António Ventura – O bem aventurado do Syrah

Desde a segunda metade dos anos 90 que se produz Syrah em Portugal. O Blogue do Syrah tem feito o seu papel na divulgação desse percurso por terras lusas. Já dissemos várias vezes que em Portugal se produz do melhor Syrah do mundo!
Como o Syrah é feito por pessoas, é natural que o Blogue do Syrah fale de quem colocou o Syrah português nas bocas do mundo, já que são eles os principais responsáveis pelo aparecimento deste espaço de apresentação, apreciação, devoção e divulgação.
Na sequência de artigos anteriores sobre os enólogos que fazem Syrah em Portugal, trazemos hoje à ribalta António Ventura, que tem no seu currículo oito Syrahs.
Aqui vão eles, quase todos de peso, como se pode ver pelas classificações atribuídas:


Quinta do Gradil, Sociedade Vitivinícola, SA, 100% Syrah, Lisboa, 2015
Classificação: 17/20

Lapa dos Gaivões, João M. Barbosa vinhos , 100% Syrah, Alentejo, 2005
Classificação: 17/20

Ninfa, João M. Barbosa vinhos , 100% Syrah, Tejo, 2003
Classificação:

Casa da Atela, Quinta da Atela, 100% Syrah, Tejo, 2007
Classificação: 14/20

Arruda dos Vinhos, Adega Cooperativa de Arruda dos Vinhos, 100% Syrah, Lisboa, 2009
Classificação: 14/20

Lote 44, Adega de Arruda, 100% Syrah, Lisboa, 2015
Classificação: 15/20

Gamito, Herdade do Gamito, 100% Syrah, Alentejo, 2014
Classificação: 17/20

Passo dos Terceiros, Sovibor, 100% Syrah, Alentejo, 2015
Classificação: 18/20

 

Vejamos cada um em pormenor.

Quinta do Gradil, Sociedade Vitivinícola, SA, 100% Syrah, Lisboa, 2015
E agora no presente ano temos a terceira colheita deste espectacular Syrah sempre em crescendo, tanto em qualidade como a nível de produção, nada mais nada menos do que…espantem-se, 37 000 garrafas!!
Podemos dizer desde já que nunca em Portugal numa única colheita se fez 37 000 garrafas dum monocasta Syrah! E isto deve ser realçado!
Os enólogos falam-nos de “Um syrah muito expressivo, de cor retinta e aromas intensos de bagas do bosque, pontuados com notas químicas e um toque de mineralidade. Elegante na boca, revela harmonia entre a fruta e os taninos evidentes mas bem integrados, num conjunto enriquecido por 14 meses de estágio em barricas de carvalho francês. O seu final é prolongado e distinto.” Nada a dizer!

Lapa dos Gaivões, João M. Barbosa vinhos , 100% Syrah, Alentejo, 2005
Em relação ao Lapa dos Gaivões, conseguimos ainda uma garrafa, que muito nos agradou, o que fica demonstrado na nota que lhe atribuímos. O enólogo foi António Ventura, e as notas de prova dizem que tem uma “cor avioletada e aromas florais, frutados e ligeiramente abaunilhados, está ainda muito presente toda a sua juventude, com os taninos a mostrarem toda a sua força e as notas de madeira ainda bem vincadas na prova de boca, é complexo e encorpado e melhorará certamente com o tempo em garrafa, o final é prolongado.” O estágio decorreu em barricas de carvalho Francês “Allier” e Americano durante 12 meses. Tem 14% de graduação alcoólica.

Ninfa, João M. Barbosa vinhos , 100% Syrah, Tejo, 2003
Sobre o Ninfa Syrah muito pouco podemos dizer. Não o chegámos a conhecer! Já estava esgotado aquando do nascimento do Blogue do Syrah. Em conversa com o produtor numa feira de vinhos alentejanos perdemos de vez a esperança de o poder ainda vir a encontrar. Se algum dos nossos leitores dele se recordar que venha aqui comentar de sua justiça!

Casa da Atela, Quinta da Atela, 100% Syrah, Tejo, 2007
Feito pelo enólogo António Ventura e com 13,5% de graduação alcoólica, este Syrah apresenta-se com as seguintes notas de prova: “Cor rubi, aromas elegantes de frutos negros e chocolate, com um toque de baunilha discreto. Estrutura de boca bastante elegante com taninos muito sólidos de excelente qualidade e final de persistência longa.”

Arruda dos Vinhos, Adega Cooperativa de Arruda dos Vinhos, 100% Syrah, Lisboa, 2009
A Adega Cooperativa de Arruda dos Vinhos, hoje em destaque, fez uma única safra de monocasta Syrah, no ano de 2009, que se encontra já esgotada. Ao Blogue do Syrah foi muito gentilmente cedida pelo produtor uma garrafa, quando soube que não conhecíamos o seu Syrah. Ficámos muito agradecidos.
A fermentação deu-se em cuba de inox com sistema de pisa automático e controlo de temperatura de fermentação. Estagiou durante 5 meses em barricas de carvalho francês e carvalho americano e 2 meses em garrafa na cave. As notas de prova dizem que tem uma “cor granada intensa e aroma a frutos vermelhos, sendo na boca equilibrado e suave devido à excelência da qualidade da casta.”

Lote 44, Adega de Arruda, 100% Syrah, Lisboa, 2015
O Syrah de nome Lote 44 de 2015 é o segundo monovarietal Syrah que a Adega Cooperativa de Arruda dos Vinhos faz. O primeiro, do já longínquo ano de 2009 tinha o nome de Arruda dos Vinhos. O de 2009, como foi dito na altura, não deixou saudades por aí. Este Lote 44 é claramente melhor!
A fermentação deu-se em cuba de inox, com controlo de temperatura a 26ºC. A maceração aconteceu durante oito dias. As notas de prova dizem-nos que tem “cor granada, aroma a frutos silvestres. Na boca é persistente e muito suave no final.” Este Syrah tem uma graduação alcoólica de 14,5%.

Gamito, Herdade do Gamito, 100% Syrah, Alentejo, 2014
Este Gamito, com 3.333 garrafas lançadas no mercado, e não tendo no horizonte a garantia de continuidade, tem como enólogo residente Marcos Vieira e teve inicialmente Rui Reguinga como enólogo consultor. Actualmente o enólogo consultor é o bem conhecido António Ventura. As notas de prova dizem-nos que tem “cor Ruby, aroma intenso de fruta preta, com notas de café e chocolate. Paladar harmonioso, encorpado, taninos suaves e um final longo e elegante.” Tem uma graduação alcoólica de 13,5% embora no palato pareça ter os habituais 14% ou 14,5% dos Syrah alentejanos, tendo estagiado 12 meses em barrica.

Passo dos Terceiros, Sovibor, 100% Syrah, Alentejo, 2015
O nome deste Syrah, Passo dos Terceiros, deve-se à construção de 1755 contígua à adega da Sovibor que é a maior de um conjunto de quatro estações esculpidas em mármore branco, representando os Passos do Senhor a caminho do calvário.
As notas de prova dizem que é um “Syrah com cor rubi, aroma elegante e toques balsâmicos, com notas de frutos vermelhos maduros. Boca elegante e fresca, com belo volume, taninos sedosos, bem casados com a acidez que o vinho ostenta. Termina longo e com bom equilíbrio final.” Tem 15% de graduação alcoólica. O enólogo é o mestre António Ventura, artífice de muitos Syrah e que aqui atinge um dos seus pontos mais altos!

O Engenheiro António Ventura é um homem tremendamente ambientado ao vasto mundo dos vinhos e dos mais activos, tendo principal acção nas regiões do Alentejo, Lisboa e Tejo, onde presta serviços de consultadoria. Gere alguns milhares de hectares de vinha ao todo e é responsável por alguns milhões de garrafas exportadas para todo o Mundo! Natural do concelho do Cadaval, António Ventura descende de uma família de várias gerações de vitivinicultores. Possui formação em Indústrias Agro-Alimentares pela E.S.A.S – IPS e licenciatura em Agronomia na Universidade de Évora. Em 1983 concluiu, no Instituto de Viticultura e Horticultura de Geisenheim (Alemanha) uma especialização em Viticultura e Enologia. Em 1994 obtém, na Charles Sturt University (NSW-Austrália), o degree in Applied Science (Winemaking). No ano de 1995 frequentou e concluiu com aproveitamento uma pós-graduação em Enologia na Escola Superior de Biotecnologia (Universidade Católica Portuguesa). Desde o ano 2000, através da empresa Provintage (Winemaking Consulting Company), de que é fundador, é consultor de enologia em vários produtores e adegas nas regiões de Lisboa, Tejo e Alentejo, sendo responsável pela exportação de alguns milhões de garrafas de vinhos portugueses para todo o mundo. Desempenha funções de coordenador da Câmara de Provadores da Comissão Vitivinícola da Região de Lisboa desde Janeiro de 2012. Em novembro de 2012 foi eleito presidente da Associação Portuguesa de Enologia. Desde 1994 que é membro da Australian Society of Viticulture and Oenology.

Desde sempre que tem obtido vários prémios nacionais e internacionais com os vários vinhos de sua autoria, entre os quais os da Adega Cooperativa de Arruda dos Vinhos.
“Devemos marcar os melhores momentos da nossa vida com um bom vinho”, sentencia o engenheiro, que há 22 anos se dedica com paixão à enologia. Segundo António Ventura, há cinco características indispensáveis para exercer a profissão: intuição, ciência, criatividade, experiência e disponibilidade. “É um trabalho extremamente absorvente. Já me aconteceu estar na Austrália e ter de apanhar um avião para Moçambique porque tínhamos lá um projecto e as videiras estavam a dar problemas”, afirma, na Adega Cooperativa de Pombal, onde, em dia de férias, está a acompanhar um engarrafamento. De todas as qualidades pedidas ao enólogo, há duas que marcam a diferença, acredita o engenheiro. “Sem intuição e espírito criativo nunca será um grande profissional”, explica. “Se tudo correr bem farei 50 vindimas na minha vida. O que procuro todos os anos é fazer várias experiências, que às vezes resultam e outras vezes não. Mas quando resultam é uma alegria”.

António Filipe Lucas Ventura nasceu há 59 anos em Painho, Cadaval, licenciando-se em ciências agrárias em Santarém. Descendente de uma família com tradições na produção de vinho ao longo de gerações, fez a especialização em enologia na Alemanha e uma pós-graduação em vitivinicultura e na Austrália. Hoje trabalha com 25 casas em cinco regiões portuguesas, chegando a envolver-se em três meses de vindima por ano. A influência do enólogo é exaustiva e pede um estudo aprofundado. É ele que avalia o terreno para a vinha, decide movimentações de terras e drenagens, selecciona o porta-enxerto e as castas, indica o método de plantação e o grau de maturação das uvas, define a madeira e o tempo de estágio, elege o tipo de fermentação e determina o período de maceração, seguindo de perto todo o processo até ao engarrafamento. A actividade assenta em técnicas aprofundadas, mas qualquer profissional tem consciência das limitações do conhecimento livresco. “É um trabalho extremamente complexo. Nenhum de nós aprende tudo na universidade, só a experiência é que nos dá algum lastro”, reconhece António Ventura, citando um chavão do meio: “As castas e o ‘terroir’ (composição do terreno, clima e relevo) representam 75 por cento de um bom vinho, os restantes 25 por cento dependem da habilidade do enólogo”.

A evolução mundial do sector, com troca de informação, aperfeiçoamento das espécies e revisão das estratégias permite, todavia, que os ingredientes à disposição para atingir uma colheita de excelência sejam, actualmente, mais e melhores. “É perfeitamente possível plantar a casta ‘cabernet sauvignon’ em Portugal e ter melhor vinho do que em Bordéus (de onde é originária)”, exemplifica António Ventura. Para o enólogo do Cadaval, a viver na Nazaré, a vocação despertou em 1981, no estágio com Octávio Pato na Cooperativa da Vermelha. Hoje, o prazer de comentar cada garrafa com amigos é superior a bebê-la sozinho. E a necessidade de estar actualizado cada vez maior. “O mundo do vinho é como o da moda, as tendências mudam todos os anos”. “Conseguimos ser competitivos e estamos nos grandes mercados internacionais”, diz António Ventura sobre a criação vitivinícola portuguesa, sublinhando que têm aparecido “menções excelentes” provenientes de especialistas em todo o mundo. “A qualidade dos vinhos portugueses tem subido muito”, assegura o engenheiro, que tem a sua própria lista de preferências dentro de fronteiras.

Monte da Caçada, Casa Santos Lima, 100% Syrah, Alentejo, 2015

Apresentamos hoje a segunda colheita deste Syrah alentejano da Casa Santos Lima que, apesar de estar sediada em Alenquer e de ser o maior produtor de “Vinho Regional Lisboa” e “DOC Alenquer”, o que faz que seja o maior produtor de vinhos da região de Lisboa, também faz vinhos noutras zonas vinícolas!
Um pequeno colosso, diga-se em abono da verdade!
A Casa Santos Lima tem um outro Syrah bem mais antigo, este da região de Lisboa e que podemos encontrar no mercado a colheita de 2014!
Parabéns a esta Casa que tem neste momento as melhores colheitas de Syrah de sempre!
Este Monte da Caçada 2015 apresenta-se desde já como candidato a melhor Syrah do ano na relação qualidade/preço! E está melhor que a colheita de 2014 que foi apresentada aqui!

As notas de prova falam de um vinho “de cor rubi, bem definida, com intensos aromas a fruta madura como ameixas e frutos do bosque bem casados com suaves notas de carvalho. Combina na perfeição com comida e tem uma excelente capacidade de envelhecimento.” As uvas, previamente desengaçadas, passaram por uma maceração pré-fermentativa a baixas temperaturas durante 24 horas. A fermentação alcoólica foi feita em cubas de aço-inox com controlo de temperatura, não ultrapassando 27.ºC, durante 12 dias. Estágio de nove meses em barricas de carvalho francês e americano. Tem uma graduação alcoólica de 14,5%.

As propriedades da empresa pertencem à família Santos Lima há mais de um século sendo, desde há várias gerações, grandes produtores de vinho. No entanto, só em 1996, quando José Luís Santos Lima Oliveira da Silva abandona a sua carreira de mais de 20 anos no sector financeiro, teve início o engarrafamento e comercialização dos seus vinhos.
A Casa Santos Lima é uma empresa familiar, fundada por Joaquim Santos Lima, que, no final do século XIX, era já um grande produtor e exportador de vinhos. Maria João Santos Lima e José Luís Santos Lima Oliveira da Silva, neta e bisneto do fundador, gerem a empresa desde 1990, tendo procedido à replantação de grande parte das vinhas e modernizado toda a infra-estrutura produtiva. As vinhas distribuem-se por várias Quintas contíguas, com destaque para a Quinta da Boavista, Quinta das Setencostas, Quinta de Bons-Ventos, Quinta da Espiga, Quinta das Amoras, Quinta do Vale Perdido, Quinta do Figo e Quinta do Espírito Santo, que cobrem uma área total de aproximadamente 390 hectares.
As propriedades da Casa Santos Lima estão situadas no concelho de Alenquer, 45 km a norte de Lisboa, numa região onde a tradição vitivinícola é secular e as típicas paisagens rurais aparecem com enorme beleza. As vinhas estendem-se por encostas suaves em altitudes compreendidas entre 100 e 220 m, com excelente exposição solar e um clima temperado pela suave brisa marítima do oceano Atlântico, que se encontra a cerca de 26 km para oeste.

O tipo de solo predominante é o argilo-calcário, do período do Jurássico Superior, tendo sido encontrados numerosos exemplos de fósseis de vida marinha. A replantação da vinha tem sido feita a um ritmo regular desde 1990, com as mais nobres castas Portuguesas, que aqui apresentam um carácter regional único e também, em menor escala, com as melhores castas internacionais. É possível encontrar na Casa Santos Lima cerca de 50 variedades de castas diferentes (algumas com carácter experimental).

Uma célebre frase refere que:
Degustar às cegas é uma lição de humildade.
Neste caso específico do Syrah 2015 Monte da Caçada, a humildade não é necessária!
É sempre muito bom!

 

Classificação: 18/20                                                                     Preço: 7,90€

Bombeira do Guadiana, Herdade da Bombeira, 100% Syrah, Alentejo, 2015

Apresentamos hoje a colheita de 2015 do Syrah Alentejano produzido mais a sul que conhecemos. De Mértola, Bombeira do Guadiana de seu nome.
Um Syrah de peso, já desde a colheita anterior!

O enólogo é Bernardo Cabral como é habitual, e foram produzidas cerca de 3500 garrafas por hectare, havendo 3,5 hectares de Syrah na Herdade da Bombeira. Tem uma graduação alcoólica de 14,5%. As notas de prova que escolhemos falam de um Syrah “especiado e bem maduro, algum chocolate, fruto intenso, boca com volume algum calor num final longo e picante. Um tinto com franqueza e generosidade de formas. Taninos sedosos e redondos, termina prolongado e medianamente persistente.” As uvas são colhidas de acordo com o seu estado de maturação. O desengace é total e a fermentação ocorre em lagares inox com controlo de temperatura, onde a pisa é feita por robot. A fermentação maloláctica e estágio é em barricas de carvalho francêse americano novas e de 2ª utilização durante 10 meses.

Um grupo de amigos, amantes da natureza, os proprietários da Herdade da Bombeira, entenderam em 1999 plantar 18 hectares de castas tintas, numa zona com solos privilegiados, onde logo se adivinhou um terroir de altíssimo potencial.
Em 2000 conclui-se a plantação, em 2003 produziu-se os primeiros vinhos, em 2005 o primeiro rosé, entre 2009 a 2011 é concluída a plantação de 3,5 hectares de uva branca e em 2012 é produzido o primeiro vinho branco. Numa procura constante de conhecer e compreender o potencial produtivo do terroir, pretende-se fazer evoluir os vinhos . O projecto tem tido o seu sucesso devido ao interesse constante dos clientes pelos vinhos da Herdade da Bombeira, que se situa no Concelho de Mértola, na margem direita do Rio Guadiana, a 3 quilómetros a sul dessa linda vila alentejana, estendendo-se ao longo de 2 quilómetros da sua margem.

A Herdade da Bombeira com os seus 700 hectares, possui uma várzea ao longo do rio com cerca de 20 hectares onde os solos de características xistosas se misturam com os aluviões do Rio Guadiana proporcionando as condições ideais para a implantação da Vinha. O Clima desta zona não sendo continental também não é de características marítimas. O mar fica a 50 quilómetros a Sul e a 100 quilómetros a Oeste mas a proximidade da Serra do Caldeirão e do Rio Guadiana tornam o clima mais ameno do que na generalidade das terras vinícolas do Alentejo. A influência do rio Guadiana é fundamental provocando um microclima que influencia a humidade relativa. Evita as geadas, faculta uma água com qualidade ímpar devido à corrente ecológica com origem na barragem do Alqueva.
As castas inicialmente escolhidas foram as alentejanas: Trincadeira e Aragonês, com cerca de 6 hectares cada e as internacionais: Cabernet Sauvignon e Syrah com cerca de 3,5 hectares cada. A plantação da vinha ocorreu nos anos 98 e 99 tendo sido vendidas no mercado as primeiras produções de uva. Após análise do comportamento das castas na zona e a conselho do enólogo residente Bernardo Cabral, decidiu-se em 2002 substituir, e muito bem na opinião do Blogue do Syrah, cerca de 2,5 hectares de casta Aragonês por Syrah, e em 2006 o restante por Alicante Bouchet cerca de 3,5 hectares.

Fernando Pessoa, nas Canções de Beber, escreve o seguinte:
“Ao gozo segue a dor, e o gozo a esta.
Ora o Syrah bebemos porque é festa,
Ora o Syrah bebemos porque há dor.
Mas de um e de outro Syrah nada resta”.
Com este Syrah da Herdade da Bombeira de 2015 gozo não falta.
Dor, só mesmo quando a garrafa chega ao fim!

 

Classificação: 18/20                                                            Preço: 15,50€

Passo dos Terceiros, Sovibor, 100% Syrah, Alentejo, 2015

Eis o nosso mais recente Syrah a ser degustado, do Alto Alentejo, mais precisamente de Borba e do ano de 2015!
Ao primeiro contacto na boca há logo uma explosão de aromas a frutos vermelhos. Muito abrangente, taninos bem dominados, acidez q.b., este é um Syrah que a ter continuidade poderá vir a fazer história!
Uma grande capacidade de evolução é outra marca saliente deste Syrah! Trata-se da primeira colheita da Sovibor, Sociedade de Vinhos de Borba, que este ano faz cinquenta anos de vida e está completamente renovada. Ficámos com essa ideia logo após a conversa tida com o seu director de exportação, José Carneiro Pinto. Foram feitas cerca de três mil e quinhentas garrafas que tendo em conta a qualidade e o preço apresentado não vaticinamos uma estadia longa no mercado. Este Syrah está vocacionado apenas para garrafeiras! O nome deste Syrah, Passo dos Terceiros, deve-se à construção de 1755 contígua à adega da Sovibor que é a maior de um conjunto de quatro estações esculpidas em mármore branco, representando os Passos do Senhor a caminho do calvário.

As notas de prova dizem que é um “Syrah com cor rubi, aroma elegante e toques balsâmicos, com notas de frutos vermelhos maduros. Boca elegante e fresca, com belo volume, taninos sedosos, bem casados com a acidez que o vinho ostenta. Termina longo e com bom equilíbrio final.” Tem 15% de graduação alcoólica. O enólogo é o mestre António Ventura, artífice de muitos Syrah e que aqui atinge um dos seus pontos mais altos!

Falemos agora da empresa que está por detrás deste Syrah. A Sovibor, Sociedade de Vinhos de Borba, Lda. é uma Sociedade Comercial por Quotas constituída por escritura pública, a 16 de Dezembro de 1968. Resulta da fusão de dois pequenos produtores que muitos anos antes de 1968 iniciaram as respectivas actividades e mais tarde criaram as firmas Manuel Joaquim Mira e Domingos Luiz Pinto & Filho, Lda., ambas com largas tradições no campo vinícola. Por isso, e em consequência de tal fusão a SOVIBOR é gerida por pessoas tradicionalmente ligadas à actividade vitivinícola. Embora esteja equipada com a mais moderna tecnologia com vista à produção de vinhos de qualidade, esta empresa dispõe ainda de uma antiga e bonita adega de envelhecimento, com cerca de três mil hectolitros em tonéis de madeira. A Sovibor empresa histórica do Alentejo que comemora, já em 2018, o seu 50º aniversário, quer terminar o ano com as exportações a valeram já 20 a 25% das suas vendas. A empresa, propriedade do grupo Sousa Tavares, SGPS, que detém, entre outras, a distribuidora Sotavinhos e a produtora vinícola Quinta do Progresso, fechou 2016 com uma faturação inferior a 1,5 milhões de euros, valor que pretende duplicar até 2021. Adquirida em Dezembro de 2014, a Sovibor passou a contar com uma nova administração, liderada por Fernando Tavares, e com uma nova equipa de enologia, a cargo de António Ventura, em coordenação com Rafael Neuparth e Rita Tavares. A aposta passa por reposicionar todos os vinhos num patamar superior de qualidade e de preço.

A beneficiação das infraestruturas, com o restauro dos edifícios, e a renovação da linha de engarrafamento, totalmente automatizada, foi recentemente concluída, um processo em que a Sovibor investiu mais de meio milhão de euros. Estão, ainda, previstos novos investimentos com vista à ampliação do armazém de produto acabado e de matérias-primas. A par da recuperação da adega, cave de tonéis e sala de talhas, a Sovibor aposta num novo patamar de qualidade superior e no relançamento dos vinhos com a velha identidade local.

Fernando Pessoa, simultaneamente grande poeta e bebedor de Syrah, bastas vezes apanhado em flagrante de litro, escreveu o célebre “Canções de Beber” onde é dito:
“Sabei, meus amigos, que desde que em meu lar
Um novo casamento contraí com alegria:
Apartei a razão árida e velha de meu leito,
Para a filha da vinha desposar.”
O Passo dos Terceiros 2015 é bem um daqueles Syrah que vale a pena desposar, sem pensar em mais razões!

 

Classificação: 18/20                                                                        Preço: 9,95€

Quinta de S. João, Pinhal da Torre, 100% Syrah, Tejo, 2008

Hoje apresentamos uma revisitação a este Syrah, pois está cada vez melhor.
A empresa de vinhos Pinhal da Torre, situada em Alpiarça, em plena região do Tejo, produz Syrah desde o início do século!
O Syrah que produziu ao longo de todo este tempo já teve três designações. Inicialmente chamava-se Quinta do Alqueve, para de seguida passar para o designativo de Quinta de São João e finalmente chamar-se Pinhal da Torre!
Hoje vamos falar do Syrah de 2008 da Quinta de São João. Aqui foi apresentado o Syrah do ano de 2007!

O Syrah da Quinta de S. João “apresenta uma cor granada, fruta ligeiramente mentolada, baunilha, cacau tostado, especiarias, tenso e complexo, muito afinado com taninos redondos, boa acidez e macio, encorpado e final longo.” O vinho é vinificado pelo processo tradicional de curtimenta, com ligeira maceração, tendo estagiado em barricas de carvalho francês, não tendo sido filtrado.O teor de álcool é de 14,5% . Este Syrah, com dez anos de idade, apresenta ainda uma capacidade enorme de evolução. O produtor fala num total de quinze anos. Acreditamos que pode ser bem mais!

A Quinta de São João tem uma área de 22 hectares dos quais 19 são de vinha. Nela ficam localizados os escritórios, a Adega, onde são produzidos todos os vinhos, e a sala de barricas, inaugurada em 1947. A Quinta do Alqueve tem uma área de 36 hectares de vinha e um Chalet do início do século passado, que actualmente se encontra em reconstrução.
Nestas quintas estão plantadas as seguintes castas: Castas Brancas – Fernão Pires, Chardonnay, Arinto e Viognier, Castas Tintas – Touriga Nacional, Tinta Roriz, Trincadeira, Castelão, Cabernet Sauvignon, Merlot, Touriga Franca, Alicante Bouschet, Tinta Francisca, Souzão e naturalmente o nosso Syrah.

Desde a selecção das uvas, na vinha e na adega, e do método de vindima, que é totalmente manual, à poda em verde ou a hora da colheita das uvas, que ocorre somente nas horas mais amenas, para evitar que o calor afecte a qualidade das fermentações, todo o processo de produção é meticulosamente respeitado para poder proporcionar vinhos com sabor diferenciado e qualidade elevada. A adega dispõe de 4 lagares para pisa a pé, 7 cubas, tipo argelinas, únicas em Portugal pela sua arquitectura, cubas de fermentação para tintos e para brancos, todas com controlo de temperatura, duas salas para estágio em barricas e duas para estágio de garrafas, assim como uma linha de engarrafamento, rotulagem e embalagem. Possui, ainda, um pequeno Museu Rural, alusivo ao vinho e à vinha, e uma sala de provas. Toda esta infra-estrutura assenta numa área de 4000m2.

A escritora francesa Sidonie Colette escreveu:
“Convém tratar a amizade como os vinhos, desconfiando das misturas.”
Este Syrah a 100% não tem misturas e está cada vez mais espectacular!

 

Classificação: 19/20                                                      Preço: 9,90€

Scala Coeli, Adega da Cartuxa, 100% Syrah, Alentejo, 2006

Há mais de três anos apresentamos o Scala Coeli de 2010. Hoje apresentamos a outra colheita deste Syrah fantástico, que é de 2006, apesar de o termos degustado há já bastante tempo.
Hoje chegou a possibilidade de o apresentar.
Vamos então a ele!

Scala Coeli é o nome deste Syrah que em latim significa “escada para o céu”. Syrah que deve o seu nome ao Mosteiro de Santa Maria Scala Coeli, mais conhecido por Mosteiro da Cartuxa, local onde os monges Cartuxos permanecem em silêncio e oração. Produzido a partir das melhores vinificações do ano, foi produzido pela primeira vez em 2005.
Chegando ao que mais nos interessa, o Syrah Scala Coeli de 2006 tem 14,5% de graduação alcoólica e por detrás deste néctar está Pedro Baptista, o enólogo premiado da Fundação, reconhecido pela qualidade e solidez dos vinhos que assina. Diz a ficha técnica que “As uvas passaram por um processo de maceração pré-fermentativa a frio, seguida de fermentação alcoólica à temperatura de 28ºC e de maceração prolongada. Período de encuba total de quarenta dias e estágio de quinze meses em barricas novas de carvalho francês. De cor granada, apresenta um aroma intenso e elegante. Na boca apresenta uma excelente estrutura com taninos suaves, boa acidez, terminando com ampla sensação de volume.”

Mas vamos então contar um pouco de história, e de cultura, que se impõe para percebermos como nasce este grande Syrah. E como está carregado de história!
Começamos pela Fundação Eugénio de Almeida, que é herdeira de uma longa tradição no sector vitivinícola, com a vinha a fazer parte da tradição produtiva da Casa Agrícola Eugénio de Almeida desde o final do Séc. XIX. As uvas, que atualmente resultam da produção obtida em 600 hectares de vinha, são vinificadas na moderna e sofisticada Adega Cartuxa – Monte Pinheiros, herdade que outrora foi centro de lavoura da Fundação Eugénio de Almeida. A Adega Cartuxa – Quinta Valbom, antigo posto Jesuíta, onde já em 1776 funcionava um importante lagar de vinho, é desde 2007 o centro de estágio de vinhos e sede do Enoturismo Cartuxa.

A Fundação Eugénio de Almeida é uma instituição de direito privado e utilidade pública, sediada em Évora. Os seus estatutos foram redigidos pelo próprio fundador, o Eng. Vasco Maria Eugénio de Almeida, Conde de Villalva, quando da sua criação em 1963. A missão institucional da Fundação concretiza-se nos domínios cultural, educativo, assistencial, social e religioso. A produção obtida nas vinhas é vinificada num local histórico e sagrado, a Adega da Cartuxa, situada na Quinta de Valbom, em Évora. A adega está instalada num edifício que pertenceu à Companhia de Jesus em 1580 e que na época era a sua casa de repouso. Com a expulsão dos jesuítas de Portugal pelo Marquês de Pombal, este edifício foi integrado aos Bens Nacionais em 1755. No ano seguinte, já funcionava no local um importante lagar de vinho que absorvia a produção vinícola da região. Em 1869 o edifício foi vendido em hasta pública e adquirido por José Maria Eugénio de Almeida, avô do Eng. Vasco Maria Eugénio de Almeida. Próximo à Adega da Cartuxa, fica o bonito Mosteiro da Cartuxa de Santa Maria Scala Coeli, fundado em 1587 e que retomou em 1960 a actividade religiosa contemplativa, depois de vultosas obras de restauro empreendidas pelo Conde de Villalva. No silêncio das caves deste Mosteiro, vários vinhos da Fundação fazem o seu estágio em garrafa.

Sempre com a preocupação do enquadramento arquitectónico num edifício muito rico em história, a Adega da Cartuxa passou por várias reformas e ampliações nos últimos anos. Hoje é uma das mais modernas e bem equipadas do Alentejo, toda ela cercada por vinhas e com uma loja de vinhos cujos preços são 30% a 40% mais baratos que nas garrafeiras.
A Adega da Cartuxa, na Quinta de Valbom, está intimamente ligada à Companhia de Jesus. Fundada por Santo Inácio de Loiola em 1540, a Ordem tinha uma vocação missionária ligada ao ensino, tendo sido justamente nessa vertente que mais se destacou a sua presença em Évora, primeiro com a criação do Colégio Espírito Santo por volta de 1551 e, posteriormente, com a criação da Universidade, em 1559. No ano de 1580 o padre jesuíta Pedro Silva, reitor da Universidade, quis adquirir a Quinta de Valbom para aí alojar o corpo docente da Universidade. A construção do que viria assim a ser a Casa de Repouso dos Jesuítas demorou cerca de 10 anos e resultou num edifício com múltiplos alojamentos, refeitório e capela. Em 1759, com a expulsão da Companhia de Jesus do país pelo Marquês de Pombal, a Quinta, com a sua edificação, passou a integrar os bens do Estado tendo, alguns anos mais tarde (1776), e pela primeira vez, foi equipada com um lagar de vinho que rapidamente ganhou importância na região. A proximidade do Convento da Cartuxa, erigido em meados do séc. XVI, determinou a designação por que ficou conhecida até aos dias de hoje: Adega Cartuxa. Em 1869 o bisavô do instituidor, José Maria Eugénio de Almeida, adquiriu a Quinta, colocada à venda no contexto do longo processo de aplicação das políticas liberais de Mouzinho da Silveira com a nacionalização dos bens da Igreja e da Coroa e a sua posterior venda a particulares. Depois da sua morte viria a ser o seu filho, Carlos Maria Eugénio de Almeida, avô do fundador, a empenhar-se na continuidade e expansão da produção da Casa Agrícola Eugénio de Almeida. Foi da sua iniciativa a plantação dos vinhedos que constituíram a origem mais remota dos vinhos da Fundação. Com a expansão e sucesso progressivos da produção vitivinícola da Instituição, a Adega da Cartuxa, instalada no antigo refeitório da Casa de Repouso dos jesuítas foi sendo alvo de melhoramentos. Desses, destaca-se a grande reestruturação que ocorreu entre 1993 e 1995, e que permitiu o reequipamento e ampliação de todos os sectores da adega aumentando-se de forma considerável o seu potencial de vinificação e a sua capacidade de armazenagem.

A nova Adega Cartuxa, situada na Herdade de Pinheiros, permite receber a totalidade da uva produzida nas vinhas da Fundação, e tem na sua génese três premissas tecnológicas que a distingue das demais: efectiva capacidade de refrigeração, possibilidade de triagem na totalidade da uva à entrada na adega e movimentação e transferência de massas unicamente por gravidade. Da linha de engarrafamento totalmente automatizada instalada na Adega Cartuxa saem anualmente cerca de quatro milhões de garrafas, distribuídas por vinho branco, rosé e tinto das marcas Vínea, EA, Foral de Évora, Cartuxa, Scala Coeli e o mítico Pêra-Manca. É na excelência da matéria prima que assenta toda a produção vinícola da Fundação.

Fernando Pessoa escreveu:
“Dá-me mais Syrah, porque a vida é nada!”
Dá-nos mais Scala Coeli, Pedro Baptista, pode ser de 2015, dizemos nós!

 

Classificação: 18/20                                                      Preço: 55,00€