António Ventura – O bem aventurado do Syrah

Desde a segunda metade dos anos 90 que se produz Syrah em Portugal. O Blogue do Syrah tem feito o seu papel na divulgação desse percurso por terras lusas. Já dissemos várias vezes que em Portugal se produz do melhor Syrah do mundo!
Como o Syrah é feito por pessoas, é natural que o Blogue do Syrah fale de quem colocou o Syrah português nas bocas do mundo, já que são eles os principais responsáveis pelo aparecimento deste espaço de apresentação, apreciação, devoção e divulgação.
Na sequência de artigos anteriores sobre os enólogos que fazem Syrah em Portugal, trazemos hoje à ribalta António Ventura, que tem no seu currículo oito Syrahs.
Aqui vão eles, quase todos de peso, como se pode ver pelas classificações atribuídas:


Quinta do Gradil, Sociedade Vitivinícola, SA, 100% Syrah, Lisboa, 2015
Classificação: 17/20

Lapa dos Gaivões, João M. Barbosa vinhos , 100% Syrah, Alentejo, 2005
Classificação: 17/20

Ninfa, João M. Barbosa vinhos , 100% Syrah, Tejo, 2003
Classificação:

Casa da Atela, Quinta da Atela, 100% Syrah, Tejo, 2007
Classificação: 14/20

Arruda dos Vinhos, Adega Cooperativa de Arruda dos Vinhos, 100% Syrah, Lisboa, 2009
Classificação: 14/20

Lote 44, Adega de Arruda, 100% Syrah, Lisboa, 2015
Classificação: 15/20

Gamito, Herdade do Gamito, 100% Syrah, Alentejo, 2014
Classificação: 17/20

Passo dos Terceiros, Sovibor, 100% Syrah, Alentejo, 2015
Classificação: 18/20

 

Vejamos cada um em pormenor.

Quinta do Gradil, Sociedade Vitivinícola, SA, 100% Syrah, Lisboa, 2015
E agora no presente ano temos a terceira colheita deste espectacular Syrah sempre em crescendo, tanto em qualidade como a nível de produção, nada mais nada menos do que…espantem-se, 37 000 garrafas!!
Podemos dizer desde já que nunca em Portugal numa única colheita se fez 37 000 garrafas dum monocasta Syrah! E isto deve ser realçado!
Os enólogos falam-nos de “Um syrah muito expressivo, de cor retinta e aromas intensos de bagas do bosque, pontuados com notas químicas e um toque de mineralidade. Elegante na boca, revela harmonia entre a fruta e os taninos evidentes mas bem integrados, num conjunto enriquecido por 14 meses de estágio em barricas de carvalho francês. O seu final é prolongado e distinto.” Nada a dizer!

Lapa dos Gaivões, João M. Barbosa vinhos , 100% Syrah, Alentejo, 2005
Em relação ao Lapa dos Gaivões, conseguimos ainda uma garrafa, que muito nos agradou, o que fica demonstrado na nota que lhe atribuímos. O enólogo foi António Ventura, e as notas de prova dizem que tem uma “cor avioletada e aromas florais, frutados e ligeiramente abaunilhados, está ainda muito presente toda a sua juventude, com os taninos a mostrarem toda a sua força e as notas de madeira ainda bem vincadas na prova de boca, é complexo e encorpado e melhorará certamente com o tempo em garrafa, o final é prolongado.” O estágio decorreu em barricas de carvalho Francês “Allier” e Americano durante 12 meses. Tem 14% de graduação alcoólica.

Ninfa, João M. Barbosa vinhos , 100% Syrah, Tejo, 2003
Sobre o Ninfa Syrah muito pouco podemos dizer. Não o chegámos a conhecer! Já estava esgotado aquando do nascimento do Blogue do Syrah. Em conversa com o produtor numa feira de vinhos alentejanos perdemos de vez a esperança de o poder ainda vir a encontrar. Se algum dos nossos leitores dele se recordar que venha aqui comentar de sua justiça!

Casa da Atela, Quinta da Atela, 100% Syrah, Tejo, 2007
Feito pelo enólogo António Ventura e com 13,5% de graduação alcoólica, este Syrah apresenta-se com as seguintes notas de prova: “Cor rubi, aromas elegantes de frutos negros e chocolate, com um toque de baunilha discreto. Estrutura de boca bastante elegante com taninos muito sólidos de excelente qualidade e final de persistência longa.”

Arruda dos Vinhos, Adega Cooperativa de Arruda dos Vinhos, 100% Syrah, Lisboa, 2009
A Adega Cooperativa de Arruda dos Vinhos, hoje em destaque, fez uma única safra de monocasta Syrah, no ano de 2009, que se encontra já esgotada. Ao Blogue do Syrah foi muito gentilmente cedida pelo produtor uma garrafa, quando soube que não conhecíamos o seu Syrah. Ficámos muito agradecidos.
A fermentação deu-se em cuba de inox com sistema de pisa automático e controlo de temperatura de fermentação. Estagiou durante 5 meses em barricas de carvalho francês e carvalho americano e 2 meses em garrafa na cave. As notas de prova dizem que tem uma “cor granada intensa e aroma a frutos vermelhos, sendo na boca equilibrado e suave devido à excelência da qualidade da casta.”

Lote 44, Adega de Arruda, 100% Syrah, Lisboa, 2015
O Syrah de nome Lote 44 de 2015 é o segundo monovarietal Syrah que a Adega Cooperativa de Arruda dos Vinhos faz. O primeiro, do já longínquo ano de 2009 tinha o nome de Arruda dos Vinhos. O de 2009, como foi dito na altura, não deixou saudades por aí. Este Lote 44 é claramente melhor!
A fermentação deu-se em cuba de inox, com controlo de temperatura a 26ºC. A maceração aconteceu durante oito dias. As notas de prova dizem-nos que tem “cor granada, aroma a frutos silvestres. Na boca é persistente e muito suave no final.” Este Syrah tem uma graduação alcoólica de 14,5%.

Gamito, Herdade do Gamito, 100% Syrah, Alentejo, 2014
Este Gamito, com 3.333 garrafas lançadas no mercado, e não tendo no horizonte a garantia de continuidade, tem como enólogo residente Marcos Vieira e teve inicialmente Rui Reguinga como enólogo consultor. Actualmente o enólogo consultor é o bem conhecido António Ventura. As notas de prova dizem-nos que tem “cor Ruby, aroma intenso de fruta preta, com notas de café e chocolate. Paladar harmonioso, encorpado, taninos suaves e um final longo e elegante.” Tem uma graduação alcoólica de 13,5% embora no palato pareça ter os habituais 14% ou 14,5% dos Syrah alentejanos, tendo estagiado 12 meses em barrica.

Passo dos Terceiros, Sovibor, 100% Syrah, Alentejo, 2015
O nome deste Syrah, Passo dos Terceiros, deve-se à construção de 1755 contígua à adega da Sovibor que é a maior de um conjunto de quatro estações esculpidas em mármore branco, representando os Passos do Senhor a caminho do calvário.
As notas de prova dizem que é um “Syrah com cor rubi, aroma elegante e toques balsâmicos, com notas de frutos vermelhos maduros. Boca elegante e fresca, com belo volume, taninos sedosos, bem casados com a acidez que o vinho ostenta. Termina longo e com bom equilíbrio final.” Tem 15% de graduação alcoólica. O enólogo é o mestre António Ventura, artífice de muitos Syrah e que aqui atinge um dos seus pontos mais altos!

O Engenheiro António Ventura é um homem tremendamente ambientado ao vasto mundo dos vinhos e dos mais activos, tendo principal acção nas regiões do Alentejo, Lisboa e Tejo, onde presta serviços de consultadoria. Gere alguns milhares de hectares de vinha ao todo e é responsável por alguns milhões de garrafas exportadas para todo o Mundo! Natural do concelho do Cadaval, António Ventura descende de uma família de várias gerações de vitivinicultores. Possui formação em Indústrias Agro-Alimentares pela E.S.A.S – IPS e licenciatura em Agronomia na Universidade de Évora. Em 1983 concluiu, no Instituto de Viticultura e Horticultura de Geisenheim (Alemanha) uma especialização em Viticultura e Enologia. Em 1994 obtém, na Charles Sturt University (NSW-Austrália), o degree in Applied Science (Winemaking). No ano de 1995 frequentou e concluiu com aproveitamento uma pós-graduação em Enologia na Escola Superior de Biotecnologia (Universidade Católica Portuguesa). Desde o ano 2000, através da empresa Provintage (Winemaking Consulting Company), de que é fundador, é consultor de enologia em vários produtores e adegas nas regiões de Lisboa, Tejo e Alentejo, sendo responsável pela exportação de alguns milhões de garrafas de vinhos portugueses para todo o mundo. Desempenha funções de coordenador da Câmara de Provadores da Comissão Vitivinícola da Região de Lisboa desde Janeiro de 2012. Em novembro de 2012 foi eleito presidente da Associação Portuguesa de Enologia. Desde 1994 que é membro da Australian Society of Viticulture and Oenology.

Desde sempre que tem obtido vários prémios nacionais e internacionais com os vários vinhos de sua autoria, entre os quais os da Adega Cooperativa de Arruda dos Vinhos.
“Devemos marcar os melhores momentos da nossa vida com um bom vinho”, sentencia o engenheiro, que há 22 anos se dedica com paixão à enologia. Segundo António Ventura, há cinco características indispensáveis para exercer a profissão: intuição, ciência, criatividade, experiência e disponibilidade. “É um trabalho extremamente absorvente. Já me aconteceu estar na Austrália e ter de apanhar um avião para Moçambique porque tínhamos lá um projecto e as videiras estavam a dar problemas”, afirma, na Adega Cooperativa de Pombal, onde, em dia de férias, está a acompanhar um engarrafamento. De todas as qualidades pedidas ao enólogo, há duas que marcam a diferença, acredita o engenheiro. “Sem intuição e espírito criativo nunca será um grande profissional”, explica. “Se tudo correr bem farei 50 vindimas na minha vida. O que procuro todos os anos é fazer várias experiências, que às vezes resultam e outras vezes não. Mas quando resultam é uma alegria”.

António Filipe Lucas Ventura nasceu há 59 anos em Painho, Cadaval, licenciando-se em ciências agrárias em Santarém. Descendente de uma família com tradições na produção de vinho ao longo de gerações, fez a especialização em enologia na Alemanha e uma pós-graduação em vitivinicultura e na Austrália. Hoje trabalha com 25 casas em cinco regiões portuguesas, chegando a envolver-se em três meses de vindima por ano. A influência do enólogo é exaustiva e pede um estudo aprofundado. É ele que avalia o terreno para a vinha, decide movimentações de terras e drenagens, selecciona o porta-enxerto e as castas, indica o método de plantação e o grau de maturação das uvas, define a madeira e o tempo de estágio, elege o tipo de fermentação e determina o período de maceração, seguindo de perto todo o processo até ao engarrafamento. A actividade assenta em técnicas aprofundadas, mas qualquer profissional tem consciência das limitações do conhecimento livresco. “É um trabalho extremamente complexo. Nenhum de nós aprende tudo na universidade, só a experiência é que nos dá algum lastro”, reconhece António Ventura, citando um chavão do meio: “As castas e o ‘terroir’ (composição do terreno, clima e relevo) representam 75 por cento de um bom vinho, os restantes 25 por cento dependem da habilidade do enólogo”.

A evolução mundial do sector, com troca de informação, aperfeiçoamento das espécies e revisão das estratégias permite, todavia, que os ingredientes à disposição para atingir uma colheita de excelência sejam, actualmente, mais e melhores. “É perfeitamente possível plantar a casta ‘cabernet sauvignon’ em Portugal e ter melhor vinho do que em Bordéus (de onde é originária)”, exemplifica António Ventura. Para o enólogo do Cadaval, a viver na Nazaré, a vocação despertou em 1981, no estágio com Octávio Pato na Cooperativa da Vermelha. Hoje, o prazer de comentar cada garrafa com amigos é superior a bebê-la sozinho. E a necessidade de estar actualizado cada vez maior. “O mundo do vinho é como o da moda, as tendências mudam todos os anos”. “Conseguimos ser competitivos e estamos nos grandes mercados internacionais”, diz António Ventura sobre a criação vitivinícola portuguesa, sublinhando que têm aparecido “menções excelentes” provenientes de especialistas em todo o mundo. “A qualidade dos vinhos portugueses tem subido muito”, assegura o engenheiro, que tem a sua própria lista de preferências dentro de fronteiras.

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