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Syrah e Resveratrol, uma vez mais

As páginas online da revista Nature estão plenas de referência a vinho e seus componentes benéficos. Mais uma vez é o famoso Resveratrol que nos tem a aqui a falar das suas propriedades anti-inflamatórias, nomeadamente a inflamação induzida por uma bactéria patogénica que está associada a doenças inflamatórias do trato respiratório superior, como a asma, doença pulmonar obstrutiva crónica e otite média.

O Resveratrol existente nas uvas induz vários processos que fornecem benefícios para a saúde, desenvolvendo agentes anti-inflamatórios novos e eficazes. O Resveratrol pertence a um grupo de compostos chamados polifenóis, que se acredita actuam como antioxidantes e protejam o organismo de danos. Há muito que este composto é considerado como um agente terapêutico de várias doenças, incluindo as doenças inflamatórias, por exemplo as causadas por um importante agente patogénico respiratório, o Haemophilus influenzae. No entanto a presença de uma determinada quantidade de inflamação é necessária e benéfica para as defesas do organismo contra as infecções bacterianas. É a inflamação descontrolada que conduz ao desenvolvimento de doenças inflamatórias, sendo as patologias do trato respiratório superior, como asma e a doença pulmonar obstrutiva crónica, responsáveis por mais de 500 milhões de pessoas em todo o mundo com inflamação crónica das vias superiores.

Os antibióticos são utilizados intensivamente no tratamento de infecções por aquele agente patogénico, mas devido ao número crescente de estirpes de bactérias resistentes a estes fármacos e ao sucesso limitado dos tratamentos disponíveis há necessidade de desenvolver terapias alternativas.

Os investigadores enfatizam a importância do Resveratrol como mediador pró-inflamatório nas células epiteliais das vias aéreas e nos pulmões dos ratinhos através do aumento de uma molécula (MyD88) que funciona como regulador negativo das vias de sinalização inflamatória. Estas descobertas podem ajudar no desenvolvimento de estratégias que tenham por alvo ou que aumentem a produção do MyD88.

E como Resveratrol é coisa que não falta num bom Syrah, vamos a ele, em nome da nossa saúde!

Cheirar vinho ajuda na prevenção de doenças neuro-degenerativas

Mais uma ideia recolhida por aí, desta vez sobre o acto de cheirar esta bebida que tanto nos encanta a vida.

Cheirar vinho é sumo prazer! As fontes são diversas, os estudos são vários, e dizem por exemplo que o Sommelier tem mais desenvolvidas as áreas do cérebro relacionadas com o olfacto e a memória, o que ajuda na prevenção de doenças neuro-degenerativas, como Alzheimer e Parkinson. Os cientistas compararam um grupo de Sommeliers com um grupo de pessoas pouco relacionadas com o mundo do vinho, utilizando técnicas como ressonância magnética e questionários específicos, analisando a estrutura e função cerebral de cada participante. Nos Sommeliers as áreas do cérebro ligadas ao olfacto e memória estavam mais desenvolvidas e activas do que nas pessoas do outro grupo, o que pode ser essencial a longo prazo pois são zonas do cérebro que mais degeneram com o passar do anos.

Portanto treinar os sentidos com um bom Syrah, digamos, cheirando, sorvendo, degustando, até mesmo só olhar para a sua cor bela e profunda é fundamental para um bom viver, então se ajuda na degenerescência do nosso precioso cérebro ainda melhor. Nós no Blogue do Syrah, cheirar Syrah é um dos passatempos preferidos, agora vamos ver que tal vai ser a nossa neuro-degeneração!


 

Enologia Neurológica

Isto de Syrah, e vinho em geral, tem que se lhe diga. A ciência mais complexa, para falar verdade, não passa muito ao lado do acto de fazer ou apreciar a bebida de Baco.

Chegou ao nosso conhecimento, em pesquisa pela Amazon, este livro de Gordon M. Shepherd, onde se afirma, surpreendentemente, que o cérebro cria o sabor do vinho. Esta abordagem da experiência sensorial do vinho baseia-se em descobertas da neuro-ciência, biomecânica, fisiologia humana e enologia tradicional. Shepherd demonstra como o cérebro cria o sabor, ilustrando claramente os fundamentos científicos deste processo, ao longo de todo o percurso sensorial, aumentando a nossa satisfação em apreciar um bom Syrah. É explicado, primeiro, como o vinho logo na boca começa a actuar sobre o cérebro, passando em seguida para a função do paladar retro-nasal e seu extraordinário poder na apreciação do mesmo. Shepherd explica, detalhadamente, como as vias sensoriais específicas do córtex cerebral criam a memória do vinho e como a linguagem é usada para identificar e imprimir as suas características.

Destinado a uma vasta audiência de leitores, desde simples apreciadores até ao sommelier, passando pelo gourmet ou chef mais experiente. A neuro-enologia mostra como a emoção do prazer é o juiz final na experiência do vinho. Inclui dicas práticas para uma degustação de vinhos, cientificamente fundamentadas, e fecha com um delicioso relato da experiência de Sheffield, saboreando os clássicos vinhos de Bordéus com o vinicultor francês Jean-Claude Berrouet do Chateau Petrus e Dominus Estate.

Portanto, degustar Syrah estimula beneficamente o cérebro, a par de actividades como ouvir música ou, até mesmo, lidar com um problema complicado de matemática, e de forma muito mais completa. As moléculas do vinho não têm aroma ou sabor, mas quando estimulam o cérebro, é este que o cria, da mesma forma que constrói a cor, por exemplo.

É com toda esta ciência na cabeça que vamos a caminho da próxima garrafa de Syrah, seja qual for o cientista!


 

Que dizer sobre os Concursos de Vinho?

Serão de confiança?
É esta a reflexão para hoje, ao sabor do calor estival, começando por falar em organizações sérias, júri acima de toda a suspeita, transparência acima de tudo. Pelo meio está o lucro e os bons negócios. E os grande vinhos alguma vez vencem concursos? A maior parte das vezes não. Valeria a pena correr o risco de perder para vinhos mais baratos?

Os grandes concursos internacionais recebem milhares de vinhos e, geralmente, mais de metade ganham medalhas, portanto as hipóteses de sair de lá premiado são muito elevadas. Ganham os bons e talvez alguns menos bons, também. Claro que os organizadores não ficam a perder: cobram em média 200 euros para receber um vinho a concurso.

O caso do Syrah é um pouco diferente. O concurso Syrah du Monde funciona a uma escala mais restrita. A sua área de influência, embora internacional, garante uma paridade e competitividade que asseguram uma igualdade onde todos podem ser premiados, sem desprestígio para uns e outros. Por exemplo, em 2017, estiveram a concurso 372 Syrahs, tendo sido atribuídas um total de 123 medalhas, menos de metade, portanto, coisa que não acontece, como dissemos, em outros concursos. Há assim grande Syrah premiado todos os anos em França.

Vamos ver se conseguimos arranjar algum para nosso deleite, além dos portugueses premiados, claro, que esses são bem nossos conhecidos!


 

Bernardo Cabral, o outro enólogo do Syrah do Baixo Alentejo

Desde a segunda metade dos anos 90 que se produz Syrah em Portugal. O Blogue do Syrah tem feito o seu papel na divulgação desse percurso por terras lusas. Já dissemos várias vezes que em Portugal se produz algum do melhor Syrah do mundo! Como o Syrah é feito por pessoas, é natural que o Blogue do Syrah fale de quem colocou o Syrah português nas bocas do mundo, já que são eles os principais responsáveis pelo aparecimento deste espaço de apresentação, apreciação, devoção e divulgação.

Na sequência de artigos anteriores sobre os enólogos que fazem Syrah em Portugal, trazemos hoje à ribalta Bernardo Cabral, que tem no seu currículo dois Syrah, cada um com várias colheitas, apesar do segundo ter sido descontinuado.

Aqui vão eles, ambos de peso, como se pode ver pelas classificações atribuídas:


Bombeira do Guadiana, Herdade da Bombeira, 100% Syrah, Alentejo
Classificação: 17/20


Santa Vitória, Casa de Santa Vitória, 100% Syrah, Alentejo
Classificação: 18/20

Vejamos cada um em pormenor.


Bombeira do Guadiana, Herdade da Bombeira, 100% Syrah, Alentejo

As castas inicialmente escolhidas foram as alentejanas: Trincadeira e Aragonês, com cerca de 6 hectares cada e as internacionais: Cabernet Sauvignon e Syrah com cerca de 3,5 hectares cada. A plantação da vinha ocorreu nos anos 98 e 99 tendo sido vendidas no mercado as primeiras produções de uva. Após análise do comportamento das castas na zona e a conselho do enólogo residente Bernardo Cabral, decidiu-se em 2002 substituir, e muito bem na opinião do Blogue do Syrah, cerca de 2,5 hectares de casta Aragonês por Syrah, e em 2006 o restante por Alicante Bouchet cerca de 3,5 hectares.
Sobre exactamente o que nos traz aqui hoje, as notas de prova falam de um Syrah “especiado e bem maduro, algum chocolate, fruto intenso, boca com volume algum calor num final longo e picante. Um tinto com franqueza e generosidade de formas. Taninos sedosos e redondos, termina prolongado e medianamente persistente.”
Tem uma graduação alcoólica de 14,5%.


Santa Vitória, Casa de Santa Vitória, 100% Syrah, Alentejo

O Santa Vitória Syrah é de safra única, com uma tiragem de 3300 garrafas, e tem graduação alcoólica de 15%. Estagiou durante 14 meses em barricas de carvalho francês e foi engarrafado sem filtração. As notas de prova apontam “aromas frutados, notas de ameixas pretas, cassis, chocolate preto e especiarias.”
Numa área total de vinha de cerca de 127 hectares, as castas tintas compreendem cerca de 105 hectares e as brancas 22 hectares. Foram escolhidas as mais nobres castas nacionais e estrangeiras, que melhor se adaptam ao “terroir“. O estágio em barricas de carvalho de elevada qualidade, promove a passagem de alguns componentes da madeira (taninos e compostos aromáticos) para o vinho, conferindo-lhe complexidade e elegância.


Bernardo Cabral é natural de Moçambique, e foi logo aos 12 anos que decidiu ser enólogo. Desde muito novo percebeu que alguma coisa especial o vinho teria que ter para dar tanto prazer a quem o bebia, e especialmente a quem o fazia. Vivia fascinado com os seus tios enólogos e tudo o que aquele mundo, místico aos seus olhos, representava. Sem dúvida queria fazer parte dele.
Começou ainda na faculdade através do seu trabalho final de curso. Um estudo muito interessante que lhe permitiu contactar reconhecidos profissionais do sector e que acabou por lhe abrir algumas portas. Foi desafiado pelo José Gaspar para fazer parte da sua jovem equipa na então renovada empresa Caves Dom Teodósio. Aprendeu muito durante o pouco tempo que lá esteve. De seguida pela mão do Nuno Cancela d’Abreu rumou para a Companhia das Quintas, na altura a dar os seus primeiros passos. Foram 4 anos em que trabalhou nesta casa. Em 2004 foi para a Casa Santa Vitória colocar as “primeiras pedras” com o Nuno Cancela d’Abreu como consultor. Foi enólogo principal e director da empresa durante 8 anos e hoje continua como consultor.

Em 2012 teve o desafio da Companhia das Lezírias que o fez mudar de “casa mãe” e até hoje mantêm-se como enólogo. Em simultâneo mantêm consultoria na Bombeira do Guadiana (Mértola), Pegos Claros (Palmela) e Vicentino (Zambujeira-do-mar).

Na última prova que o Blogue do Syrah levou a cabo entre Syrah portugueses e Syrah franceses, um dos dez Syrah portugueses escolhidos foi justamente o de Bernado Cabral, o Syrah da Casa de Santa Vitória. Só esse facto testemunha da importância que este enólogo teve na história dos Syrah em Portugal. O nosso bem-haja!


 

Movimento da Temperança

Hoje a chalaça é falar de um recorrente movimento contra o consumo de álcool dentro de um blogue que só fala de consumo de uma bebida alcoólica. Vamos a isso!

Este dito Movimento da Temperança nasceu no início do Século XIX, por entre médicos, lideres religiosos e empresários nos Estados Unidos, e mais algumas ligas puritanas, advogando que consumir bebidas espirituosas afectava a saúde mental conduzindo ao vício, e vícios não são coisa boa. Foi nesta sequência de pensamento que nasceu no principio do Século XX a famosa Lei Seca, conduzindo ao aumento clandestino do consumo de álcool e aumento da criminalidade relacionada com a proibição. O extremismo foi tal que chegaram mesmo a alterar a Bíblia eliminando a referências a álcool. Portanto na Ultima Ceia bebeu-se sumo de uva e não vinho! O movimento difundiu-se por entre os países anglo-americanos, chegando à Nova Zelândia em plena força.

O extremo da temperança era a abstémia, ausência total de consumo alcoólico. Todas as religiões cristãs no ocidente armaram em bandeira a favor do movimento. Claro, tudo isto foi abraçado com paixão na era vitoriana, em Inglaterra, pródiga em falsos moralismos. Houve movimentos para acabar com bares e cervejarias, manifestações e marchas para influenciar as pessoas a acabarem com todos os licores e vinho. Neste período, houve alguns locais que tiveram sucesso quase completo em restringir ou proibir a venda de álcool em muitas partes dos Estados Unidos e no Reino Unido. Em 1864, o Exército de Salvação foi fundado, em Londres, com uma forte ênfase na abstinência de álcool e que rapidamente se espalhou internacionalmente, mantendo a toada na abstinência. Os grupos abstémios são mais que muitos, a Woman’s Christian Temperance Union, a Pioneer Total Abstinence Association foi formada por James Cullen, um católico irlandês, a Anti-Saloon League, etc.

O movimento ganhou ainda mais adeptos durante a Primeira Guerra Mundial, com a imposição das fortes restrições sobre a venda de álcool em muitos países combatentes, a fim de preservar recursos para uso guerra. No Reino Unido, o governo Liberal aprovou a Defence of the Realm, lei de 1914, com a cerveja sendo diluída e taxada acima da média. Por esta altura até os países nórdicos tentaram proibir a venda de álcool. O movimento de temperança começou a diminuir a partir dos anos 30 do Séc. XX. A famosa Lei Seca foi finalmente abolida nos Estados Unidos em 5 de Dezembro de 1933.

O movimento de temperança ainda existe em muitas partes do mundo, embora seja geralmente menos politicamente influente do que era no passado. Actualmente, o Straight Edge advoga a moderação no consumo de bebidas alcoólicas, estendendo o conceito ao consumo de drogas e tabaco.

Nós aqui no Blogue do Syrah defendemos que Syrah é saúde, é paixão, é amor, é terapia, é cultura, é convívio, e não pode ser excesso… aí sim é temperança, no sentido socrático do termo.
O nosso lema é, parafraseando o grande Zappa: “Syrah is the best“!