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Enologia Neurológica

Isto de Syrah, e vinho em geral, tem que se lhe diga. A ciência mais complexa, para falar verdade, não passa muito ao lado do acto de fazer ou apreciar a bebida de Baco.

Chegou ao nosso conhecimento, em pesquisa pela Amazon, este livro de Gordon M. Shepherd, onde se afirma, surpreendentemente, que o cérebro cria o sabor do vinho. Esta abordagem da experiência sensorial do vinho baseia-se em descobertas da neuro-ciência, biomecânica, fisiologia humana e enologia tradicional. Shepherd demonstra como o cérebro cria o sabor, ilustrando claramente os fundamentos científicos deste processo, ao longo de todo o percurso sensorial, aumentando a nossa satisfação em apreciar um bom Syrah. É explicado, primeiro, como o vinho logo na boca começa a actuar sobre o cérebro, passando em seguida para a função do paladar retro-nasal e seu extraordinário poder na apreciação do mesmo. Shepherd explica, detalhadamente, como as vias sensoriais específicas do córtex cerebral criam a memória do vinho e como a linguagem é usada para identificar e imprimir as suas características.

Destinado a uma vasta audiência de leitores, desde simples apreciadores até ao sommelier, passando pelo gourmet ou chef mais experiente. A neuro-enologia mostra como a emoção do prazer é o juiz final na experiência do vinho. Inclui dicas práticas para uma degustação de vinhos, cientificamente fundamentadas, e fecha com um delicioso relato da experiência de Sheffield, saboreando os clássicos vinhos de Bordéus com o vinicultor francês Jean-Claude Berrouet do Chateau Petrus e Dominus Estate.

Portanto, degustar Syrah estimula beneficamente o cérebro, a par de actividades como ouvir música ou, até mesmo, lidar com um problema complicado de matemática, e de forma muito mais completa. As moléculas do vinho não têm aroma ou sabor, mas quando estimulam o cérebro, é este que o cria, da mesma forma que constrói a cor, por exemplo.

É com toda esta ciência na cabeça que vamos a caminho da próxima garrafa de Syrah, seja qual for o cientista!


 

Que dizer sobre os Concursos de Vinho?

Serão de confiança?
É esta a reflexão para hoje, ao sabor do calor estival, começando por falar em organizações sérias, júri acima de toda a suspeita, transparência acima de tudo. Pelo meio está o lucro e os bons negócios. E os grande vinhos alguma vez vencem concursos? A maior parte das vezes não. Valeria a pena correr o risco de perder para vinhos mais baratos?

Os grandes concursos internacionais recebem milhares de vinhos e, geralmente, mais de metade ganham medalhas, portanto as hipóteses de sair de lá premiado são muito elevadas. Ganham os bons e talvez alguns menos bons, também. Claro que os organizadores não ficam a perder: cobram em média 200 euros para receber um vinho a concurso.

O caso do Syrah é um pouco diferente. O concurso Syrah du Monde funciona a uma escala mais restrita. A sua área de influência, embora internacional, garante uma paridade e competitividade que asseguram uma igualdade onde todos podem ser premiados, sem desprestígio para uns e outros. Por exemplo, em 2017, estiveram a concurso 372 Syrahs, tendo sido atribuídas um total de 123 medalhas, menos de metade, portanto, coisa que não acontece, como dissemos, em outros concursos. Há assim grande Syrah premiado todos os anos em França.

Vamos ver se conseguimos arranjar algum para nosso deleite, além dos portugueses premiados, claro, que esses são bem nossos conhecidos!


 

Bernardo Cabral, o outro enólogo do Syrah do Baixo Alentejo

Desde a segunda metade dos anos 90 que se produz Syrah em Portugal. O Blogue do Syrah tem feito o seu papel na divulgação desse percurso por terras lusas. Já dissemos várias vezes que em Portugal se produz algum do melhor Syrah do mundo! Como o Syrah é feito por pessoas, é natural que o Blogue do Syrah fale de quem colocou o Syrah português nas bocas do mundo, já que são eles os principais responsáveis pelo aparecimento deste espaço de apresentação, apreciação, devoção e divulgação.

Na sequência de artigos anteriores sobre os enólogos que fazem Syrah em Portugal, trazemos hoje à ribalta Bernardo Cabral, que tem no seu currículo dois Syrah, cada um com várias colheitas, apesar do segundo ter sido descontinuado.

Aqui vão eles, ambos de peso, como se pode ver pelas classificações atribuídas:


Bombeira do Guadiana, Herdade da Bombeira, 100% Syrah, Alentejo
Classificação: 17/20


Santa Vitória, Casa de Santa Vitória, 100% Syrah, Alentejo
Classificação: 18/20

Vejamos cada um em pormenor.


Bombeira do Guadiana, Herdade da Bombeira, 100% Syrah, Alentejo

As castas inicialmente escolhidas foram as alentejanas: Trincadeira e Aragonês, com cerca de 6 hectares cada e as internacionais: Cabernet Sauvignon e Syrah com cerca de 3,5 hectares cada. A plantação da vinha ocorreu nos anos 98 e 99 tendo sido vendidas no mercado as primeiras produções de uva. Após análise do comportamento das castas na zona e a conselho do enólogo residente Bernardo Cabral, decidiu-se em 2002 substituir, e muito bem na opinião do Blogue do Syrah, cerca de 2,5 hectares de casta Aragonês por Syrah, e em 2006 o restante por Alicante Bouchet cerca de 3,5 hectares.
Sobre exactamente o que nos traz aqui hoje, as notas de prova falam de um Syrah “especiado e bem maduro, algum chocolate, fruto intenso, boca com volume algum calor num final longo e picante. Um tinto com franqueza e generosidade de formas. Taninos sedosos e redondos, termina prolongado e medianamente persistente.”
Tem uma graduação alcoólica de 14,5%.


Santa Vitória, Casa de Santa Vitória, 100% Syrah, Alentejo

O Santa Vitória Syrah é de safra única, com uma tiragem de 3300 garrafas, e tem graduação alcoólica de 15%. Estagiou durante 14 meses em barricas de carvalho francês e foi engarrafado sem filtração. As notas de prova apontam “aromas frutados, notas de ameixas pretas, cassis, chocolate preto e especiarias.”
Numa área total de vinha de cerca de 127 hectares, as castas tintas compreendem cerca de 105 hectares e as brancas 22 hectares. Foram escolhidas as mais nobres castas nacionais e estrangeiras, que melhor se adaptam ao “terroir“. O estágio em barricas de carvalho de elevada qualidade, promove a passagem de alguns componentes da madeira (taninos e compostos aromáticos) para o vinho, conferindo-lhe complexidade e elegância.


Bernardo Cabral é natural de Moçambique, e foi logo aos 12 anos que decidiu ser enólogo. Desde muito novo percebeu que alguma coisa especial o vinho teria que ter para dar tanto prazer a quem o bebia, e especialmente a quem o fazia. Vivia fascinado com os seus tios enólogos e tudo o que aquele mundo, místico aos seus olhos, representava. Sem dúvida queria fazer parte dele.
Começou ainda na faculdade através do seu trabalho final de curso. Um estudo muito interessante que lhe permitiu contactar reconhecidos profissionais do sector e que acabou por lhe abrir algumas portas. Foi desafiado pelo José Gaspar para fazer parte da sua jovem equipa na então renovada empresa Caves Dom Teodósio. Aprendeu muito durante o pouco tempo que lá esteve. De seguida pela mão do Nuno Cancela d’Abreu rumou para a Companhia das Quintas, na altura a dar os seus primeiros passos. Foram 4 anos em que trabalhou nesta casa. Em 2004 foi para a Casa Santa Vitória colocar as “primeiras pedras” com o Nuno Cancela d’Abreu como consultor. Foi enólogo principal e director da empresa durante 8 anos e hoje continua como consultor.

Em 2012 teve o desafio da Companhia das Lezírias que o fez mudar de “casa mãe” e até hoje mantêm-se como enólogo. Em simultâneo mantêm consultoria na Bombeira do Guadiana (Mértola), Pegos Claros (Palmela) e Vicentino (Zambujeira-do-mar).

Na última prova que o Blogue do Syrah levou a cabo entre Syrah portugueses e Syrah franceses, um dos dez Syrah portugueses escolhidos foi justamente o de Bernado Cabral, o Syrah da Casa de Santa Vitória. Só esse facto testemunha da importância que este enólogo teve na história dos Syrah em Portugal. O nosso bem-haja!


 

Movimento da Temperança

Hoje a chalaça é falar de um recorrente movimento contra o consumo de álcool dentro de um blogue que só fala de consumo de uma bebida alcoólica. Vamos a isso!

Este dito Movimento da Temperança nasceu no início do Século XIX, por entre médicos, lideres religiosos e empresários nos Estados Unidos, e mais algumas ligas puritanas, advogando que consumir bebidas espirituosas afectava a saúde mental conduzindo ao vício, e vícios não são coisa boa. Foi nesta sequência de pensamento que nasceu no principio do Século XX a famosa Lei Seca, conduzindo ao aumento clandestino do consumo de álcool e aumento da criminalidade relacionada com a proibição. O extremismo foi tal que chegaram mesmo a alterar a Bíblia eliminando a referências a álcool. Portanto na Ultima Ceia bebeu-se sumo de uva e não vinho! O movimento difundiu-se por entre os países anglo-americanos, chegando à Nova Zelândia em plena força.

O extremo da temperança era a abstémia, ausência total de consumo alcoólico. Todas as religiões cristãs no ocidente armaram em bandeira a favor do movimento. Claro, tudo isto foi abraçado com paixão na era vitoriana, em Inglaterra, pródiga em falsos moralismos. Houve movimentos para acabar com bares e cervejarias, manifestações e marchas para influenciar as pessoas a acabarem com todos os licores e vinho. Neste período, houve alguns locais que tiveram sucesso quase completo em restringir ou proibir a venda de álcool em muitas partes dos Estados Unidos e no Reino Unido. Em 1864, o Exército de Salvação foi fundado, em Londres, com uma forte ênfase na abstinência de álcool e que rapidamente se espalhou internacionalmente, mantendo a toada na abstinência. Os grupos abstémios são mais que muitos, a Woman’s Christian Temperance Union, a Pioneer Total Abstinence Association foi formada por James Cullen, um católico irlandês, a Anti-Saloon League, etc.

O movimento ganhou ainda mais adeptos durante a Primeira Guerra Mundial, com a imposição das fortes restrições sobre a venda de álcool em muitos países combatentes, a fim de preservar recursos para uso guerra. No Reino Unido, o governo Liberal aprovou a Defence of the Realm, lei de 1914, com a cerveja sendo diluída e taxada acima da média. Por esta altura até os países nórdicos tentaram proibir a venda de álcool. O movimento de temperança começou a diminuir a partir dos anos 30 do Séc. XX. A famosa Lei Seca foi finalmente abolida nos Estados Unidos em 5 de Dezembro de 1933.

O movimento de temperança ainda existe em muitas partes do mundo, embora seja geralmente menos politicamente influente do que era no passado. Actualmente, o Straight Edge advoga a moderação no consumo de bebidas alcoólicas, estendendo o conceito ao consumo de drogas e tabaco.

Nós aqui no Blogue do Syrah defendemos que Syrah é saúde, é paixão, é amor, é terapia, é cultura, é convívio, e não pode ser excesso… aí sim é temperança, no sentido socrático do termo.
O nosso lema é, parafraseando o grande Zappa: “Syrah is the best“!


 

Coisas de Vinho – O Vinho no Verão

Coisas de vinho encerra a o ano de actividades na rua – o tema é o vinho no verão.

A oradora é Maria João Cabrita, docente na Universidade de Évora; os vinhos à prova são da Adega Cooperativa da Vidigueira e são apresentados por Luís Leão.

Na Mercearia do Largo, Largo Álvaro Velho (em frente à Pousada da Juventude – antigo hotel Planície), Sexta-feira, dia 16, 18:00.

Venha celebrar o Vinho, o Syrah e o Verão e prove o calor alentejano num copo, partilhe e traga amigos.


 

Por que é o Syrah melhor do que o Cabernet?

Nada do que é dito hoje aqui é novidade para o Blogue do Syrah!
Aliás, andamos a dizê-lo, por estas ou outras palavras, há já uns valentes anos!
Isto é válido quer para as castas internacionais mencionadas no texto quer para as castas nacionais!

Este texto é dedicado a todos os enófilos que ainda não conseguiram enxergar o óbvio!
Um obrigado muito especial ao Eugénio Couto que fez o favor de chamar a nossa atenção para este texto da Wine Enthusiast, escrito por Joe Czerwinski e por nós traduzido e adaptado, mantendo o espírito original.

Embora mais populares, castas como Cabernet Sauvignon, por exemplo, muitas vezes oferecem menos do que outras, estamos a falar de Syrah, que é a que nos interessa.
Não há muito tempo atrás, era geralmente difícil vender Syrah. Isto ainda pode ser verdade desde o ponto de vista comercial: a casta Syrah nunca captou grandes números no mercado dos monocasta, sendo ultrapassada pelas Cabernet Sauvignon, Merlot, Pinot Noir, por margens substanciais. Mas olhando o consumidor de vinho, a Syrah é muitas vezes a melhor escolha, oferecendo mais variedade e valor do que Cabernet Sauvignon. Para quem começa, é mais fácil ter logo um produto de primeira qualidade, pois a casta Syrah cresce em terrenos onde as outras não o conseguiriam com qualidade, oferecendo aqueles toques a cereja, especiarias, pimenta, tão querido aos apreciadores. Da mesma forma, em climas quentes, como o nosso Alentejo, onde o Cabernet perde sua fragrância delicada, a casta Syrah é capaz de manter um grau de elegância, mesmo apesar do calor. Do ponto de vista do consumidor de vinho, a Syrah é muitas vezes a melhor escolha, oferecendo mais variedade e valor do que o Cabernet.

Portanto a fama Cabernet Sauvignon significa que esses vinhos são geralmente mais caros do que os seus colegas Syrah. Em França, logo a partir do século XIX, o Syrah do Rhône foi usado para melhorar os vinhos Bordeaux baseados em Cabernet. Os Bordéus assim tratados eram chamados de “Hermitados”, e vendido por preços mais altos do que os Bordeaux não adulterado. Em termos históricos, os consumidores têm a chance de comprar vinhos à base de Syrah com um desconto relativo.

Eis algumas opiniões de palato, comuns entre os apreciadores de Syrah, todos retirados de Syrah que custam menos de 20 euros (tente encontrar Cabernets dentro destes preços com tais qualificativos): Aromas complexos e sabores de frutas densas, iluminados por acidez rápida. Apimentado, forte em frutos vermelhos, envolvidos numa textura atraente.De corpo cheio e ricamente texturizado, com frutas arrojadas. Um copo concentrado e estruturado de sabores, bondade. Ervas e especiarias em camadas, mirtilos de textura sedosa e cerejas negras. Amoras maduras, tempero herbal equilibrado por amplo corpo e ácidos nítidos.

E com isto nos vamos por hoje!