Virgílio Loureiro e participou no desenvolvimento de um meio de cultura diferencial para a detecção de leveduras do género Dekkera/ Brettanomyces, o qual tem sido comercializado um pouco por todo o mundo.

A primeira experiência como enóloga deu-se em 1994, com a casta Arinto, em Bucelas. Trabalhou depois durante alguns meses na Adega Cooperativa de Arruda dos Vinhos, antes de entrar como professora assistente na Escola Superior Agrária de Santarém, onde leccionou tecnologia de vinho e enologia durante oito anos. Nesse período, foi responsável pela adega da escola e manteve-se sempre ligada à produção. “Nós fazíamos vinhos para alguns produtores e dávamos consultoria a outros”, lembra.
Quando estava a iniciar o doutoramento, surgiu o convite da Quinta do Monte d’Oiro e Graça Gonçalves não quis perder a oportunidade de trabalhar para uma pessoa de quem era admiradora e cujos vinhos já apreciava. “Era quase um sonho”, confessa.
Nos primeiros tempos, Graça ainda contou com o apoio de Luís Carvalho e do filho, Tiago Carvalho, mas, a partir de 2006, passou a assumir sozinha a enologia da quinta, embora com o apoio pontual de Grégory Viennois, director técnico da Maison M. Chapoutier. Um dos grandes vinhos da quinta, o tinto exaequo, é, de resto, uma parceria entre Bento dos Santos e Michel Chapoutier, uma das estrelas da enologia francesa.

Os Syrah da Quinta do Monte d`Oiro especificamente o Reserva e o 24 estão estão presentes na escolha para as provas cegas que o Blogue do Syrah leva a cabo.
Isto mostra bem da qualidade destes Syrah e da competência técnica demonstrada pela enóloga responsável, Graça Gonçalves!