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A importância do ‘Terroir’

Falar de Terroir, palavra francesa, é falar de um conceito que não tem equivalente noutros idiomas, por isso é utilizado sem ser traduzido, isto é, designa universalmente uma ideia bastante concreta: a relação íntima entre solo e um micro-clima particular, dando origem a um tipo de uva com uma qualidade e identidade próprias.

No mundo do vinho é consensual, em primeiro lugar, que um bom produto final começou na videira, logo a ideia de terroir ganha imediatamente corpo, e a seguir que uma uva equilibrada e completa, fruto desse terreno, evita mais tarde manipulações artificiais e correctivas que lhe diminuem o valor.

Falamos portanto da relação homem/natureza, logo o terroir pode aqui ser entendido como a combinação entre solo + geografia + clima + intervenção humana. Expressão com origem na região da Borgonha onde eram definidos os vinhos que não estavam dentro das minúsculas regiões demarcadas, mas eram igualmente de qualidade. Portanto, eram vinhos da terra, do terroir. Vê-se que a expressão nasceu como defesa dos produtores que, estando fora das áreas demarcadas, mesmo assim faziam vinhos de qualidade.

Há então cinco elementos-chave para entender do que estamos a falar, de forma sistematizada.

SOLO
O solo, além de dar suporte às raízes da videira, proporciona ao fruto água e elementos nutritivos. Solos ricos trazem vigor e elevam a produção de cachos mas não haverá concentração de fruta logo o vinho será menos complexo. Um solo pobre, contra o que se poderia pensar, ao limitar o rendimento da videira, determina a produção de uvas mais ricas, dando vinhos mais estruturados.

CLIMA
O clima determina a qualidade da uva. Os melhores são os climas temperados e com grande amplitude térmica, já que elevadas temperaturas diurnas favorecem o amadurecimento da fruta, enquanto que o frio nocturno faz a planta descansar, beneficiando a uva e dando uma vida mais longa à videira.

ALTITUDE
Está directamente relacionada com o clima, sobretudo a temperatura média, pois o aumento de altitude conduz a temperaturas mais frias. Mais frio significa maturação mais tardia da fruta, concentrando assim aromas e cor. Por esta razão os produtores geralmente destacam no rótulo a altura dos vinhedos.

HUMIDADE
Está relacionada com a quantidade de chuva ao longo do ano. A vinha reage de maneiras diversas perante a quantidade de chuva ao longo do ano. Mas o pior são as chuvas intensas próximas da época da colheita, que prejudicam o teor de açucares, chegando a aumentar a possibilidade de fungos devido a humidade excessiva.

RELEVO
Terrenos de declive, mais ou menos acentuados, modificam a exposição solar, influenciando a maturação das uvas. A topografia influencia por exemplo a protecção contra geadas ou a drenagem dos terrenos, factores com acção directa no matéria prima que entra na adega. Exemplo maior da influência do relevo é a nossa região do Douro, onde as vinhas em socalcos ou patamares de grande inclinação, dão lugar a vinhos de enorme carácter e individualidade. Ou o Alentejo, lugar de eleição onde frutifica algum do melhor Syrah do mundo!

Por fim temos a intervenção humana, catalisando e extraindo do terroir o melhor que lá existe. É entendendo bem o terroir com que se trabalha que se consegue essa magia que tanto apreciamos: saber identificar quais as uvas que melhor se adaptam ao terroir, como plantar a vinha, mais acima, mais abaixo, afastada do solo ou não, etc. A técnica e a enologia vão de mãos dadas com o terroir.

Por isso da próxima vez que um Syrah encher de sublime prazer o nossos sentidos, de certeza um grande trabalho de Terroir esteve por detrás da sua confecção.


 

HT, Tiago Cabaço Wines, 100% Syrah, Alentejo, 2016

Estamos perante a quarta colheita do HT de Tiago Cabaço, do ano de 2016, Estremoz.

A primeira safra, de 2013, foi o Syrah com que começámos esta aventura de contar a história (passado, presente e futuro), dos Syrah portugueses. Por isso temos um especial carinho por este Syrah!

Mas vamos debruçar-nos sobre o HT. Em primeiro lugar, o nome: diz-nos o próprio produtor que se trata duma homenagem à Herdade do Trocaleite, onde passou a infância, e onde estão plantadas 6 parcelas de Syrah cujo cultivo o resultado está à vista.
Neste caso um Syrah novíssimo de 2016, com 13,5% de graduação alcoólica, de “cor rubi compacta, com taninos finos mas poderosos e com um final de boca longo e elegante.” Não poderíamos estar mais de acordo. Acrescentemos, unicamente, que tem grandes possibilidades de evoluir muito positivamente em garrafa.

De referir, e destacar, como sempre o preço, que se situa abaixo dos quatro euros, quando comprado em mercados de grande superfície ou mesmo não tão grande! É obra, tendo em conta os seus congéneres de mercado e devido à qualidade demonstrada.
Quem disse que não é possível comprar um Syrah simultaneamente poderoso e de baixo custo?

O escanção João Pires disse: “O conceito de harmonia entre vinhos e iguarias que indica o branco para o peixe e o tinto para a carne, é um conceito ultrapassado.”
Como estamos de acordo com ele isso significa que tanto se pode beber um Syrah com carne como com peixe, e porque não com uma refeição Vegetariana, quiçá mesmo Vegan?!
É o caso deste HT, 100% Syrah, do Tiago Cabaço de 2016.
Trata-se de um bom Syrah, mesmo!

 

Classificação: 16/20                                                                 Preço: 2,49€


 

Rolha com cristais… porquê?

Por vezes, depois de abrir uma garrafa de Syrah, verificamos que na rolha, sobretudo na parte que esteve em contacto com o líquido, há pequenos cristais em forma sólida!
Que pode isto significar? Devemos mandar o vinho de volta?

Bem, se tudo o demais estiver conforme o que esperamos, isto apenas significa que se geraram cristais de ácido tartárico, resultantes da precipitação deste ácido com potássio, e são chamados os Diamantes do Vinho. Também se podem encontrar no fundo das garrafas, devido a temperaturas baixas, igualmente designados por bitartarato de potássio.

São pois cristais naturais, em nada prejudicam o nosso Syrah, sendo para os conhecedores o indicador de que as uvas permaneceram por tempo prolongado nas videiras antes de serem colhidas, desenvolvendo, portanto, mais personalidade e riqueza de aromas. Diz-nos também que o vinho não foi submetido ao processo de estabilização pelo frio que, por sua vez, não somente precipitaria os cristais antes do engarrafamento, mas removeria substâncias coloidais, muitas delas responsáveis pelas características próprias da uva utilizada na sua produção.

Portanto, a existência destes cristais é um sinal de qualidade. Isto na Europa porque nas Américas tal é considerado um incómodo.

Quanto a nós, ficamos sempre muito felizes quando encontramos este sinal de bom augúrio nos nossos Syrah, quer na rolha quer no fundo do copo, chegando mesmo a permitir que se dissolvam no palato, sempre um momento muito especial!


 

Solar da Marquesa, Casa Agrícola Horácio Nicolau, 100% Syrah, Lisboa, 2016

Este é o mais novíssimo Syrah a ser descoberto pelo Blogue do Syrah.
Solar da Marquesa de seu nome, de Lisboa, mais precisamente do Cadaval!
O ano é 2016 e, em conversa telefónica com o enólogo Carlos Nicolau, ficámos a saber que já tinha havido uma primeira colheita em 2015, com seis mil garrafas. A actual foi lançada com quinze mil garrafas. O mercado externo também absorve uma parte da produção, principalmente o Canadá e a Inglaterra.

Este Syrah é produzido utilizando uma vinificação tradicional, com macerações curtas, fermentações a temperatura controlada para permitir a retenção dos aromas frutados, visando um estilo moderno e cheio de fruta. No sabor é volumoso, boa estrutura e com aroma frutado predominantemente por frutos do bosque e compota de morango. É pois uma belíssima companhia para queijos curados como é apanágio dos Syrah em geral.

A história deste produtor tem mais de 20 anos. O proprietário, Horácio Nicolau, um homem que a pulso construiu esta propriedade com tudo o que tem. Ajudado actualmente pelos seus filhos na enologia e na direcção comercial promovem os vinhos Solar da Marquesa dos quais os mais afamados são os brancos nomeadamente os feitos com Moscatel-Graúdo. As vinhas estão instaladas numa várzea com boa exposição solar, solo argilo-calcário pardo, a 15 km da costa marítima, beneficiando assim com os ventos, especialmente no verão. Os terrenos, uma parte estão instalados na Várzea da “Marquesa”, segundo conta o proprietário, lugar próximo do Marquês de Pombal devido a diversos episódios, num local de passagem em direcção ao Cadaval. Enfim, coisas da História que sempre folgamos em conhecer!

Alguém escreveu que o “Vinho é a vingança masculina ao sapato da mulher. Sempre cabe mais uma garrafa na adega!“
Então se for um sapato de Marquesa, ou este Syrah Solar da Marquesa 2016, sempre haverá espaço para mais um!

 

Classificação: 16/20                                                                           Preço: 6,50€


 

O uso de Carvalho nos barris

Hoje vamos falar de madeira, e de um tipo de madeira em particular, o Carvalho, e da sua relação com o mundo dos vinhos, relação esta quase indispensável. Portanto é o Barril que está em causa neste texto.

O interior do Barril
Quando falamos de Syrah, quase sempre referimos a importância do estágio em madeira, por exemplo, e mais particularmente do Carvalho, sendo o francês o mais utilizado. Possui maior impermeabilidade, maleabilidade, resistência e leveza. Está  comprovado que o carvalho é a madeira que melhor se une ao nosso Syrah, conferindo-lhe muitas das propriedades que tanto apreciamos destacando ainda mais todos os aromas e subtilezas.
De referir que na construção de um barril de carvalho o uso de pregos ou cola é dispensável.

Principais benefícios da madeira

  • Permite micro-oxigenação, benéfica para a estrutura do vinho, garantindo a
    sua longevidade.
  • O vinho recebe da madeira sabores e aromas, em maior ou menor grau dependendo do processo de fabrico, principalmente da cura do barril.
  • O carvalho também possui a propriedade de amaciar e arredondar os taninos
    de um vinho, ou seja, suavizar os taninos rebeldes de algumas castas.
  • Uma parte da estrutura dos vinhos, provém também dos taninos que o
    carvalho fornece, importante ainda para intensificar a cor.
  • O barril é igualmente responsável por estabilizar a cor final do vinho.

Mais alguns factos

  • Tanoeiro é o nome do artesão que fabrica o barril, e a arte do seu fabrico a
    Tanoaria.
  • O barril de carvalho não contém pregos nem cola, como já referimos, as ripas são aquecidas para se tornarem flexíveis e desta maneira encaixarem em perfeita
    vedação.
  • O carvalho mais comum nas barricas é o francês e o americano, esse dado assume tal importância que é sempre referido na ficha técnica.
  • Os barris mais novos são os mais apreciados e desejados por carregarem
    consigo mais aromas e taninos, sem que os seus poros estejam de
    certa forma fechados com depósitos de outros vinhos.
  • No processo de fabrico, o barril é em maior ou menor grau queimado por dentro, dependendo das características finais que se pretendem.
  • Quercus Robus, Quercus Sessiliflora, Quercus Alba são espécies de carvalho utilizados nos barris e armazenamento do vinho. Já a espécie Quercus Súbir, também conhecida como Sobreiro, é o tipo de carvalho que não é utilizado para o armazenamento do vinho, mas sim na fabricação das rolhas.
  • Devido à sua estrutura molecular, o carvalho americano pode ser serrado, porém o carvalho francês apenas pode ser partido. Após esta etapa, a madeira entra no processo de secagem, que pode durar de dois a três anos.
  • Por fim, referimos ainda que pode dar-se o caso, veja-se o nosso querido Quinta de Ventozelo, do vinho nunca passar por madeira, somente inox. Acontece quando as uvas já trazem em si o aroma da madeira, entre outros atributos.

 

Syrah e seus problemas

Tal como o ser humano, também um Syrah pode ter problemas com os quais nos defrontamos quando queremos degustar o conteúdo de uma garrafa que adivinhamos precioso. E não são tão poucos como isso. Vamos ver.

Hoje em dia todo o processo de elaboração do vinho, quer seja artesanal ou industrial, segue normas estritas de controlo de produção e de mediadas higiénicas. Está fora de causa colocar no mercado Syrah com aromas impróprios ou desagradáveis, com todas a consequências que tal acarreta. Embora uma enorme variedade de recursos enológicos aplicados na actividade vitivinícola tenha eliminado muitos dos defeitos que eram comuns no passado, há sempre aqueles “defeitos” que, quando presentes de forma subtil, podem ser interpretados como qualidade, por contraditório que isto possa parecer assim à primeira vista. Os esquemas usados para a interpretação sensorial do vinho inclui, como se pode ver, a fatia dos Defeitos.

Vejamos alguns destes imprevistos e o que significam exactamente.

Efeito de Rolha
Em francês, bouchon significa rolha, logo ‘bouchonné’, em tradução literal, é um vinho rolhado. Em inglês diz-se ‘corked’, de cork, rolha, portanto vamos dar ao mesmo. Estaremos então em presença de um Syrah infectado por um composto tricloroanisol, conhecido como TCA, substância química que surge da presença de fungos na rolha de cortiça. Tal elemento ofusca os verdadeiros aromas do fermentado, dando-lhe um cheiro terrível a mofo. E só pode ser identificado depois de o vinho ser aberto. Este problema atinge cerca de 5% das garrafas no mercado, algo equivalente a mais de 1 bilhão de recipientes a cada ano. Embora a rolha de cortiça natural seja identificada como a maior culpada por este defeito, há também outros produtos como os usados no tratamento e limpeza de madeiras, e fenóis, naturalmente encontrados nas rolhas. Concluindo, um vinho com sabor a rolha, que aliás logo se identifica pelo estado da rolha, como já dissemos noutro artigo, é vinho para deitar fora, infelizmente.

Brettanomyces
Brettanomyces é uma família de leveduras que pode atacar o vinho ou o mosto em fase final de fermentação. Popularmente chamada de “Brett”, esta levedura produz aromas de couro, suor e bacon. No entanto, quando levemente presente, sem encobrir o carácter da fruta, pode adicionar complexidade ao Syrah. Podemos observar isto em muitos dos principais produtores do Rhône. Que melhor exemplo para falar disto senão o nosso bem amado Brett Edition, da Herdade do Arrepiado Velho…!

Oxidação
Oxidação é o processo em que o oxigênio actua como catalisador de uma série de reacções indesejáveis e irreversíveis no Syrah. No entanto uma leve presença pode ser interpretada como qualidade, como é o caso de alguns vinhos emblemáticos de Espanha. De forma geral, a oxidação pode ser notada visualmente por dar à bebida tons alaranjados e enegrecidos. Uma série de substâncias podem ser indicativas de oxidação: Acetaldeído – presente em pequenas quantidades, pode contribuir para a complexidade do vinho, como no caso do Jerez;  Acidez volátil – termo popularmente utilizado para descrever a presença de ácido acético no vinho; Etil acetato – responsável pelo aroma normalmente ligado ao vinagre; Cozimento – em clara referência ao processo de produção do Vinho da Madeira, esta oxidação desenvolve-se pelo aquecimento prolongado da matéria fermentada.

Redução
Trata-se do fenómeno inverso ao da oxidação. São reacções químicas que se desenvolvem em ambientes livres de oxigénio. No caso do vinho, quando se diz que está “reduzido”, ou com “aroma de redução”, significa que alguns compostos sulfúricos indesejáveis foram produzidos. Certas leveduras, diante de condições extremas de carência de nutrientes no produto, passam a alimentar-se de aminoácidos que contêm enxofre, produzindo estes compostos indesejáveis, como o sulfeto de hidrogênio (H2S), mercaptanos e tióis. A incidência de iluminação directa por período prolongado acelera este processo de produção destas substâncias, um mal conhecido como “gosto de luz” (goût de lumière). Mais alguns elementos dão a sua achega nesta matéria. Eis mais algumas: Sulfeto de Hidrogénio, que possui o aroma característico de ovos cozidos em excesso, mas que normalmente agitando-se o vinho na taça ou decantador conseguimos eliminar este problema; Mercaptanos – também são compostos sulfúricos e podem ser produzidos pela acção de leveduras nos aminoácidos do vinho ou nas moléculas de sulfeto de hidrogénio, manifestando-se por aromas de gás de cozinha, alho e repolho, e é um problema difícil de eliminar na totalidade; Tióis e outros dissulfitos – são originados a partir da oxidação de mercaptanos, produzindo aromas de borracha e borracha queimada, e são defeitos permanentes, não podendo ser corrigidos.

Cristais e borras
Não são propriamente defeitos. Cristais de tartarato podem indicar um processo de estabilização leve ou sua ausência. Já as borras ocorrem naturalmente com a evolução dos vinhos tintos e alguns fortificados em garrafa. Também denotam pouca ou nenhuma estabilização e filtração. Não oferecem risco quando ingeridos.

Depois desta lengalenga, que seria de um Syrah livre de defeitos e problemas? Syrah pasteurizado, sem carácter e personalidade? Provavelmente. Para onde iria a complexidade e o trabalho do enólogo que tanto apreciamos?
A polémica fica no ar!