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Coisas de Vinho – O Vinho e a Cultura

Voltamos dia 27 com o Vinho e a Cultura.

A Ervideira é o produtor convidado na pessoa do Engº Duarte Leal da Costa.

A sua presença é importante, sinta-se convidado.


 

António Agrellos, um Enólogo do Douro que faz Syrah!

Desde a segunda metade dos anos 90 que se produz Syrah em Portugal. O Blogue do Syrah tem feito o seu papel na divulgação desse percurso por terras lusas. Já dissemos várias vezes que em Portugal se produz algum do melhor Syrah do mundo! Como o Syrah é feito por pessoas, é natural que o Blogue do Syrah fale de quem colocou o Syrah português nas bocas do mundo, já que são eles os principais responsáveis pelo aparecimento deste espaço de apresentação, apreciação, devoção e divulgação.

Na sequência de artigos anteriores sobre os enólogos que fazem Syrah em Portugal, cabe-nos hoje a honra de apresentar António Agrellos, que tem no seu currículo dois Syrah, cada um com várias colheitas. Syrah de qualidade feito numa terra que para muitos não foi feita para Syrah! No entanto, contra tudo e contra todos mestre António Agrellos soube mostrar que apesar do Douro ser a terra das Tourigas é possível, e apesar das muitas críticas, fazer Syrah de qualidade o que provoca o nosso imenso interesse e admiração!

Aqui vão eles:

Quinta da Romaneira, 100% Syrah, Douro
Classificação: 19/20

 

Labrador, Quinta do Noval, 100% Syrah, Douro
Classificação: 17/20

 

Vejamos cada um em pormenor.

Quinta da Romaneira, 100% Syrah, Douro
As notas de prova na ficha técnica dizem que  possui “notas exuberantes de especiarias como cominhos e canela no nariz. Maduro e cheio, mas também fresco e delicado, revelando deliciosas notas de alcaçuz no palato, com um final aveludado e persistente.” O vinho foi vinificado em cubas tronco-cónicas, equipadas com controlo de temperatura, a uma temperatura de cerca de 25º/28º. Esteve 14 meses em barricas de carvalho francês de 225 litros. Em 2013 o inverno foi extremamente chuvoso, chuva esta que se prolongou pela primavera com temperaturas inferiores à média. Esta situação foi benéfica pois veio repor os níveis de água no solo, que estavam muito baixos depois de dois anos secos. Seguiu-se um verão seco, praticamente sem chuva. Esta evolução das condições climáticas, condicionou fortemente a evolução do ciclo vegetativo, vindo a traduzir-se num anos de baixa produção, na atraso da maturação de cerca de dez dias. As uvas melhoraram significativamente e iniciamos a vindima a dez de Setembro, estando já em perfeito estado de saúde e maturação, que produziram mostos de qualidade extremamente elevada. Este Syrah foi feito a partir de uvas colhidas neste tempo inicial.

Labrador, Quinta do Noval, 100% Syrah, Douro
Hoje já não se trata de uma experiência mas sim de uma certeza com ganhos significativos. É um Syrah de “aroma muito marcado pela fruta preta, com traços minerais e aromas balsâmicos com alcaçuz. Intenso e poderoso, com notas pungentes a alcatrão, pimenta, casca de laranja. Na boca está fino e texturado, com acidez viva a dar-lhe leveza, taninos elegantes, boa textura e muita intensidade. Longo, equilibrado, com muita precisão e austeridade.”
A Quinta do Noval, com 145 hectares, que dominam o Vale do Pinhão, é a alma e a essência desta propriedade. O solo é essencialmente constituído por rocha xistosa, o que faz com que todos os trabalhos na vinha sejam particularmente difíceis. A Quinta do Noval replantou desde 1994 100 hectares da vinha com as castas mais nobres da região do Douro, adaptando os métodos de poda à tipologia das parcelas. As parcelas foram replantadas em lotes de uma casta só, sendo cada uma escolhida de acordo com as características de cada parcela de terra: a altitude, a exposição solar e o tipo de plantação da videira.

António Manuel de Sousa Pinto Agrellos, 68 anos, vem de uma família que produz e comercializa Vinho do Porto no Vale do Douro desde há quatro gerações. Frequentou Arquitetura na Escola Superior de Belas Artes do Porto, e em 1976-77 estudou Enologia na Universidade de Bordéus, aprofundando os seus conhecimentos vinícolas também na área da prova e química do vinho. Tornou-se Director Técnico da Quinta do Noval em 1993.

Desde 1994 que é reconhecido no mundo vinícola pela excelência dos seus vinhos na Quinta do Noval. Ganhou por duas vezes o louvor da imprensa portuguesa ao ser considerado Enólogo do Ano em vinhos generosos. Ao longo dos últimos 15 anos, os vinhos do Porto e do Douro da Quinta do Noval têm aparecido regularmente nas listas dos melhores vinhos na sua categoria, tendo três Vinhos do Porto Quinta do Noval Vintage atingido pontuação máxima de 100.

António Agrellos não é conhecido no mundo do vinho por ter feito Syrah mas para o Blogue do Syrah só este facto é suficiente para o integrarmos nesta nossa galeria de enólogos!
Vai uma taça de Syrah da Quinta da Romaneira? Ou Labrador, talvez?


 

Madre de Água, 100% Syrah, Terras do Dão, 2012

Hoje vamos falar novamente  de um dos Syrah do Dão, o Syrah Madre de Água! Na altura quando foi apresentado aqui, dissemos que mostrava “possuir qualidades que muito apreciámos”. É de 2012, de Gouveia!

É um Syrah que não tendo tido um desenvolvimento aromático digno de registo, merece voltarmos a falar dele após um ano e três meses porque os seus responsáveis fizeram, e bem, uma renovação em toda a gama que passou por um reposicionamento da marca Madre de Água no mercado em termos de preço no consumidor. Isto significa que o Syrah Madre de Água que custava 17 euros, hoje custa 7,5 euros! E isso faz toda a diferença até porque sempre pensámos que o preço era algo elevado. Hoje podemos afirmar que se trata de um bom Syrah na relação qualidade/preço. A empresa Madre de Água, Lda., situa-se na freguesia de São Pedro, concelho de Gouveia, distrito da Guarda. A empresa gira à volta de um Hotel, o Madre de Água Hotel Rural, que está localizado apenas a 5 minutos de carro da cidade de Gouveia, na encosta da Serra da Estrela, numa quinta que produz além de Syrah, queijo e azeite. É neste espaço algo idílico que se produz o Quinta de Madre de Água Syrah.

Este Syrah tem uma graduação alcoólica de 13,3%. A enóloga é Francisca Pereira. No rótulo da garrafa pode ler-se o seguinte: “A cor púrpura envolta em reflexos violáceos envolve-se graciosamente com os taninos concedendo um corpo médio com acidez leve. Invade os sentidos através do seu aroma de ameixa com toque mentolado compondo um belo bouquet ao nariz. Tipicamente frutado onde a especiaria ocupa lugar de destaque, proporciona um memorável prazer a quem o consome. Vinho de altitude, Terras do Dão.”

Quanto ao Hotel e natureza envolvente, é o refúgio certo para partir à descoberta de uma região emblemática de Portugal. Situado a cinco minutos de Gouveia, junto à aldeia de Vinhó e a pouco mais de 20 quilómetros da Torre, lá no alto da Serra da Estrela, o Hotel possui 10 quartos que oferecem conforto e atmosfera para viver o que há de mais autêntico e tradicional nesta região do país. É o caso dos vinhos da Região Demarcada do Dão, que pode conhecer logo a partir da vinhas, como já foi referido. Extremamente cuidadas, compõem a paisagem que envolve todo o Hotel e é através delas que se produzem vinhos assentes em castas tão tradicionais quanto a Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro, Jaen, Vinha Velha, Encruzado ou Gouveio e naturalmente agora com o Syrah.

O escritor francês Claude Tillier dizia que:
“Comer é uma necessidade do estômago; beber é uma necessidade da alma.”
Beber este Syrah a partir de agora será uma muito apreciável necessidade para quem quiser voltar ciclicamente aos Syrah do Dão!

 

Classificação: 17/20                                                     Preço: 7,50€


 

Tapada de Coelheiros, Herdade dos Coelheiros, 100% Syrah, Alentejo, 2007

Em Fevereiro de 2015 escrevemos o seguinte sobre este Syrah:
“Estamos novamente no Alentejo, região de Arraiolos, para conhecer o Syrah da Herdade dos Coelheiros. Trata-se de um syrah de safra única, mas de qualidade superior.”

Mais de dois anos depois estamos contentes porque de novo a premonição bateu certo. O Syrah Tapada dos Coelheiros de 2007 é mesmo um topo de gama! E está melhor do que na altura em que escrevemos esse texto. O único senão é que agora está teoricamente esgotado.

A Herdade dos Coelheiros é uma empresa familiar, constituída em 1981. Uma década depois, em 1991, surge o seu primeiro vinho sob a chancela de Tapada de Coelheiros e daí para cá tem pautado a sua história vínica pela qualidade dos seus produtos, colheita após colheita. Situado na freguesia da Igrejinha, no concelho de Arraiolos, o Monte dos Coelheiros estende-se por 800 hectares, onde a par da vinha mantém um pomar de nogueiras, montado de sobro, com caça maior e menor, além do olival. Esta variedade de culturas permite à empresa o desenvolvimento de diferentes turismos (eco, agro, cinegético e, claro, o enoturismo).

O ano de 2007 foi excepcional nesta região para a casta Syrah, e isso motivou o enólogo residente da Herdade dos Coelheiros, Luís Maia, com quem tivemos a oportunidade de conversar, assim como o enólogo consultor António Saramago, a fazerem uma experiência: produzir um monovarietal Syrah de unicamente 1800 litros, que deu para encher 2167 garrafas. Esteve 12 meses em pipas de carvalho francês, passou para pipas de carvalho novo durante mais 12 meses, e depois esteve em estágio em garrafa durante mais 24 meses. Este Syrah só foi lançado no mercado em 2012. Este Syrah revela-se “untuoso, cor rubi acentuada, elegante nos seus 14,5 de graduação álcoólica.”

Em resumo estamos perante um Syrah de uma safra única, com uma muito pequena produção e que demorou vários anos a ser produzido. Logo a conclusão óbvia é que se trata de um Syrah do qual não nos podemos esquecer… e que urge procurar pelo que ainda resta dele!

A ficha técnica dá uma sugestão de guarda: De cinco a dez anos. Tendo em conta que faz praticamente dez anos que foi lançado, podemos afiançar que pelo menos mais cinco anos conseguirá com esplendor passar a prova do tempo!

Diz o provérbio português:
“Pão com olhos, queijo sem olhos, e Syrah que salta aos olhos.”
Aí está! O Syrah Tapada dos Coelheiros de 2007 salta aos olhos e ao palato pela qualidade. Vale a pena para quem ainda o conseguir encontrar… e beber!

 

Classificação: 18/20                                           Preço: 22,50€


 

Zappa e Syrah

Sorver com requintes de absoluto deleite enormes quantidades de Syrah , sobretudo português, a um ritmo frenético, qual música celestial, não é a única paixão do Blogue do Syrah, embora seja uma das principais.

Há outras músicas e outros ritmos que nos apaixonam com igual pujança, por exemplo a música de Frank Zappa. Dada a nossa antiguidade, esta melomania vem desde os idos de 70 no século passado, começando obviamente por saudosos discos de Vinil e Cassetes, mais tarde pelos Compact Disc e actualmente ficheiros que nos acompanham nestas maquinetas para todo o lado. Frank Zappa infelizmente partiu cedo desta vida descontente, mas a sua música permanece no nosso dia-a-dia, cada vez tem mais adeptos, cada vez há mais músicos a recriarem a sua genial música. Fomos de tal modo afortunados que tivemos oportunidade de o ver e ouvir ao vivo em Madrid, Maio de 1988… foi um marco na nossa vida!

Mas adiante.

Tudo isto vem a propósito de termos encontrado em deambulação pelo mundo virtual um artigo da revista revista online Hype Science um texto sobre uma nova possibilidade: que as bactérias do ser humano possam ser transmitidas ao mundo vegetal. Tal aconteceu com o Acne. A transferência por patogénese de uma espécie para outra não é um fenómeno desconhecido da ciência – já aconteceu entre animais domesticados e o homem, mas, até agora, sempre foram de animal para animal, nunca entre dois reinos diferentes, como animais e plantas. Assim, foi com surpresa que cientistas constataram que as videiras podem adquirir um bem conhecido micróbio do ser humano, a Propionibacterium Acnes, causadora da acne. A bactéria foi encontrada na casca. A descoberta foi feita no Research and Innovation Center – Fondazione Edmund Mach, na Itália, que examinaram colónias de bactérias que crescem na videira comum, Vitis Vinifera, no noroeste do país. A análise genética da bactéria, e a comparação com outras bactérias, levou os cientistas a fazer uma estimativa de quando ela migrou para as videiras: aproximadamente 7.000 anos atrás, mesma época em que a planta foi domesticada, durante o Neolítico. De lá para cá, a bactéria se adaptou completamente a seu novo hospedeiro, e não pode mais retornar para os humanos.

E agora vem a parte delirante deste assunto. Estes citados cientistas italianos decidiram chamar a tão estranha bactéria P. Acnes tipo Zappae, ou apenas P. Zappae, em homenagem, imagine-se, ao nosso bem conhecido Frank Zappa!

Curiosamente, as plantas que contém esta denominada P. Zappae são saudáveis, o que sugere que a bactéria não tem efeito negativo sobre a nossa igualmente querida videira, talvez até mesmo beneficiando a sua estrutura. Apesar de ser o primeiro exemplo de uma transferência de patógenos de humanos para plantas, acredita-se que a mesma bactéria pode viver noutras plantas, e que outros tipos de bactéria podem ter sido transferidas de humanos para plantas.

E pronto, cada um que rumine este assunto ao som eterno da música do mestre, sorvendo um belo Syrah de mestre, mesmo que proveniente de uma videira com acne.

Nunca mais alguém tocou guitarra assim!


 

Reflexões sobre a Prova Cega dos Syrah Portugueses versus Syrah Franceses!

A Prova Cega de Syrah, em epígrafe,  ocorrida no passado dia 9 de Abril em Lisboa, foi uma experiência extraordinária, intensamente vivida, quer para o Blogue do Syrah quer também, temos essa convicção, para todos os que nela participaram.

Agora que os resultados foram divulgados, são do conhecimento público, e estão a ser lentamente digeridos, importa fazer algumas reflexões com o objectivo de tirar algumas conclusões ao correr da pena e das sensações, como aliás temos feito a propósito das outras provas cegas de Syrah que temos levado a cabo.

Começando pelo vencedor, o
Côte Blonde “La Chatillone”, Vidal Fleury, Côte-Rôtie, 2009,
que, temos de o afirmar e enfatizar, foi justíssimo primeiro lugar porque se trata, de facto,  de um grande Syrah, originário de uma das sub regiões do Vale do Rhône mais famosas, e era também o Syrah mais caro em competição (cerca de 80 euros). Na sua folha de mesa, o Blogue do Syrah atribuiu logo ali, e isto serve para memória futura, a classificação de 19. Em relação ao segundo lugar, o Syrah português Monte do João Martins ficou classificado a nível geral com uma diferença de 0,04 pontos em relação ao primeiro!!! Bastaria a alteração de meio ponto de qualquer um dos jurados a favor do Syrah português e este seria declarado como o grande vencedor, mas as coisas são o que são, e é com isso que estamos a viver e a conviver, mas cada um que faça as sua ilações. O Syrah português segundo classificado era de 2012, do Alto Alentejo (sub região do Alentejo que possui o maior número de grandes Syrah portugueses) e com o preço do francês seria possível comprar 5 Syrah Monte do João Martins!

Continuando com os factos.
No Top Five há 4 Syrah portugueses contra somente 1 francês!
Depois há uma enorme paridade noutros resultados. Nos 10 primeiros classificados 5 são portugueses e 5 são franceses. No conjunto dos últimos 10 classificados, e que apenas apresentámos por ordem aleatória, 5 são também portugueses e 5 são franceses!

Curioso o facto de, apesar de preferirmos Syrah a 100%, como estamos sempre a repetir, 3 dos Syrah no Top Five integram a casta Viognier na sua composição, como já dissemos, entre eles o primeiro lugar, e dois portugueses. Isto pode querer dizer alguma coisa, pois Syrah com uma pequena percentagem de Viognier faz parte de uma certa tradição no Vale do Rhone.

Interessante como 3 Syrah do nosso soberbo terroir Alentejano ficaram logo abaixo do vencedor, em ataque cerrado e provando a sua profunda qualidade.

Fazendo a média das classificações atribuídas pelos jurados aos 20 Syrah presentes, esta nunca desceu abaixo dos 15 pontos (indo de 15,5 até 18,3), já sabemos, o paladar é subjectivo e envolve muitas variantes, mas podemos concluir que Syrah é mesmo bom, le crème de la crème. No total de 260 (13 jurados x 20 Syrah) classificações atribuídas durante a prova, apenas 6 foram abaixo de 15!

Em termos da nossa sensibilidade pessoal, e olhando para as notas atribuídas pelo Blogue do Syrah, as duas piores foram para 2 Syrah franceses, um Saint Joseph e um Cornas, e a melhor nota de 20 foi para o fantástico Crasto Superior Syrah de 2013 que ficou na classificação final em 5 lugar!

O que é que podemos prometer? Uma próxima prova cega de Syrah, ainda a realizar este ano, tão empolgante quanto esta, que demonstrou a quem não sabia, ou a quem queria ignorar, que os Syrah portugueses são dos melhores do mundo!