Bernardo Cabral, o outro enólogo do Syrah do Baixo Alentejo

Desde a segunda metade dos anos 90 que se produz Syrah em Portugal. O Blogue do Syrah tem feito o seu papel na divulgação desse percurso por terras lusas. Já dissemos várias vezes que em Portugal se produz algum do melhor Syrah do mundo! Como o Syrah é feito por pessoas, é natural que o Blogue do Syrah fale de quem colocou o Syrah português nas bocas do mundo, já que são eles os principais responsáveis pelo aparecimento deste espaço de apresentação, apreciação, devoção e divulgação.

Na sequência de artigos anteriores sobre os enólogos que fazem Syrah em Portugal, trazemos hoje à ribalta Bernardo Cabral, que tem no seu currículo dois Syrah, cada um com várias colheitas, apesar do segundo ter sido descontinuado.

Aqui vão eles, ambos de peso, como se pode ver pelas classificações atribuídas:


Bombeira do Guadiana, Herdade da Bombeira, 100% Syrah, Alentejo
Classificação: 17/20


Santa Vitória, Casa de Santa Vitória, 100% Syrah, Alentejo
Classificação: 18/20

Vejamos cada um em pormenor.


Bombeira do Guadiana, Herdade da Bombeira, 100% Syrah, Alentejo

As castas inicialmente escolhidas foram as alentejanas: Trincadeira e Aragonês, com cerca de 6 hectares cada e as internacionais: Cabernet Sauvignon e Syrah com cerca de 3,5 hectares cada. A plantação da vinha ocorreu nos anos 98 e 99 tendo sido vendidas no mercado as primeiras produções de uva. Após análise do comportamento das castas na zona e a conselho do enólogo residente Bernardo Cabral, decidiu-se em 2002 substituir, e muito bem na opinião do Blogue do Syrah, cerca de 2,5 hectares de casta Aragonês por Syrah, e em 2006 o restante por Alicante Bouchet cerca de 3,5 hectares.
Sobre exactamente o que nos traz aqui hoje, as notas de prova falam de um Syrah “especiado e bem maduro, algum chocolate, fruto intenso, boca com volume algum calor num final longo e picante. Um tinto com franqueza e generosidade de formas. Taninos sedosos e redondos, termina prolongado e medianamente persistente.”
Tem uma graduação alcoólica de 14,5%.


Santa Vitória, Casa de Santa Vitória, 100% Syrah, Alentejo

O Santa Vitória Syrah é de safra única, com uma tiragem de 3300 garrafas, e tem graduação alcoólica de 15%. Estagiou durante 14 meses em barricas de carvalho francês e foi engarrafado sem filtração. As notas de prova apontam “aromas frutados, notas de ameixas pretas, cassis, chocolate preto e especiarias.”
Numa área total de vinha de cerca de 127 hectares, as castas tintas compreendem cerca de 105 hectares e as brancas 22 hectares. Foram escolhidas as mais nobres castas nacionais e estrangeiras, que melhor se adaptam ao “terroir“. O estágio em barricas de carvalho de elevada qualidade, promove a passagem de alguns componentes da madeira (taninos e compostos aromáticos) para o vinho, conferindo-lhe complexidade e elegância.


Bernardo Cabral é natural de Moçambique, e foi logo aos 12 anos que decidiu ser enólogo. Desde muito novo percebeu que alguma coisa especial o vinho teria que ter para dar tanto prazer a quem o bebia, e especialmente a quem o fazia. Vivia fascinado com os seus tios enólogos e tudo o que aquele mundo, místico aos seus olhos, representava. Sem dúvida queria fazer parte dele.
Começou ainda na faculdade através do seu trabalho final de curso. Um estudo muito interessante que lhe permitiu contactar reconhecidos profissionais do sector e que acabou por lhe abrir algumas portas. Foi desafiado pelo José Gaspar para fazer parte da sua jovem equipa na então renovada empresa Caves Dom Teodósio. Aprendeu muito durante o pouco tempo que lá esteve. De seguida pela mão do Nuno Cancela d’Abreu rumou para a Companhia das Quintas, na altura a dar os seus primeiros passos. Foram 4 anos em que trabalhou nesta casa. Em 2004 foi para a Casa Santa Vitória colocar as “primeiras pedras” com o Nuno Cancela d’Abreu como consultor. Foi enólogo principal e director da empresa durante 8 anos e hoje continua como consultor.

Em 2012 teve o desafio da Companhia das Lezírias que o fez mudar de “casa mãe” e até hoje mantêm-se como enólogo. Em simultâneo mantêm consultoria na Bombeira do Guadiana (Mértola), Pegos Claros (Palmela) e Vicentino (Zambujeira-do-mar).

Na última prova que o Blogue do Syrah levou a cabo entre Syrah portugueses e Syrah franceses, um dos dez Syrah portugueses escolhidos foi justamente o de Bernado Cabral, o Syrah da Casa de Santa Vitória. Só esse facto testemunha da importância que este enólogo teve na história dos Syrah em Portugal. O nosso bem-haja!


 

Artefacto, Luís Duarte Vinhos, 100% Syrah, Alentejo, 2015

Finalmente uma nova colheita de Artefacto, do enólogo Luís Duarte, cuja possibilidade de podermos tecer algumas considerações sobre ele se devem à Garrafeira Estado d`Alma, único lugar em Lisboa onde este Syrah celestial pode ser adquirido, e muito especialmente ao Tiago Paulo e Carlos Jorge que batalharam, e muito, para que este Syrah pudesse brilhar e voar em Lisboa. Não foi fácil, mas apesar de tudo foi uma epopeia bem mais acessível que a do seu irmão de 2010 cuja história foi aqui contada por nós!

Este é o único Syrah e a segunda colheita feita por Luís Duarte. Mas que Syrah! Percebe-se logo ao primeiro embate a enorme capacidade de evolução. É claro que é muito novo ainda, muito frutado, muito aromático, pergaminho inolvidável desta casta, mas que não engana: é um Syrah superior!

Luís Duarte é um enólogo premiado em Portugal. Galardoado sucessivamente com o título de Enólogo do Ano em 1997, 2007 e 2014 pela WINE – Revista de Vinhos. Com mais de 25 anos de carreira, sempre no Alentejo, fundou em 2007 a Luís Duarte Vinhos, em Reguengos de Monsaraz, e hoje trabalha na produção, comércio e exportação de vinhos.

As notas de prova dizem que possui “cor ruby intensa. Aroma a fruta preta madura, especiarias, algum cacau e um toque balsâmico / mentolado. Boca redonda e fresca, focado na fruta, com taninos domados. A madeira confere-lhe uma boa estrutura estando perfeitamente integrada no conjunto. Apresenta um final sumarento e de boa persistência.” Estagiou durante 12 meses em barricas de carvalho francês . A graduação alcoólica é de 14,5%.

D. Cooper disse uma vez que “O Syrah estimula o apetite e dá sabor aos alimentos. Promove as discussões, a euforia e pode transformar uma simples refeição em um evento memorável!”
Este Syrah tem a ver com tudo isto e muito mais, como anteriormente já tínhamos dito. Épico!

 

Classificação: 18/20                                                       Preço: 9,90€


 

Movimento da Temperança

Hoje a chalaça é falar de um recorrente movimento contra o consumo de álcool dentro de um blogue que só fala de consumo de uma bebida alcoólica. Vamos a isso!

Este dito Movimento da Temperança nasceu no início do Século XIX, por entre médicos, lideres religiosos e empresários nos Estados Unidos, e mais algumas ligas puritanas, advogando que consumir bebidas espirituosas afectava a saúde mental conduzindo ao vício, e vícios não são coisa boa. Foi nesta sequência de pensamento que nasceu no principio do Século XX a famosa Lei Seca, conduzindo ao aumento clandestino do consumo de álcool e aumento da criminalidade relacionada com a proibição. O extremismo foi tal que chegaram mesmo a alterar a Bíblia eliminando a referências a álcool. Portanto na Ultima Ceia bebeu-se sumo de uva e não vinho! O movimento difundiu-se por entre os países anglo-americanos, chegando à Nova Zelândia em plena força.

O extremo da temperança era a abstémia, ausência total de consumo alcoólico. Todas as religiões cristãs no ocidente armaram em bandeira a favor do movimento. Claro, tudo isto foi abraçado com paixão na era vitoriana, em Inglaterra, pródiga em falsos moralismos. Houve movimentos para acabar com bares e cervejarias, manifestações e marchas para influenciar as pessoas a acabarem com todos os licores e vinho. Neste período, houve alguns locais que tiveram sucesso quase completo em restringir ou proibir a venda de álcool em muitas partes dos Estados Unidos e no Reino Unido. Em 1864, o Exército de Salvação foi fundado, em Londres, com uma forte ênfase na abstinência de álcool e que rapidamente se espalhou internacionalmente, mantendo a toada na abstinência. Os grupos abstémios são mais que muitos, a Woman’s Christian Temperance Union, a Pioneer Total Abstinence Association foi formada por James Cullen, um católico irlandês, a Anti-Saloon League, etc.

O movimento ganhou ainda mais adeptos durante a Primeira Guerra Mundial, com a imposição das fortes restrições sobre a venda de álcool em muitos países combatentes, a fim de preservar recursos para uso guerra. No Reino Unido, o governo Liberal aprovou a Defence of the Realm, lei de 1914, com a cerveja sendo diluída e taxada acima da média. Por esta altura até os países nórdicos tentaram proibir a venda de álcool. O movimento de temperança começou a diminuir a partir dos anos 30 do Séc. XX. A famosa Lei Seca foi finalmente abolida nos Estados Unidos em 5 de Dezembro de 1933.

O movimento de temperança ainda existe em muitas partes do mundo, embora seja geralmente menos politicamente influente do que era no passado. Actualmente, o Straight Edge advoga a moderação no consumo de bebidas alcoólicas, estendendo o conceito ao consumo de drogas e tabaco.

Nós aqui no Blogue do Syrah defendemos que Syrah é saúde, é paixão, é amor, é terapia, é cultura, é convívio, e não pode ser excesso… aí sim é temperança, no sentido socrático do termo.
O nosso lema é, parafraseando o grande Zappa: “Syrah is the best“!


 

Coisas de Vinho – O Vinho no Verão

Coisas de vinho encerra a o ano de actividades na rua – o tema é o vinho no verão.

A oradora é Maria João Cabrita, docente na Universidade de Évora; os vinhos à prova são da Adega Cooperativa da Vidigueira e são apresentados por Luís Leão.

Na Mercearia do Largo, Largo Álvaro Velho (em frente à Pousada da Juventude – antigo hotel Planície), Sexta-feira, dia 16, 18:00.

Venha celebrar o Vinho, o Syrah e o Verão e prove o calor alentejano num copo, partilhe e traga amigos.


 

Crasto Superior Syrah, Quinta do Crasto, 97% Syrah, 3% Viognier, Douro, 2013

Em Outubro de 2015 fizemos a análise deste Syrah de 2013, que muito nos entusiasmou!
A seguir veio o Crasto Superior Syrah de 2014, e em Janeiro de 2017 também fizemos a sua análise!

Só que entretanto surgiu a prova cega entre os Syrah portugueses e os Syrah franceses, em que o Crasto Superior Syrah 2013 ficou brilhantemente em quinto lugar. Na altura foi para o Blogue do Syrah o melhor Syrah de todos os que estiveram em prova! No conjunto dos vinte Syrah ter ficado em quinto mostra bem do valor que os jurados reconheceram neste Syrah apesar de não ter sido suficiente para ganhar o primeiro lugar como nós pensávamos que merecia. Foi aliás a melhor nota que atribuímos em prova dando-lhe a nota máxima de 20 valores, por isso aqui estamos de novo a dar-lhe o devido e merecido destaque!

Como o próprio nome sugere, o Crasto Superior Syrah é feito com uvas provenientes da região do Douro Superior, mais precisamente da Quinta da Cabreira, localizada junto a Castelo Melhor e onde se encontram plantadas 114 hectares de vinha. Trata-se de um Syrah com 3% de Viognier, opção do enólogo, que respeitamos mas como sempre preferimos os 100%, em que as uvas provenientes das plantações experimentais da casta Syrah estabelecidas em 2004 na Quinta da Cabreira, foram transportadas em caixas de plástico alimentar e sujeitas a uma rigorosa triagem à entrada na adega. Após um desengace total e um ligeiro esmagamento, as uvas foram transferidas para cubas de aço inox, onde decorreu uma maceração pré-fermentativa a baixas temperaturas durante 5 dias. De seguida desenrolou-se a fermentação alcoólica por um período de 7 dias, que foi seguida de uma prensagem muito suave e fermentação malolática em barrica de carvalho francês.

O solo é de xisto e a idade das vinhas é de 10 anos. O Syrah tem uma graduação alcoólica de 14%. A data de engarrafamento é de Maio do presente ano e o envelhecimento fez-se em barricas de carvalho francês durante 16 meses.
As notas de prova que escolhemos dizem-nos que tem uma “cor violeta escuro. No nariz mostra uma excelente projecção aromática, onde se destacam complexas notas de frutos silvestres, em perfeita harmonia com notas de cacau fresco. Na boca tem um início cativante, evoluindo para um vinho compacto, de grande volume e estrutura, composto por taninos frescos de textura aveludada e correcta acidez. Tudo muito bem integrado com agradáveis notas de frutos silvestres e suaves sensações florais. Termina equilibrado, fresco e com excelente persistência.” O enólogo, que merece desde já os nossos parabéns, é Manuel Lobo.

E estamos tão encantados com a prestação deste Syrah na prova cega que até nos apetece cantar com Neil Diamond a música “Red Red Wine”, com a devida adaptação:
Red, red Syrah
Stay close to me
Don’t let me be alone
It’s tearin’ apart
My blue, blue heart
Se conseguirem encontrar alguma garrafa não hesitem e esperamos que o Crasto Superior Syrah de 2014 siga os mesmos passos que o seu irmão do ano anterior!

 

Classificação: 20/20                                       Preço: 22,00€


 

Por que é o Syrah melhor do que o Cabernet?

Nada do que é dito hoje aqui é novidade para o Blogue do Syrah!
Aliás, andamos a dizê-lo, por estas ou outras palavras, há já uns valentes anos!
Isto é válido quer para as castas internacionais mencionadas no texto quer para as castas nacionais!

Este texto é dedicado a todos os enófilos que ainda não conseguiram enxergar o óbvio!
Um obrigado muito especial ao Eugénio Couto que fez o favor de chamar a nossa atenção para este texto da Wine Enthusiast, escrito por Joe Czerwinski e por nós traduzido e adaptado, mantendo o espírito original.

Embora mais populares, castas como Cabernet Sauvignon, por exemplo, muitas vezes oferecem menos do que outras, estamos a falar de Syrah, que é a que nos interessa.
Não há muito tempo atrás, era geralmente difícil vender Syrah. Isto ainda pode ser verdade desde o ponto de vista comercial: a casta Syrah nunca captou grandes números no mercado dos monocasta, sendo ultrapassada pelas Cabernet Sauvignon, Merlot, Pinot Noir, por margens substanciais. Mas olhando o consumidor de vinho, a Syrah é muitas vezes a melhor escolha, oferecendo mais variedade e valor do que Cabernet Sauvignon. Para quem começa, é mais fácil ter logo um produto de primeira qualidade, pois a casta Syrah cresce em terrenos onde as outras não o conseguiriam com qualidade, oferecendo aqueles toques a cereja, especiarias, pimenta, tão querido aos apreciadores. Da mesma forma, em climas quentes, como o nosso Alentejo, onde o Cabernet perde sua fragrância delicada, a casta Syrah é capaz de manter um grau de elegância, mesmo apesar do calor. Do ponto de vista do consumidor de vinho, a Syrah é muitas vezes a melhor escolha, oferecendo mais variedade e valor do que o Cabernet.

Portanto a fama Cabernet Sauvignon significa que esses vinhos são geralmente mais caros do que os seus colegas Syrah. Em França, logo a partir do século XIX, o Syrah do Rhône foi usado para melhorar os vinhos Bordeaux baseados em Cabernet. Os Bordéus assim tratados eram chamados de “Hermitados”, e vendido por preços mais altos do que os Bordeaux não adulterado. Em termos históricos, os consumidores têm a chance de comprar vinhos à base de Syrah com um desconto relativo.

Eis algumas opiniões de palato, comuns entre os apreciadores de Syrah, todos retirados de Syrah que custam menos de 20 euros (tente encontrar Cabernets dentro destes preços com tais qualificativos): Aromas complexos e sabores de frutas densas, iluminados por acidez rápida. Apimentado, forte em frutos vermelhos, envolvidos numa textura atraente.De corpo cheio e ricamente texturizado, com frutas arrojadas. Um copo concentrado e estruturado de sabores, bondade. Ervas e especiarias em camadas, mirtilos de textura sedosa e cerejas negras. Amoras maduras, tempero herbal equilibrado por amplo corpo e ácidos nítidos.

E com isto nos vamos por hoje!