Coisas de Vinho

A tertúlia do vinho e tudo à volta (Coisas de vinho) regressa na próxima 5ª feira, dia 21, 18:30 no restaurante Desafio.

Apresentação e prova dos vinhos de Tiago Cabaço (Estremoz).

Enogastronomia – Francisco Sabino (Confraria dos Gastrónomos do Alentejo).

Sinta-se convidado e convide amigos.


 

Quinta do Valdoeiro,100% Syrah, Bairrada, 2015

Mas que grande desilusão!
É com muito pesar que o afirmamos, assim, de chofre.
Este Syrah da Quinta do Valdoeiro foi mesmo um desapontamento. Nem o facto de ser do ano de 2015 abona minimamente a seu favor. Como foi isto possível? Foi na vinha? Costuma dizer-se que um Syrah faz-se na vinha. Portanto que aconteceu na vinha para dar este resultado?
Visto friamente, este Syrah da Quinta do Valdoeiro 2015 não é um mau Syrah, mas está muito aquém dos seus irmãos de 2010 ou 2007, daí a desilusão.
Por isso é que perguntamos: que é que aconteceu?
Se não foi na vinha, então foi na adega… Mais do que isso não podemos dizer porque não temos meio de o saber, a não ser que este Syrah destoa das colheitas anteriores. Será também por isso que o preço é bem diferente, para menos? Não deixa de ser intrigante. Não sendo impossível, não é habitual!

A Quinta do Valdoeiro faz parte duma companhia, a Sociedade Agrícola e Comercial Vinhos Messias, que congrega três quintas. A companhia foi fundada em 1926, por Messias Baptista, que manteve a administração da empresa até 1973. A Administração das Caves Messias é ainda nos dias de hoje assegurada pelos descendentes da família Messias.
Desde a sua fundação que tem produzido e comercializado vinhos das principais regiões demarcadas: Dão, Bairrada, Douro, Vinho Verde, Beiras e Vinho do Porto. A empresa é também reconhecida pela alta qualidade dos seus vinhos Espumantes Naturais e Aguardentes. A sede da MESSIAS está situada na Mealhada, pequena cidade da região da Bairrada, onde a empresa possui mais de 6.000 metros quadrados de instalações e aproximadamente 160 hectares de vinha, sendo 70 hectares destinados à produção dos vinhos da Quinta do Valdoeiro.
A Quinta do Cachão tem as suas encostas adjacentes ao rio Douro, na sub-região do Cima Corgo. A vinha foi plantada pela primeira vez em 1845 pelo Barão do Seixo sendo mais tarde adquirida pela família Afonso Cabral, que por sua vez a vendeu à família Messias no ano de 1956.
A Quinta do Penedo é constituída por uma área de 20 hectares e situa-se no coração da Região Demarcada do Dão, mais precisamente no interior do triângulo clássico Viseu-Nelas-Mangualde. A sua origem como vinha remonta ao ano de 1930, pela mão do General Lobo da Costa, tendo permanecido na família até 1998, ano em que foi adquirida pela família Messias.

Até que chegamos à Quinta do Valdoeiro, que é uma bem estruturada propriedade agrícola da região vitivinícola da Bairrada. Possui 130 hectares, 70 dos quais plantados com vinha em solos calcários de baixa fertilidade. A ligeira ondulação do relevo, as encostas voltadas a sul e nascente, assim com a implantação das castas separadas por talhões, são factores que contribuem para a qualidade das uvas aí produzidas. E é neste ambiente que se produz o nosso Syrah, para além das variedades tintas Touriga-Nacional, Baga, Castelão e Cabernet-Sauvignon.

Outra coisa ainda que estranhámos, foi a diferença de graduação em relação à colheita de 2010 que tinha 14,5% de graduação alcoólica, o presente, de 2015, tem 12,5%. É dos Syrah portugueses com menor graduação alcoólica!

O poeta persa dos séculos XI e XII Omar Khayyan no seu eterno poema Rubaiyat diz o seguinte:
“Ouço dizer que os amantes do vinho serão castigados no inferno. Se os que amam o vinho e o amor vão para o inferno o paraíso deve estar vazio.”
Isto poderia ser verdade se os amantes bebessem o Syrah da Quinta do Valdoeiro 2010.
Agora com o Syrah de 2015 temos muitas dúvidas que o paraíso esteja vazio!

 

Classificação: 15/20                                                                             Preço: 8,90€


 

Outras fermentações!

Isto hoje vai a propósito do que temos vindo a falar sobre fermentação. Porque há outras bebidas fermentadas que na realidade não são vinho, e muito menos Syrah, a nossa bebida fermentada preferida!

Uma bebida fermentada é pois o derivado de um fruto que devido ao açúcar presente na polpa permite o processo de fermentação que já descrevemos antes. Temos assim o vinho, que deriva da uva, que nasce na videira, produto de fermentação alcoólica do sumo de uva, o mosto. Outras frutas e mesmo até alguns cereais, dão origem a outro tipo de bebidas fermentadas. Estas podem ter graduação alcoólica entre 4% e 14%, obtidas pela fermentação alcoólica da fruta sã, fresca e madura de uma única espécie, do respectivo suco integral ou concentrado.

Sempre que apetecer variar um pouco e seguir por outro caminho que não seja pela Avenida Syrah, eis alguns exemplos de célebres bebidas fermentadas:

Cerveja – bebida com graduação alcoólica entre 5% e 10%, produz-se a partir da fermentação de cereais, principalmente a cevada maltada. Acredita-se que tenha sido uma das primeiras bebidas alcoólicas que foram criadas pelo ser humano. Actualmente, é a terceira bebida mais popular do mundo, logo depois da água e do chá.

Sidra – bebida com graduação alcoólica entre 4% e 8%, obtida pela fermentação alcoólica do mosto de maçã fresca, ou por vezes do sumo concentrado de maçã, com ou sem adição de água.

Saquê – bebida com graduação alcoólica entre 14% e 26%, obtida pela fermentação alcoólica do leite de arroz, ao qual se adiciona a enzima Aspergillus Oryzae, podendo ser adicionado álcool etílico potável de origem agrícola e aroma natural.

Hidromel – por fim falamos de uma bebida com graduação alcoólica entre 4% e 14%, obtida pela fermentação alcoólica de solução de mel de abelha, sais nutrientes e água potável. Muito apreciada desde a antiguidade, passando pela Grécia Antiga, Roma Antiga, Celtas, Saxões, Vikings, etc. Entre os Vikings era tão apreciada que a própria Mitologia Nórdica explica como nasceu esta preciosidade. Também era conhecido o consumo de uma bebida similar pelos Maias. Na Irlanda, existia a tradição de que os casais recém-casados deveriam consumir esta bebida durante o primeiro ciclo lunar após o casamento. Daí surgiu a tradição actual da lua de mel.

Agora que já andámos pelas vias laterais e nos enriquecemos culturalmente, vamos regressar à Avenida principal e degustar um fermentado a sério: Syrah!


 

QP., Marcolino Sebo, 100% Syrah, Alentejo, 2013

Tal foi a nossa surpresa quando descobrimos que a Quinta da Pinheira tinha uma nova colheita de Syrah do ano de 2013!
Estávamos convencidos que o Syrah de 2011 teria sido o último desta casa de Estremoz e de Borba!
Felizmente isso não aconteceu, porque este Syrah vale a pena ser preservado e lançado para o mercado com continuidade!

A casa Marcolino Sebo é uma empresa familiar que está ligada à área da viticultura há mais de 30 anos, sendo a sua constituição oficial datada de 1975. Ao longo deste tempo e espaço houve uma dedicação em pleno à viticultura, sendo as uvas entregues na Adega Cooperativa de Borba, mas com o crescente aumento da área de vinha e o sonho do proprietário da empresa – Marcolino Sebo – de produzir o seu próprio vinho surgiu o projecto de criar uma adega própria. Foi no virar do século XX, no ano 2000, que Marcolino Sebo, contando com 130 hectares divididos por sete parcelas de vinha situadas entre Borba e Estremoz, caracterizadas pelos solos argilo-calcários e argilo-xistosos, começou a vinificação das suas uvas, tendo o engarrafamento e comercialização do seu vinho ocorrido no ano de 2001. A área encontra-se dividida por cinco parcelas, entre as quais: a Quinta da Pinheira, Monte da Vaqueira, Monte do Estevalinho, Herdade da Cerca e Herdade do Olival. E é precisamente na Quinta da Pinheira, como já se percebeu, que encontramos este nosso bem amado Syrah, sendo a partir daí que todas as acções são coordenadas. A freguesia é Arcos e o concelho é Estremoz.

As notas de prova dizem-nos que se trata dum vinho “de cor vermelha púrpura e aroma complexo de frutos pretos madutos, especiarias, cacau e baunilha. Após um estágio de 6 meses em barricas novas de carvalho francês, sobressai um vinho denso com forte estrutura e taninos suaves, com final de prova prolongado.” Tem uma graduação alcoólica de 15%, tal como a colheita de 2011! De referir ainda que o Syrah da Quinta da Pinheira é exportado para a China com o nome de Infinitae Syrah, nome eloquente de que gostamos, mas ao contrário do que inicialmente chegamos a pensar, trata-se do mesmo Syrah numa outra garrafa e com outro rótulo.

A adega Marcolino Sebo conta com um edifício moderno com traça Alentejana bem marcada, onde se utiliza a tecnologia moderna baseada em métodos tradicionais antigos, onde se produz o vinho. Em termos materiais tem cerca de 60 cubas das mais diversas capacidades, perfazendo uma capacidade total de 1.400.000 litros. Em termos humanos conta com uma vasta equipa de trabalho, desde o trabalho de campo até à comercialização do produto final, passando pela enologia com o apoio do enólogo Jorge Santos. A cave da adega encontra-se semi-soterrada, o que lhe confere uma temperatura ambiente e humidade constantes durante todo o ano e proporcionando um ambiente ideal para o envelhecimento de vinhos.

Já dizia Napoléon Bonaparte que “O vinho inspira e contribui grandemente para a alegria de viver!” Estamos pois conversados sobre o Syrah Quinta da Pinheira, que é pouco conhecido mas com uma grande garra e uma qualidade de se lhe tirar o chapéu, para nosso comunicativo prazer… é para isso que cá estamos!

 

Classificação: 17/20                                                                         Preço: 7,49€


 

Paladar e Syrah

Sentir na boca um Syrah é mais fácil do que tentar descrever essa sensação no paladar. Mas vamos tentar!

Falar de sensações, delicadas e prazerosas com estas são, implica primeiro explicar que todos os passos standard de uma degustação a rigor são para seguir à risca, por mais excessivo que possa parecer aos mais descuidados. Portanto há que começar pela parte Visual, seguida da Olfactiva e por fim virá a degustação propriamente dita.

Sentir um Syrah em toda a sua vastidão implica identificar o Gosto, depois virão as Sensações Tactéis e mais adiante o processo termina com a percepção dos Aromas Retro-Nasais. Por partes…

Gosto
Será quase de certeza a parte mais fácil. O gosto doce vem logo ao de cima, deve-se aos açúcares residuais e ao álcool do vinho. Mas aqui é necessário falar da Acidez, que neste caso vai levar à produção de saliva. Assim, a quantidade de acidez sente-se observando a salivação. Quanto mais ácido um Syrah, mais iremos salivar.

Sensações Tácteis
O álcool produz uma falsa sensação de calor ou ardor na mucosa, bem diferente das provocadas pela acidez. Outras sensações tácteis importantes são a adstringência, relacionada com os taninos, sempre eles. Ao entrarem em contacto com a saliva precipitam as moléculas de gordura contida nela, provocando assim uma sensação de paladar ressequido, a que chamamos pois adstringência. Taninos de má qualidade podem provocar amargor. Em excesso a adstringência torna-se desagradável. Por fim, o corpo do vinho, sensação táctil fundamental, é determinado pelo volume alcoólico e a quantidade de matéria extrativa: taninos, ácidos, açúcares, etc. Refere-se pois à sensação de peso que ele provoca no paladar.

Aromas Retro-Nasais
Este maneira de nomear os aromas deriva do facto de haver uma ligação entre a cavidade nasal e a faringe, por onde os aromas dos alimentos na boca chegam aos receptores nasais. Assim, confirmamos os aromas sentidos no exame olfactivo e, algumas vezes, descobrimos novos, enriquecendo o que estamos a degustar. Durante o tempo de percepção desses aromas, damos o nome de persistência aromática, que pode ir de ligeira a muito longa. Tão importante quanto conhecer as sensações é conhecer a relação entre elas. Por exemplo, a acidez atenua a sensação de ‘calor’ do álcool, realçando a adstringência (taninos) e é atenuada pela macieza (açúcares e álcool). Já a macieza suaviza tanto a acidez quanto a adstringência. E a adstringência pode acentuar a aspereza da acidez. O equilíbrio entre estes três elementos, adstringência, acidez e macieza é perceptível quando nenhuma dessas sensações sobressai de forma desagradável.

Tudo isto na realidade acaba por ser muito subjectivo, o que para uns é o céu, para outros pode ser algo um pouco mais abaixo. E são estas variáveis que dão o mote e o leque a todas as interpretações que tornam um Syrah ainda mais interessante!

Vamos a ele que já chega de conversa…


 

Ermelinda Freitas, Casa Ermelinda Freitas, 100% Syrah, Península de Setúbal, 2015

Acabou de sair mais um Syrah da Casa Ermelinda Freitas, com o ano de 2015, ano este que nunca desilude e cria sempre grande expectativa!
É um Syrah de qualidade, sem dúvida, como era de esperar!
Mestre Jaime Quendera volta a ganhar a parada!

As vinhas estão situadas em Fernando Pó no concelho de Palmela. O solo é arenoso e o clima é mediterrânico. A fermentação deu-se em cubas-lagares de inox com temperatura controlada, e maceração pelicular prolongada. Estágio de 12 meses em meias pipas de carvalho americano e francês. As notas de prova que decalcamos dizem-nos que se trata dum vinho de “cor granada, concentrado. Aroma confitado a lembrar fruta preta muito madura, alguma especiaria, com toque balsâmico da casta. Na boca é muito cheio, aveludado com taninos presentes muito bem integrados. Final longo e persistente.” A graduação alcoólica é de 14%.

Não é preciso falar muito da casa Ermelinda Freitas, sobejamente conhecida no mundo dos vinhos, empresa familiar localizada em Fernando Pó, no concelho de Palmela. Nasceu em 1920 pelas mãos de Deonilde Freitas e neste momento, com Leonor Freitas, vai já na sua quarta geração. Esta assumiu o comando da sua mãe, que deu o nome aos vinhos da casa. Foi com a actual proprietária que surgiu o grande impulso dado à empresa pois foi ela que ampliou as vinhas que herdou, de sessenta hectares para os actuais trezentos e quinze hectares. A quinta inicialmente só tinha duas castas, Castelão (conhecida na península de Setúbal por piriquita – que acabou por dar o nome a um vinho da empresa concorrente, a José Maria da Fonseca) e a Fernão Pires, branca, também muito usada na região. Foi Leonor Freitas que introduziu todas as castas que a Casa Ermelinda tem actualmente e naturalmente o Syrah.

De referir que nas três gerações anteriores os vinhos não eram engarrafados e não tinham marca própria. Eram vendidos a granel e com uma qualidade que muitas vezes deixava a desejar. Sob a liderança da quarta geração tudo mudou! Percebe-se que Leonor Freitas não estava satisfeita com a herança recebida e munida de uma equipa onde se destaca o enólogo Jaime Quendera, mudou todo o “savoir faire” da Casa.

D. Francisco de Monçón, teólogo do séc. XVI, escreveu:
“Nem por o pão ser mais necessário, o vinho deixa de ser mais precioso.”
É o caso deste Syrah. É precioso pela qualidade, pelo ano, por quem o faz e por quem o vai degustar… em suma, é uma preciosidade!

 

Classificação: 17/20                                                                       Preço: 9,69€