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João Clara, Quinta João Clara, 100% Syrah, Algarve, 2014

Este é o segundo Syrah da responsabilidade de Joana Maçanita, melhor dizendo, dos irmãos Maçanita, que neste caso o projecto é assinado pelos dois!
E qual é o resultado?
O resultado só pode ser bom! Isto já parece um lugar comum, mas como podia ser de outra forma?
O nome Maçanita não sabe fazer Syrah de qualidade inferior!

As uvas da Quinta João Clara foram vinificadas com maceração a frio, por cinco dias, seguido de uma fermentação durante vinte dias. O Syrah João Clara 2014 estagiou quinze meses em barricas de carvalho francês. Escolhido pela Joana Alves, a filha de João, como a sua primeira criação, este vinho apresenta uma ‘cor violeta muito concentrado, no aroma notas de compota de frutos pretos com toques de pimenta preta, que se mostram bem integradas com as notas cremosas da barrica. Na prova é concentrado, com taninos redondos e boa elegância’. A graduação alcoólica é de 14,5%.

E agora um pouco de história sobre a Quinta João Clara, situada em Alcantarilha, e que nos remete para a década de 70, século XX, altura em que o produtor João Maria Alves decidiu adquirir a propriedade e plantar a sua primeira vinha. João Maria Alves, sempre foi conhecido por todos como João Clara e assim, a quinta ficou baptizada em sua homenagem. João Maria Alves era produtor de uvas de vinho há 30 anos, as quais entregava à Adega Cooperativa de Lagoa. Quando a velhice se fez notar passou o legado ao seu único filho, Joaquim Alves, que continuou entregar as uvas na mesma adega, no entanto a dificuldade de pagamento por parte da mesma, levou-o a enredar uma alternativa. Alternativa essa, que passava pela produção do seu próprio vinho. E assim, nasce um sonho!

Foi então, no ano de 2006, que o jovem e aventureiro produtor, Joaquim Alves, lançou o primeiro vinho desta quinta. Foram nesse ano produzidas 6 mil garrafas de Vinho João Clara Tinto. Para este primeiro lançamento, foram escolhidos António Maçanita como enólogo e Júlio Antão como artista plástico para desenhar a primeira garrafa, elaborando a imagem de marca João Clara. Mais tarde, o trabalho enológico passou a ser compartilhado com a Enóloga Cláudia Favinha, no entanto, a partir de 2013, este foi entregue à Enóloga Joana Maçanita e ao Enólogo que iniciou o projecto até então, António Maçanita. Este primeiro vinho foi elaborado com parte da produção vinícola, cerca de 3 hectares, a restante produção de uva foi, nesse ano, entregue à Adega Cooperativa de Lagoa, uma vez que não havia capacidade para a utilização da mesma. O rótulo elaborado para esta primeira garrafa foi inspirado na chaminé algarvia que é um símbolo da região, fruto da influência de cinco séculos de ocupação árabe. Na parte superior do rótulo existe uma deformação, que corresponde ao bico da águia, que simboliza o gosto da família pelo clube de futebol Sport Lisboa e Benfica. Foi então no ano 2007 que surgiu o primeiro vinho rosé da Quinta João Clara, seguindo-se o ano de 2008 em que foi lançado o primeiro vinho branco desta quinta, o qual foi uma homenagem a Joaquim Alves.

A Quinta João Clara têm a dimensão de 26 hectares, onde são desenvolvidas várias actividades de cultivo, embora a que mais se evidencie seja a cultura de vinha que conta agora com 8,5 hectares. A viticultura primou por um casamento entre as castas tradicionais algarvias e as castas que melhor se adaptavam às características do Terroir da quinta, em que o clima é temperado/mediterrânico e solo argiloso. Inicialmente, a Quinta João Clara contava com vinhas, na sua maioria, da casta Negramole e Crato Branco. A necessidade de vinhos com perfil mais moderno suscitou, numa primeira fase, a plantação das castas Trincadeira, Aragonês, Syrah e Alicante Bouschet. Em 2008, efetuou-se reenxertia com a  casta Touriga Nacional.

Mais recentemente, no ano 2010, houve a plantação de uma nova vinha. Desta vez, uma vinha de uvas brancas, primando pelas castas Arinto, Verdelho, Alvarinho e Moscatel. Desta vinha nova, obteve-se o primeiro vinho branco no ano 2013. A casta Crato Branco, também ela uma variedade de uva branca muito tradicional do Algarve, era a única casta existente nas vinhas já plantadas. Estas uvas foram utilizadas para a produção e lançamento de uma nova marca – Às Claras, – assim como, algum do Moscatel produzido.
Ao longo do ano, a vinha é acompanhada de perto pelo viticultor, técnico de fitofármacos e enólogos de forma a garantir a qualidade das uvas, consequentemente, aliada à qualidade do vinho que produzimos. A vindima é feita manualmente em caixas de 15 – 20kg sempre na presença da equipa de enologia e viticultura, por forma a garantir a maior sanidade das uvas à recepção na adega.

O poeta persa dos séculos XI e XII Omar Khayyan no seu poema Rubaiyat diz o seguinte:
“Bebo o Syrah que me oferece uma linda rapariga e não cuido de minha salvação.
Sempre ouço dissertar sobre os gozos reservados aos eleitos, limitando-me a dizer:
Só tenho confiança no Syrah.
Bebe Syrah!”
Pois bem, seguindo as indicações do poeta, uma taça de Syrah, por favor, hoje da Quinta João Clara 2014!

 

Classificação: 17/20                                                     Preço: 19,95€


 

Vale Zias, Fazendas da Estremadura, Sociedade Agrícola Unipessoal Lda, 100% Syrah, Lisboa, 2011

Quando há dois anos apresentámos este Syrah de Lisboa dissemos:
”guardem este Syrah durante uns anos, apostamos, para já, em 4 anos, e depois vejam a evolução! Este é um Syrah capaz de aguentar e melhorar com o tempo. Até apostamos, se for caso disso!”
Não passaram quatro anos, mas só com dois anos dá para perceber que ganhámos a aposta.
Está significativamente melhor!
Pensámos que estaria esgotado. Basicamente está! Mas conseguimos encontrar ainda algumas garrafas numa grande superfície e daí voltarmos a falar dele dois anos volvidos.

A relação qualidade/preço continua muito boa! Este Syrah encontra-se abaixo dos cinco euros e, em essência, acima da média em termos de apreciação. Reparem nas notas de prova: “cor rubi violácea, aromas com boa definição onde predominam frutos vermelhos e bagas, assim como aroma a frutos maduros e de grande estrutura, boca elegante de taninos redondos e maduros, final harmonioso e de boa persistência”. Ficou alguma coisa por esclarecer?

A empresa Fazendas da Estremadura, Sociedade Agrícola Unipessoal Lda, foi fundada em 2005, no entanto as suas origens têm por base um cariz familiar, que já desenvolve a sua actividade agrícola na região vinícola de Lisboa há várias décadas, tendo procedido ao primeiro enchimento de vinho nos anos 30. E tem como principais actividades a produção e comércio de vinho engarrafado, produção de pêra rocha e consultoria técnica em Enologia. A vinificação é feita à boa maneira dos antigos. As uvas são fermentadas em lagar de forma tradicional.

O escritor Juan Sorapán de Rieros disse:
“Syrah é uma das coisas mais antigas que se conhecem, desde o dilúvio universal até ao nosso tempo.”
O Syrah Vale Zias não existe há tanto tempo mas continua a evoluir muito bem!

 

Classificação: 17/20                                              Preço: 4,99€


 

Coisas de Vinho [tertúlia, o vinho e tudo à volta] Março 30

 

Na próxima 5ª feira em Évora temos mais uma boa conversa à volta do vinho.

Tabernas e Tradições é o tema que Francisco Ramos nos propõe, isto enquanto provamos mais um excelente vinho que um dos bons produtores alentejanos nos vai apresentar.

Sinta-se desde já convidado!


 

Vinhas de Pegões, Adega Cooperativa de Pegões, 100% Syrah, Setúbal, 2016

Em Maio do ano passado apresentávamos o primeiro Syrah de 2015, justamente a primeira colheita deste Syrah Vinhas de Pegões!
Hoje estamos aqui para apresentar a segunda colheita!
E que enorme diferença existe entre uma e outra. Se a de 2015 nos tinha empolgado pela qualidade e pelo preço, sendo a escolha no final do ano para o prémio de melhor Syrah na categoria qualidade/preço, já esta colheita de 2016 é o oposto da anterior. Os aromas, a fruta e o gosto a cravinho estão lá mas em dose exagerada…Tão exagerada que o conjunto se torna enjoativo. Não, este Vinhas de Pegões  Syrah 2016 não convence…e abrimos várias garrafas ao longo de um mês. O resultado foi sempre o mesmo! Algo correu mal na elaboração/fermentação deste Syrah. Talvez a ânsia de o colocar tão depressa no mercado possa ter provocado desleixo e o resultado é este.

No entanto as indicações que possuímos indicam que a fermentação alcoólica deu-se em cubas lagar inox com temperatura controlada seguida de maceração pelicular prolongada. O envelhecimento de 4 meses em madeira americana e francesa, seguido de 4 meses em garrafa, antes de ser lançado no mercado. Tem prevista em termos de longevidade uma evolução positiva pelo menos nos primeiros 7 anos. As notas de prova falam “de frutos vermelhos e pretos bem maduros típicos da casta, bem integrado com a madeira, compota, cheio de taninos macios, final longo.” A graduação alcoólica é de 14%.

A Adega Cooperativa de Pegões regista uma diversidade de marcas para a sua gama de produtos, que vai desde os vinhos de mesa passando pelos regionais, DOC, Garrafeira, Colheita Selecionada, Moscatel, Aguardentes, Espumantes, etc. Vende a totalidade da sua produção engarrafada ( mais de 9.000.000 de litros) 65% para o mercado nacional e 35% para o internacional. Talvez por ser este colosso vitivinícola é que às vezes algo pode correr mal! Mas tem que existir controlo de qualidade. Este Syrah assim não dá mesmo para beber! Uma solução que o Blogue do Syrah experimentou foi decantar uma garrafa e deixar o decanter em repouso durante três dias! Estava melhor, mas mesmo assim longe, muito longe da colheita anterior!

O escritor e prémio Nóbel da Literatura Hermann Hesse escreveu:
“Muitas vezes procurei essa alegria, esse sonho, esse esquecimento, numa garrafa de Syrah. E não raramente isso me ajudou. Fique-lhe registado o meu agradecimento. Mas o Syrah não me bastava.”
O Syrah Vinhas de Pegões 2016 não tem essa alegria, esse sonho!

 

Classificação: 14/20                                   Preço: 2,49€


 

Onda Nova, Adega do Cantor, 100% Syrah, Algarve, 2013

Este Syrah Onda Nova 2013, de Albufeira, é o irmão mais recente do Onda Nova que tínhamos apresentado aqui. Tudo mudou neste Syrah da Adega do Cantor. A garrafa, a rotulagem, até a graduação alcoólica. As notas de prova dizem-nos que apresenta “aromas a ameixa e amoras silvestres maduras aliadas a notas subtis de especiarias. Na boca é equilibrado, estrutrado com madeira bem integrada. Termina longo e persistente.” Tem uma graduação alcoólica de 15%.

A Adega do Cantor fica situada na Guia, escassos quilómetros a noroeste de Albufeira, no centro do Algarve. Foi construída para produzir os referidos vinhos, a partir de três Quintas em redor: a Quinta do Moinho, a Quinta do Miradouro e a Quinta Vale do Sobreiro. O objectivo é produzir o melhor vinho que a região oferece, combinando técnicas de produção tradicionais com outras mais modernas e inovadoras.

A Adega localiza-se no topo da Quinta do Miradouro e oferece vistas deslumbrantes sobre as vinhas e o mar. A par da produção de vinho, oferecem visitas guiadas às vinhas e adega, com provas, e a oportunidade de comprar vinho e uma diversidade de produtos de merchandising. O objectivo na Adega do Cantor é produzir vinhos que consigam reflectir o calor, cor e diversidade da região; vinhos que possam acompanhar a fantástica cozinha local. Este vinho é elaborado a partir de uvas colhidas manualmente a partir de blocos seleccionados de vinhas da casta Syrah, como teria de ser, e fermentado em lagares com imersão da manta robotizado. A maturação ocorre numa combinação de barricas de carvalho Francês e cubas de aço inox por um período de 18 meses antes do seu lançamento.

A Adega do Cantor tem capacidade para 200 toneladas e foi construída em colaboração com a Castle Rock Logistics, uma empresa Australiana especializada em projectos e gestão de adegas. O projecto levou 18 meses a ser desenhado em computador e 10 meses a construir. A Adega foi concebida modularmente, de forma a ser facilmente ampliada para albergar 300 toneladas.

O Algarve é uma região excelente para a produção de vinhos frutados. As brisas do mar temperam o abrasador sol algarvio, enquanto os solos calcários limitam a água, criando as condições ideais para a maturação de uvas de alta qualidade para vinho.
A maior parte do trabalho nas vinhas é feito manualmente. A gestão prossegue de uma forma sustentada, com utilização de produtos agrícolas suaves, num programa destinado a prevenir o aparecimento de eventuais doenças nas vinhas, evitando as formas mais agressivas de tratamento. A vindima é feita cuidadosamente à mão. Tudo em conformidade com uma política de produção de vinhos de excelência.

Napoleão dizia que “Claramente os prazeres que o Syrah oferece são transitórios. Mas assim são também os do ballet ou os de uma apresentação musical. Syrah inspira e acrescenta muito ao prazer de viver.”
Vamos lá então beber tranquilamente e em paz, ao sol de Primavera, o Syrah da Adega do Cantor, Sir Harry Rodger Webb, mais conhecido como Cliff Richard, este Onda Nova 2013, que se quer mesmo uma boa onda!

 

Classificação: 16/20                                           Preço: 8,50€


 

Quinta do Barradas, Reserva, 100% Syrah, Algarve, 2014

Hoje temos a honra de apresentar um topo de gama, mais uma vez algarvio, e da zona de Silves!
O Quinta do Barradas, Reserva, Syrah, de 2014, é a primeira colheita… e que colheita!

Fizeram-se cerca de duas mil garrafas. As uvas de que se faz este Syrah eram anteriormente utilizadas para o blend Touriga Nacional e Syrah, que ainda se faz. Esta aposta está ganha porque quem bebe este monocasta Syrah a 100% não se esquece facilmente dele!

O Quinta do Barradas Syrah é uma bebida fermentada a temperaturas controladas por vinte dias, estagiando depois por dezoito meses em barricas de carvalho francês. Na sua cor e aroma predominam as violetas, que se mostram bem integradas com as notas e gomas pretas das especiarias da barrica. Na prova é muito rico, com taninos redondos e de uma enorme elegância. A graduação alcoólica é de 15%. A enóloga é Joana Maçanita, que nós bem conhecemos. Uma pequena nota informativa para destacar a distribuidora algarvia dos vinhos da Quinta do Barradas que é a Saint Graal Vinhos cujo CEO é Luís Bandara!

E agora impõe-se um pouco de história: Luís Pequeno e a sua esposa, a  alemã Andrea, são os proprietários do famoso restaurante “O Barradas”, em Silves, um dos melhores da região. Muitos belgas, em visita ao Algarve, passaram  por lá e designam-no por “Jóia do Algarve”. Em 2006, o Luís decidiu plantar uma vinha com as castas Touriga-Nacional,  Aragonez e Syrah, com  predomínio de ventos do norte, favoráveis a vinhos mais frescos. O solo é franco arenoso, com algum calcário e está a uma cota de sensivelmente 68m. Quatro anos depois, o Luís fez a sua primeira vindima. Finalmente realizava o seu sonho :  servir o seu próprio vinho, no seu próprio restaurante. Uma pequena vinha, com 1.5ha, onde estão plantadas as castas já referidas. Produz-se um branco, um rosé e tintos. O seu primeiro vinho “Selecção Tinto”, foi lançado em setembro 2013. E hoje estamos perante o seu topo de gama, pelo menos, para o Blogue do Syrah!

E há aqui outro nome que tem que ser destacado que é o da Joana Maçanita. Durante este tempo todo em que existe o Blogue do Syrah a Joana, apesar da sua experiência como fazedora de vinhos, era somente a irmã do António. O nome Maçanita tinha um peso enorme no mundo dos Syrah portugueses por causa do Cem Réis, por causa do Brett Edition e por causa do Mil Réis! Agora esse nome ficou mais rico e ampliado! Quando se falar no nome Maçanita teremos sempre que esclarecer se estamos a falar do António ou da Joana. E vai haver mais novidades da parte da Joana, podemos desde já afirmar. Mas isso ficará para outra altura!

O poeta persa dos séculos XI e XII Omar Khayyan no seu poema Rubaiyat diz o seguinte:
“O vinho proporciona aos sábios uma embriaguez semelhante à dos eleitos. Dá-nos a mocidade, restitui-nos o que perdêramos, põe ao nosso alcance tudo o que desejamos. O vinho queima como torrente de fogo, mas, às vezes, tem sobre as nossas mágoas o efeito da água pura e fresca.”
Este é um Syrah que deverá ser bebido sempre que houver essa possibilidade e isto apesar das dificuldades que o enófilo fora do Algarve terá em encontrá-lo! Uma solução será ir ao Restaurante O Barradas, em Silves, comer bem e pedir para acompanhar a refeição com o Reserva Syrah de 2014. Não se vai arrepender!

 

Classificação: 19/20                                           Preço: 25,00€