Movimento da Temperança

Hoje a chalaça é falar de um recorrente movimento contra o consumo de álcool dentro de um blogue que só fala de consumo de uma bebida alcoólica. Vamos a isso!

Este dito Movimento da Temperança nasceu no início do Século XIX, por entre médicos, lideres religiosos e empresários nos Estados Unidos, e mais algumas ligas puritanas, advogando que consumir bebidas espirituosas afectava a saúde mental conduzindo ao vício, e vícios não são coisa boa. Foi nesta sequência de pensamento que nasceu no principio do Século XX a famosa Lei Seca, conduzindo ao aumento clandestino do consumo de álcool e aumento da criminalidade relacionada com a proibição. O extremismo foi tal que chegaram mesmo a alterar a Bíblia eliminando a referências a álcool. Portanto na Ultima Ceia bebeu-se sumo de uva e não vinho! O movimento difundiu-se por entre os países anglo-americanos, chegando à Nova Zelândia em plena força.

O extremo da temperança era a abstémia, ausência total de consumo alcoólico. Todas as religiões cristãs no ocidente armaram em bandeira a favor do movimento. Claro, tudo isto foi abraçado com paixão na era vitoriana, em Inglaterra, pródiga em falsos moralismos. Houve movimentos para acabar com bares e cervejarias, manifestações e marchas para influenciar as pessoas a acabarem com todos os licores e vinho. Neste período, houve alguns locais que tiveram sucesso quase completo em restringir ou proibir a venda de álcool em muitas partes dos Estados Unidos e no Reino Unido. Em 1864, o Exército de Salvação foi fundado, em Londres, com uma forte ênfase na abstinência de álcool e que rapidamente se espalhou internacionalmente, mantendo a toada na abstinência. Os grupos abstémios são mais que muitos, a Woman’s Christian Temperance Union, a Pioneer Total Abstinence Association foi formada por James Cullen, um católico irlandês, a Anti-Saloon League, etc.

O movimento ganhou ainda mais adeptos durante a Primeira Guerra Mundial, com a imposição das fortes restrições sobre a venda de álcool em muitos países combatentes, a fim de preservar recursos para uso guerra. No Reino Unido, o governo Liberal aprovou a Defence of the Realm, lei de 1914, com a cerveja sendo diluída e taxada acima da média. Por esta altura até os países nórdicos tentaram proibir a venda de álcool. O movimento de temperança começou a diminuir a partir dos anos 30 do Séc. XX. A famosa Lei Seca foi finalmente abolida nos Estados Unidos em 5 de Dezembro de 1933.

O movimento de temperança ainda existe em muitas partes do mundo, embora seja geralmente menos politicamente influente do que era no passado. Actualmente, o Straight Edge advoga a moderação no consumo de bebidas alcoólicas, estendendo o conceito ao consumo de drogas e tabaco.

Nós aqui no Blogue do Syrah defendemos que Syrah é saúde, é paixão, é amor, é terapia, é cultura, é convívio, e não pode ser excesso… aí sim é temperança, no sentido socrático do termo.
O nosso lema é, parafraseando o grande Zappa: “Syrah is the best“!


 

Coisas de Vinho – O Vinho no Verão

Coisas de vinho encerra a o ano de actividades na rua – o tema é o vinho no verão.

A oradora é Maria João Cabrita, docente na Universidade de Évora; os vinhos à prova são da Adega Cooperativa da Vidigueira e são apresentados por Luís Leão.

Na Mercearia do Largo, Largo Álvaro Velho (em frente à Pousada da Juventude – antigo hotel Planície), Sexta-feira, dia 16, 18:00.

Venha celebrar o Vinho, o Syrah e o Verão e prove o calor alentejano num copo, partilhe e traga amigos.


 

Crasto Superior Syrah, Quinta do Crasto, 97% Syrah, 3% Viognier, Douro, 2013

Em Outubro de 2015 fizemos a análise deste Syrah de 2013, que muito nos entusiasmou!
A seguir veio o Crasto Superior Syrah de 2014, e em Janeiro de 2017 também fizemos a sua análise!

Só que entretanto surgiu a prova cega entre os Syrah portugueses e os Syrah franceses, em que o Crasto Superior Syrah 2013 ficou brilhantemente em quinto lugar. Na altura foi para o Blogue do Syrah o melhor Syrah de todos os que estiveram em prova! No conjunto dos vinte Syrah ter ficado em quinto mostra bem do valor que os jurados reconheceram neste Syrah apesar de não ter sido suficiente para ganhar o primeiro lugar como nós pensávamos que merecia. Foi aliás a melhor nota que atribuímos em prova dando-lhe a nota máxima de 20 valores, por isso aqui estamos de novo a dar-lhe o devido e merecido destaque!

Como o próprio nome sugere, o Crasto Superior Syrah é feito com uvas provenientes da região do Douro Superior, mais precisamente da Quinta da Cabreira, localizada junto a Castelo Melhor e onde se encontram plantadas 114 hectares de vinha. Trata-se de um Syrah com 3% de Viognier, opção do enólogo, que respeitamos mas como sempre preferimos os 100%, em que as uvas provenientes das plantações experimentais da casta Syrah estabelecidas em 2004 na Quinta da Cabreira, foram transportadas em caixas de plástico alimentar e sujeitas a uma rigorosa triagem à entrada na adega. Após um desengace total e um ligeiro esmagamento, as uvas foram transferidas para cubas de aço inox, onde decorreu uma maceração pré-fermentativa a baixas temperaturas durante 5 dias. De seguida desenrolou-se a fermentação alcoólica por um período de 7 dias, que foi seguida de uma prensagem muito suave e fermentação malolática em barrica de carvalho francês.

O solo é de xisto e a idade das vinhas é de 10 anos. O Syrah tem uma graduação alcoólica de 14%. A data de engarrafamento é de Maio do presente ano e o envelhecimento fez-se em barricas de carvalho francês durante 16 meses.
As notas de prova que escolhemos dizem-nos que tem uma “cor violeta escuro. No nariz mostra uma excelente projecção aromática, onde se destacam complexas notas de frutos silvestres, em perfeita harmonia com notas de cacau fresco. Na boca tem um início cativante, evoluindo para um vinho compacto, de grande volume e estrutura, composto por taninos frescos de textura aveludada e correcta acidez. Tudo muito bem integrado com agradáveis notas de frutos silvestres e suaves sensações florais. Termina equilibrado, fresco e com excelente persistência.” O enólogo, que merece desde já os nossos parabéns, é Manuel Lobo.

E estamos tão encantados com a prestação deste Syrah na prova cega que até nos apetece cantar com Neil Diamond a música “Red Red Wine”, com a devida adaptação:
Red, red Syrah
Stay close to me
Don’t let me be alone
It’s tearin’ apart
My blue, blue heart
Se conseguirem encontrar alguma garrafa não hesitem e esperamos que o Crasto Superior Syrah de 2014 siga os mesmos passos que o seu irmão do ano anterior!

 

Classificação: 20/20                                       Preço: 22,00€


 

Por que é o Syrah melhor do que o Cabernet?

Nada do que é dito hoje aqui é novidade para o Blogue do Syrah!
Aliás, andamos a dizê-lo, por estas ou outras palavras, há já uns valentes anos!
Isto é válido quer para as castas internacionais mencionadas no texto quer para as castas nacionais!

Este texto é dedicado a todos os enófilos que ainda não conseguiram enxergar o óbvio!
Um obrigado muito especial ao Eugénio Couto que fez o favor de chamar a nossa atenção para este texto da Wine Enthusiast, escrito por Joe Czerwinski e por nós traduzido e adaptado, mantendo o espírito original.

Embora mais populares, castas como Cabernet Sauvignon, por exemplo, muitas vezes oferecem menos do que outras, estamos a falar de Syrah, que é a que nos interessa.
Não há muito tempo atrás, era geralmente difícil vender Syrah. Isto ainda pode ser verdade desde o ponto de vista comercial: a casta Syrah nunca captou grandes números no mercado dos monocasta, sendo ultrapassada pelas Cabernet Sauvignon, Merlot, Pinot Noir, por margens substanciais. Mas olhando o consumidor de vinho, a Syrah é muitas vezes a melhor escolha, oferecendo mais variedade e valor do que Cabernet Sauvignon. Para quem começa, é mais fácil ter logo um produto de primeira qualidade, pois a casta Syrah cresce em terrenos onde as outras não o conseguiriam com qualidade, oferecendo aqueles toques a cereja, especiarias, pimenta, tão querido aos apreciadores. Da mesma forma, em climas quentes, como o nosso Alentejo, onde o Cabernet perde sua fragrância delicada, a casta Syrah é capaz de manter um grau de elegância, mesmo apesar do calor. Do ponto de vista do consumidor de vinho, a Syrah é muitas vezes a melhor escolha, oferecendo mais variedade e valor do que o Cabernet.

Portanto a fama Cabernet Sauvignon significa que esses vinhos são geralmente mais caros do que os seus colegas Syrah. Em França, logo a partir do século XIX, o Syrah do Rhône foi usado para melhorar os vinhos Bordeaux baseados em Cabernet. Os Bordéus assim tratados eram chamados de “Hermitados”, e vendido por preços mais altos do que os Bordeaux não adulterado. Em termos históricos, os consumidores têm a chance de comprar vinhos à base de Syrah com um desconto relativo.

Eis algumas opiniões de palato, comuns entre os apreciadores de Syrah, todos retirados de Syrah que custam menos de 20 euros (tente encontrar Cabernets dentro destes preços com tais qualificativos): Aromas complexos e sabores de frutas densas, iluminados por acidez rápida. Apimentado, forte em frutos vermelhos, envolvidos numa textura atraente.De corpo cheio e ricamente texturizado, com frutas arrojadas. Um copo concentrado e estruturado de sabores, bondade. Ervas e especiarias em camadas, mirtilos de textura sedosa e cerejas negras. Amoras maduras, tempero herbal equilibrado por amplo corpo e ácidos nítidos.

E com isto nos vamos por hoje!


 

Casal das Freiras, Agrovalente, 100% Syrah, Tejo, 2015

E é do Tejo que surge o mais novíssimo Syrah português!
Distrito de Santarém, concelho de Tomar, freguesia da Madalena.
Eis perante nós o Casal das Freiras 2015.
Como primeira colheita, um Syrah bastante interessante e a seguir com redobrada atenção!

Com uma secular tradição vitivinícola e em terras que outrora foram da Ordem de Cristo, encontra-se a Quinta do Casal das Freiras. As suas vinhas estão implantadas em solos argilo-calcários de declive suave e ondulado com exposição a sul, predominando as castas nacionais. Vinificadas por métodos tradicionais, estas uvas dão origem a um vinho taninoso, encorpado e aromático. Com origem em antigo foro da Ordem de Cristo (século XV) é propriedade da família desde o século XIX. Com 180 Hectares esta Quinta inclui ainda searas, olival e floresta além dos 16 hectares dedicados à vinha.

Priveligiando a singularidade, este vinho monovarietal foi elaborado com uma selecção das melhores uvas da casta Syrah, onde sobressaem as notas dominantes que a caracterizam: “os aromas de fruta preta, como os mirtilos, ameixas e amoras, conjugados com o distintivo paladar do chocolate e leves notas de especiarias associadas à pimenta preta. Resulta um vinho encorpado, de cor granada, com bom equilíbrio de acidez e taninos suaves, realçados num final expressivo e prolongado”. Tem 13,5% de graduação alcoólica.
O proprietário e produtor é o simpático José Vidal, e a enologia está a cargo da
Teresa Nicolau. Mais uma senhora a dar-nos Syrah, sempre aquele sentimento de estar em presença de uma outra sensibilidade que não a masculina!

O poeta persa dos séculos XI e XII Omar Khayyan no seu poema Rubaiyat, essa longa ode ao Syrah, diz o seguinte:
Só ele te dará a mocidade, ele é a vida eterna.
Bebe um pouco de Syrah porque dormirás muito tempo,
debaixo da terra, sem amigo, sem camarada, sem mulher.
Nosso amigo mais velho é o Syrah mais novo.
O Casal das Freiras 2015 é um Syrah que se bebe com prazer e que tem uma relação qualidade/preço muito considerável!

 

Classificação: 16/20                                                    Preço: 4,75€


 

Tágide, Quinta da Barreira, 100% Syrah, Lisboa, 2015

As tágides são ninfas do rio Tejo a quem Camões pede inspiração para compor a sua obra Os Lusíadas.

E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mi um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mi vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloco e corrente,
Por que de vossas águas Febo ordene
Que não tenham enveja às de Hipocrene.

São uma adaptação das Nereidas da mitologia greco-romana, as ninfas que vivem nos mares e nos rios. Estas habitam no rio Tejo, que desagua em Lisboa. A palavra foi criada por André de Resende, numa anotação ao seu poema Vicentius de 1545. O poema sobre a morte de D. Beatriz de Sabóia, em que André de Resende teria usado pela primeira vez o vocábulo Tágides, perdeu-se ou desconhece-se o seu paradeiro.

E agora, Tágide é também nome de Syrah, para nosso gáudio humildemente celebrado, e é produzido na Quinta da Barreira, situada no concelho de Torres Vedras. Possui uma área de vinha com cerca de 4ha, sendo nos arredores da Quinta que o produtor adquire o precioso fruto para a elaboração dos seus vinhos. José Gaspar é o proprietário da quinta e foi em tempos professor de Viticultura no Instituto Superior de Agronomia. Logo achou por bem, e nós apoiamos, produzir este monocasta Syrah que sai com o ano de 2015!

Situada num vale, a Quinta da Barreira tem uma adega tradicional edificada no final do século XIX. Nessa altura estava repleta de toneis de madeira, onde eram estagiados os vinhos nela produzidos. No decorrer dos anos 50 os toneis de madeira deram lugar aos depósitos de cimento, que ainda hoje são utilizados. Foi em 1954 que a quinta passou a pertencer à família dos actuais proprietários, data a partir da qual se começaram a engarrafar alguns dos vinhos que ainda hoje fazem parte do portefólio da quinta.

Este Tágide Syrah tem, segundo as indicações do produtor, um “aroma complexo e intenso, ressaltando a fruta que o originou. Com cor rubi com prova harmoniosa e bem balanceada entre o corpo e a estrutura.” Tem 13,5% de graduação alcoólica. O enólogo é o próprio produtor, José Gaspar.

A nossa citação para hoje é do humorista Luís Fernando Veríssimo:
“ Beba Syrah para o espírito e para a boa digestão. Beba Syrah na festa e beba Syrah na solidão. Beba Syrah por cultura ou por educação. Beba Syrah porque… Bem, você encontrará uma razão.”

 

Classificação: 16/20                                           Preço: 2,54€