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A arte de provar um Syrah!

provar

Hoje estamos na área sofisticada da prova de Syrah, plena de requinte e subtileza.

Antes de mais, existem três condições fundamentais a cumprir para que nada atrapalhe o prazer de provar um bom Syrah:

  • um local isento de cheiros
  • um local bem iluminado, de preferência, sem luz fluorescente
  • um bom copo, transparente e bem limpo de odores e manchas

Estando reunidas estas condições, é hora de servir o nosso Syrah.
A quantidade ideal a verter será sempre no máximo um terço do copo. Mesmo que esteja numa tasca! Porquê? Simples: liberta espaço para o agitar o vinho sem entornar, permite que o aroma se concentre no copo, e é mais civilizado, e civilidade fica sempre bem, qualquer que seja o lugar.

A partir destas premissas, siga agora os passos que lhe sugerimos:

  • Comece por observar a limpidez do vinho: é brilhante e límpido ou, por contrário, turvo? A segunda hipótese aponta para um vinho com mais depósito, resultado da precipitação de matérias ao longo do tempo, por sua vez, típico de um vinho que não sofreu muitos tratamentos de estabilização ou filtração. Neste caso tratar-se-á de um vinho mais encorpado e com mais volume de boca.
  • Atente agora na cor do vinho. No caso dos tintos é avermelhado ou acastanhado? A segunda hipótese indica geralmente mais idade e sabedoria.
  • Apure a seguir o seu olfacto. Agite cuidadosamente o copo em movimentos circulares para que liberte os seus aromas mais escondidos. Provavelmente reparará na lágrima que escorre pelas paredes do copo. Essa presença relaciona-se com o maior teor de álcool e de açúcar presente no vinho. Aproxime-se e cheire. Sente os aromas naturais de frutas vermelhas, de frutas de caroço, flores, madeira ou especiarias? No caso de um vinho mais evoluído (com mais anos de garrafa), poderá encontrar cheiros de evolução (mel, couro, carne, por exemplo). Procure incentivar-se a descobri-lo!
  • Por último, chega então a altura de provar. Procure espalhar o vinho por toda a boca, de modo a que consiga atingir todos os sabores nele presentes. Inspire novamente os aromas do vinho. Desfrute do momento e da harmonia dos sabores e dos aromas!

Terminamos com uma tradução nossa de um pequeno parágrafo de Joanne Harris, a grande autora de novelas gastronómicas, do livro “Blackberry Wine”:

‘Um Syrah fala. Todos sabem isso. Olhem à volta. Perguntem ao oráculo que está na esquina; ao que não foi convidado para o banquete de casamento; ao louco sagrado. Fala. É um ventríloquo.  Tem um milhão de vozes. Solta a língua, brincando com os segredos que nunca deveriam ter sido revelados, segredos que nem sabias que existiam. Grita, rasga, sussurra. Fala das coisas grandes, esplêndidos planos, amores trágicos e terríveis traições. Grita no meio de gargalhadas. Fala suavemente para si próprio. Chora em frente da sua própria reflexão.  Abre-se no verão longínquo e nas memórias que melhor se esqueceram. Cada garrafa traz o sopro de outros tempos, outros lugares… a matéria base transforma-se na matéria dos sonhos, em alquimia!’

À nossa, com um Syrah, sempre!


 

O Cheiro do Vinho

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Vagueando este Domingo por alguns pensamentos, vamos falar de vários termos que podemos usar para designar a subtileza de um vinho quando nos aproximamos dele: perfume, odor e, principalmente, “aroma” e “bouquet”, que designam os cheiros agradáveis que o vinho pode libertar.

O cheiro do vinho depende da uva, da terra, da sua idade e do seu estado de conservação.
É muito importante diferenciarmos buquê, (aportuguesamento do vocábulo francês) de aroma, e dar o correcto significado para cada um deles.

Os especialistas costumam diferenciar o buquê de três formas básicas:

  • O primeiro grupo diz que vinho branco tem aroma e vinho tinto tem buquê, uma vez que, normalmente, os vinhos brancos são bebidos jovens e, por isso, não conseguem criar essa característica, mas claro que existem excepções.
  • O segundo grupo de especialistas afirma que o buquê é percebido pelo olfacto e aroma por via retronasal, quando o vinho está na boca para consumo e poderíamos dizer que nesse caso temos o “aroma de boca”.
  • O terceiro grupo que é o mais comum, diz que o aroma é um princípio odorante libertado pelas substâncias vegetais dos vinhos jovens, que se pode respirar, e buquê é o cheiro adquirido pelo envelhecimento.

Logo, os vinhos mais jovens agradam pelo aroma e os envelhecidos pelo buquê. É subtil e não merece discussão entre os convivas.

Podemos continuar o estudo com os aromas primários (preexistentes na uva) e os secundários (criados na fermentação) mas, sinceramente, esse assunto merece um vinho para acompanhar…e no nosso caso só pode mesmo ser um Syrah!

Consultem o Blogue do Syrah e façam a vossa escolha…

À nossa!


 

Vinho – Alguns preconceitos que é preciso desmistificar!

Um dos principais mitos sobre o vinho diz que quanto mais velho melhor. Tal não é verdade, como iremos ver!

Há muitos anos um amigo nosso de longa data ofereceu-nos um vinho tinto da Adega Cooperativa de Valpaços, do ano de 1962. Ficámos sensibilizados, porque o ano em causa é o ano de nascimentos de um dos autores do Blogue do Syrah, logo uma prenda com cariz simbólico. Ficámos muito agradados, e logo ali prometemos que quando abríssemos a garrafa, esse nosso amigo estaria também presente para todos degustarmos da preciosidade em causa. Alguns meses após essa intenção, surgiu a possibilidade de um jantar em que esse nosso amigo estaria presente. As promessas são para se cumprir e no dia em causa lá se abriu o célebre vinho tinto da Adega Cooperativa de Valpaços de 1962. Só que… pois… logo pelo cheiro se percebeu que o vinho estava obviamente estragado. Um pivete a vinagre. Na qualidade de vinagre estava bom, mas como vinho de mesa estava uma autêntica desgraça.

O vinho, exceptuando a água e a cerveja, deverá ser a bebida alcoólica mais antiga que existe, talvez desde a Idade do Bronze. Além de ser uma bebida hedónica, ligada ao culto de Baco, foi igualmente muito utilizada para muitos cuidados de saúde, numa era sem analgésicos ou anticépticos, e está presente no dia a dia da civilização ocidental há milénios. É claro que tamanha tradição e utilidade geram muitos mitos e lendas.

Vamos passar a limpo alguns dos mais famosos preconceitos que envolvem uma das maiores dádivas do mundo ocidental. Então vamos às primeiras dúvidas que envolvem o vinho, as suas verdades e mitos, começando pela história com a qual começámos este texto:

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1º preconceito: Vinho quanto mais velho, melhor?

O vinho é a bebida fermentada com maior capacidade de envelhecimento, e alguns vinhos chegam a durar décadas antes de estragar. Mas a maioria, os chamados “vinhos comerciais”, possuem uma durabilidade média de seis anos. Os vinhos que duram muitos anos são aqueles que possuem alto grau de acidez, taninos e álcool, e que, quando jovens, são muito adestringentes, sendo necessário que evoluam lentamente na garrafa até atingir seu ponto ideal.

Os vinhos que possuem capacidade de envelhecimento superior a dez anos são os Bordeaux Cru Classé, o Porto Vintage, o Riesling Grand Crus alemão, o Sauterne Cru Classe, o Borgonha Grand Cru, e mais uns poucos. Entre nós, famoso, temos  por exemplo o Colares Chita, que só se pode beber a partir dos 15 anos de garrafa.

 

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2º preconceito: Garrafas de base profunda são garantia de vinhos melhores?

Mais um grande equívoco. Na verdade, o fundo serve de encaixe entre as garrafas que ficam no depósito da adega, antes de serem rotuladas. Deitadas, as garrafas ocupam pouco espaço, mas precisam estar bem encaixadas para que a pilha não desabe. Portanto uma garrafa de fundo profundo pode conter um excelente vinho ou uma bebida ordinária, bem embalada, para fisgar bebedores incautos. A prova do vinho deve ser feita no copo, nunca pela embalagem ou rótulo.

 

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3º preconceito: O vinho precisa ser guardado em ambiente escuro e com temperatura controlada?

O vinho é uma bebida que não resiste muito ao calor e à luminosidade. Por isso, deve ser mantido em temperatura constante entre 14ºC e 18ºC e sem luz direta sobre a garrafa. Pode até ser armazenado na casa dos 20ºC, e com alguma luz, mas isso pode acarretar um envelhecimento precoce na bebida.

 

4º preconceito: O fundo da garrafa serve para se apoiar o dedo.

A pessoa que vai servir o vinho deve achar um modo confortável e seguro de manejar a garrafa, mas o formato côncavo do fundo não foi desenvolvido para este propósito. Uma das utilidades é para dar apoio às garrafas na adega, como já dissemos.

Outro motivo para a utilização deste formato é mais comum na produção de vinho espumante, para a distribuição da pressão na hora de colocar a rolha no gargalo, a fim de que a garrafa não rebente.

 

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5º preconceitoVinho rosé é resultado da mistura de vinho tinto e de vinho branco.

O vinho rosé é resultado da fermentação de uvas tintas, mas com pouco contacto com a casca – que dá a cor ao vinho – e não da mistura entre vinhos feitos. A afirmação acima serve apenas para denegrir a imagem de um vinho muito sutil e bom companheiro para aves, carnes brancas, saladas e legumes grelhados.

Durante as primeiras horas de fermentação, as cascas passaram um tom cereja para o mosto. Neste momento, o enólogo retira as cascas e a fermentação segue, mas sem mudança da cor. O vinho rosado é elaborado com uvas para vinhos tintos: Malbec, Cabernet, Sangiovese, Grenache, Pinot Noir e também o nosso Syrah. Já agora por curiosidade há um Syrah Rosé, só um, da Quinta do Monte d´Oiro de Alenquer (falaremos dele em breve). As exceções são os espumantes: neste caso, é permitida a mistura entre vinhos.

 

6º preconceito:   Vinho feito de várias castas não é bom. Os melhores são os de uma única casta.

Os vinhos do Novo Mundo, em sua maioria, são feitos de uma única casta, cujo nome vem estampado no rótulo. Entretanto, isso não significa que os vinhos de uma única casta são os melhores. Na Europa, a maioria dos vinhos vêm de corte entre duas ou mais castas.

O que torna um vinho bom não é só a casta da qual foi feito, mas a qualidade da videira, a quantidade praticada na colheita, a técnica de vinificação, a higiene na elaboração e a qualidade da safra, e tanto faz se vem de uma ou de mais uvas.

 

7º preconceitoVinho feito de uma só casta não é bom. Os melhores são os de várias castas.

Este preconceito pode ser rebatido da mesma maneira que o preconceito anterior. Um vinho de só casta pode ser muito bom ou não, o mesmo acontecendo com vinhos feitos com duas, três, quatro ou cinco castas. Mais uma vez o que torna um vinho bom não é só a casta da qual foi feito, mas como foi dito anteriormente, a qualidade da videira, a quantidade praticada na colheita, a técnica de vinificação, a higiene na elaboração e a qualidade da safra, e tanto faz se vem de uma ou de mais uvas.

 

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Ponto único:

É claro que para nós Blogue do Syrah o melhor vinho terá que ser feito sempre com a casta que nos enche o palato e todos os sentidos com profunda paixão, a Syrah, mas isso é uma questão de opção cujas motivações tentamos apresentar continuamente e explicar a cada texto aqui apresentado!


 

Cascalheira, ASL Tomé, 100% Syrah, Setúbal, 2013

garrafa

Hoje vamos conhecer um Syrah feito em Pinhal Novo desde 2008, e com grande sucesso. Todo ele comercializado na zona e arredores, em termos de restauração, sem nunca considerar o resto do país ou a exportação.

O Cascalheira Syrah é um vinho de taninos envolventes, macios e maduros, com fruta bem madura, de que resulta um vinho suave e encorpado.

A vinificação foi feita em cubas de inox após um desengace completo, onde terminou a fermentação alcoólica com temperatura controlada, depois de maceração prolongada.

Seguiu-se um curto estágio de 3 meses em Carvalho Francês. Apresenta cor intensa, notas de fruta preta, acidez marcante e final longo. Aroma limpo. Na boca apresenta boa estrutura e boa persistência. Possui uma graduação alcoólica de 14,5%.

É um Syrah novíssimo. Foi engarrafado já este mês de Fevereiro. E foi graças à gentileza do produtor, que ao enviar-nos duas garrafas para serem por serem por nós degustadas nos permitiu estar aqui a falar desta novidade em primeira mão.

vinha

Desde 2008, data da primeira safra, a A.S.L. Tomé, iniciais de Américo Sousa Lopes, já fez 5 safras que variam entre os 4000 litros e os 5000. No ano de 2010 atingiu-se o pico de 6000 litros de Syrah. Esta última safra tem 3000 litros. Apesar desta diminuição o produtor Carlos Branco garantiu-nos que o monocasta Syrah é para continuar. E isso é sempre uma boa notícia. Cada garrafa é vendida à porta da adega a 3,5 euros, preço que sobe quando o syrah é vendido na restauração da zona. A este tema disse-nos Carlos Branco: “A nossa preocupação sempre foi a de produzir um Syrah ao nível dos Syrah de topo que se fazem na Península de Setúbal, mas a um preço muito mais contido, com o intuito de obter uma relação Qualidade/Preço benéfica para o consumidor. Conseguimos fixar o preço final em 3,50€ cada garrafa e não pensamos alterar o preço nos próximos anos.”

A Firma ASL-Tomé, Sociedade Vinícola, Lda. é uma das empresas mais antigas de Pinhal Novo.

A propriedade onde se encontra situada a sede da A.S.L.-Tomé, Sociedade Vinícola, Lda., foi pertença dos antepassados dos actuais proprietários e vem sendo herdada sucessivamente há, pelo menos, cinco gerações da mesma família.

Contudo, foi dividida ao meio há cerca de 60 anos, por ocasião de partilhas feitas na altura. Na outra metade situa-se agora um conhecido hipermercado.

É composta por uma parte agrícola (vinha e outras plantações, nomeadamente três pomares e uma horta) e por uma parte composta por escritórios, adegas, lagares e cubas de vinificação, etc.

cubas

A firma possui ainda mais sete propriedades situadas no concelho de Palmela, estas destinadas exclusivamente à cultura de vinhas.

A propriedade em Pinhal Novo onde está instalada a sede ocupa, na totalidade, cerca de 5,5 hectares, sendo o espaço ocupado pela vinha de cerca de 4,5 hectares. A adega actual foi construída em 1947, substituindo uma outra que já existia no local desde fins do século XIX. A firma A S L – Tomé, Sociedade Vinícola, Lda. foi constituída em 1992, embora esta constituição tenha sido apenas uma mudança de nome e uma actualização do capital social e das partes integrantes da sociedade, da qual passaram a fazer parte a última geração da família. A designação anterior era Américo de Sousa Lopes & Herdeiros e começou a funcionar em 1953, produzindo vinho e fazendo a sua distribuição, principalmente na região da Grande Lisboa, distrito de Setúbal , Alentejo e Algarve. Na altura, imperava a venda a barril, além da venda directa, a quem se deslocasse à adega. Havia ainda criação de gado, o que deixou de acontecer há cerca de 20 anos atrás.

Hoje, a venda traduz-se principalmente em vinho engarrafado, embora ainda subsista a venda de vinho em barril (a granel) em muitas das tabernas do distrito de Setúbal.

taberna

Recentemente, a firma passou a fazer parte da Rota das Adegas da Península de Setúbal, tendo para o efeito recuperado uma casa de lagares antiga, onde decorrem com frequência eventos de cariz cultural (concertos, workshops), provas de vinhos, festas temáticas e conferências, havendo ainda uma galeria para exposição de pintura e fotografia.

Se é verdade que “Enólogo é aquele que, diante do vinho, toma decisões. Enófilo é aquele que, diante de decisões, toma vinho” confidenciemos a seguinte decisão:
o aspecto mais positivo que podemos destacar em relação ao Cascalheira Syrah 2013 é que tem muitas potencialidades para evoluir no tempo.
Como o preço é bastante acessível talvez seja uma boa solução comprá-lo agora em quantidade para o beber daqui a mais uns anos.
Que tal?

Classificação: 15/20                                           Preço: 3,50€

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Porque é que o Vinho dá Sono?

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Além de reduzir o risco de doenças cardíacas, prevenir o acidente vascular cerebral, combater o envelhecimento prematuro e lutar contra várias formas de cancro, o vinho tinto também ajuda o corpo a obter o descanso que precisa para se recuperar da rotina diária.

Um estudo de cientistas italianos da Universidade de Milão, publicado há alguns anos no Journal of the Science of Food and Agriculture, descobriu uma grande presença de melatonina em algumas variedades de uvas viníferas.

A melatonina é um hormónio que “avisa o corpo que é hora de dormir”, além de ser um potente antioxidante e desintoxicante das nossas células.

A pesquisa foi realizada com 8 diferentes cepas, todas provenientes de controlados vinhedos do Instituto Experimental de Viticultura, em Treviso, situado no nordeste da Itália. Infelizmente nenhuma delas foi Syrah.

As castas utilizadas foram Nebbiolo e Barbera, por serem as principais variedades do Piemonte. Sangiovese, pela sua relevância na Toscana. Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Merlot, pela importância na produção mundial e finalmente Croatina e Marzemino, duas uvas locais.

A concentração de melatonina percebida pelos pesquisadores foi maior na cepa Nebbiolo, seguida pela Croatina e Barbera. Cabernet Sauvignon, Sangiovese e Merlot apresentaram índices considerados medianos, enquanto Marzemino e Cabernet Franc apresentaram apenas vestígios do hormónio. O que se concluiu com esse estudo, é que o álcool presente no vinho pode não ser o único responsável pelo efeito relaxante que essa bebida proporciona. E, talvez, um copo de vinho tinto antes de dormir tenha mais vantagens do que imaginamos.

Um dos cientistas responsáveis Marcelo Iriti, acredita que os valores de melatonina no vinho tinto poderá ajudar a regular os padrões de alternância entre sono e vigília. Diz ele especificamente: “O teor de melatonina no vinho poderá ajudar a regular os padrões de sono-vigília, tal como acontece com a própria melatonina produzida pela glândula pineal nos mamíferos”, afirma Iriti num comunicado.

Mas, como a ciência só vive e evolui a partir da permanente interrogação (não é por acaso que é irmã gémea da filosofia), é importante referir o outro lado da moeda: alguns especialistas recomendam evitar o consumo de bebidas alcoólicas antes de dormir, pois o álcool poderia prejudicar o sono profundo, mantendo algumas pessoas somente nos estágios mais leves de sono. Dessa forma, é bom ficar atento para ver qual é a reacção específica do seu corpo, antes de decidir o que é melhor para cada um de nós.

Não é a primeira vez que o vinho tinto – e as uvas que lhe dão origem – são apontados como benéficos para a saúde. Estudos anteriores já tinham indicado que o consumo moderado de vinho tinto poderia diminuir a taxa de “mau colesterol” no organismo e até ajudar a prevenir a doença de Alzheimer.

Já não há dúvidas de que o vinho tomado ao deitar torna o sono mais repousante e reduz a quantidade de tranquilizantes e pílulas para dormir. Finalmente, sempre se soube que o metabolismo e a absorção do álcool pelo fígado, 30g por hora, é muito mais lenta com vinho do que com outras bebidas. Como o vinho é sempre tomado lentamente e às refeições – com o estômago cheio a absorção é ainda mais lenta – os níveis de álcool no sangue não atingem proporções intoxicantes, como acontece com os destilados.

O Copenhagen Heart Study, uma pesquisa que envolveu 13.000 pessoas durante dez anos, concluiu que aqueles que consumiram até seis cálices de vinho por semana durante o período de avaliação, tiveram somente 40 por cento da taxa de mortalidade daqueles que não beberam. Ficou também demonstrado que cerveja e destilados não forneceram tal protecção.

O Dr. R. Curtis Ellison, Chefe de Medicina Preventiva e Epidemiológica da Escola de Medicina da Universidade de Boston diz que os dados científicos são claros: “O consumo moderado de vinho está associado com um risco bem menor de doenças do coração e derrame, as principais causas de morte nos EUA.” Pode-se portanto concluir que não beber vinho é em si um factor de risco!

Apetece terminar esta reflexão relembrando o soneto do vinho do Jorge Luís Borges:

 Em que reino, em que século, sob que silenciosa 
Conjunção dos astros, em que dia secreto
Que o mármore não salvou, surgiu a valorosa
E singular idéia de inventar a alegria?

Com outonos de ouro a inventaram. O vinho
Flui rubro ao longo das gerações
Como o rio do tempo e no árduo caminho
Nos invada sua música, seu fogo e seus leões.

Na noite do júbilo ou na jornada adversa
Exalta a alegria ou mitiga o espanto
E a exaltação nova que este dia lhe canto

Outrora o cantaram o árabe e o persa.
Vinho, ensina-me a arte de ver minha própria história 
Como se esta já fora cinza na memória.


 

António Saramago, o enólogo do Syrah

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Há o Saramago das letras e há o Saramago do syrah!

Há pessoas que ao ler o título deste texto, já nos estão a querer crucificar por um título demasiado restritivo quando se fala desta figura ímpar no panorama vitivinícola português. O engenheiro António Saramago não é somente o enólogo do syrah, obviamente. É um mestre, que leva décadas tratando o vinho por tu, todo o tipo de vinhos, desde os tintos de várias castas, aos brancos, aos moscatéis, em Setúbal, no Alentejo, etc, etc.

Mas é preciso dizê-lo frontalmente: falamos dele porque fez vários syrah de qualidade. E só estamos a falar dele por causa dos Syrah, o nosso tema de eleição. Haverá outras pessoas que poderão estar a pensar que o engenheiro António Saramago não é o único a fazer syrah de qualidade. É verdade que não. Poderão pensar no Hans Kristian Jorgensen enólogo e proprietário de Cortes de Cima que tem no seu currículo três syrah de suprema qualidade (que ainda não tiveram o espaço a que têm direito no Blogue do Syrah mas lá chegaremos) ou outros, como José Bento dos Santos, proprietário da Quinta do Monte d´Oiro, que tem no seu currículo não um, não dois, não três mas vários syrah produzidos nesta quinta de Lisboa.

Mas apesar da mestria na feitura de syrah por estes dois mestres, António Saramago fez vários Syrah de qualidade um pouco por todas as empresas e Herdades por onde passou e isso faz uma diferença acrescida em relação aos mencionados. Vamos dar quatro exemplos:

Aldeias de Juromenha, 100% Syrah.

Tapada dos Coelheiros, 100% Syrah.

Herdade dos Lagos, Reserva, 100% Syrah.

Herdade do Meio, 100% Syrah. (esgotado)

António José Ribeiro Saramago nasceu em Vila Nogueira de Azeitão a 27 de Março de 1948.

Desde muito cedo que demonstrou paixão pelo mundo do vinho, não sendo alheia a influência do seu pai, José Maria Saramago, adegueiro na empresa José Maria da Fonseca durante 42 anos.

Essa paixão leva-o a abandonar o curso industrial de mecânica e a ingressar, no ano de 1962, no laboratório da José Maria da Fonseca, pela mão do Engº António Porto Soares Franco, uma das referências da enologia portuguesa da altura.

Em 1973, passa a chefe de serviço do Departamento de Enologia da Empresa, tendo como consultor o Prof. Manuel Vieira, outro grande mestre da enologia nacional e docente no Instituto Superior de Agronomia.

Em 1974, parte para França, onde inicia a sua formação em Enologia, Viticultura, Conservação e Estabilização de Vinhos, na prestigiada Faculdade de Enologia da Université Victor Segalen – Bordeaux 2.

Em 1982, é convidado para enólogo responsável da Cooperativa Agrícola de Granja, onde tem um papel preponderante na modificação da estrutura da adega e do perfil dos vinhos, destacando-se os famosos “Garrafeira Granja/Amareleja” e “Terras do Suão”, galardoados a nível nacional e internacional.

Em 1991, fruto do seu sucesso com os vinhos da Granja, é convidado para trabalhar na Adega Cooperativa do Fundão. Aí, deixa também a sua marca, transformando os vinhos “Praça Velha” numa referência nacional.

Nesse mesmo ano inicia aquele que é, talvez, o seu projecto mais emblemático –Tapada de Coelheiros.

Ao desafio de Joaquim e Leonilde Silveira de criar uma empresa de referência no Alentejo, António Saramago respondeu com um conjunto de vinhos que, pela sua qualidade, se tornaram uma marca do próprio Alentejo.

É a partir deste momento que a sua carreira adquire maior reconhecimento mediático, quer na imprensa especializada, quer na própria enologia portuguesa, permitindo-lhe abraçar outros projectos em várias regiões do país.

Com mais de 200 prémios conquistados, muitos dos seus vinhos têm sido sobejamente apreciados pela imprensa nacional e internacional da especialidade, destacando-se nesta última Jancis Robinson e Robert Parker.

Considerando que “os grandes vinhos começam na vinha” e que “todo o seu sucesso resulta de um trabalho de equipa”, a sua versatilidade permitiu-lhe criar vinhos produzidos em regiões tão distintas como a Bairrada, Beira Interior, Ribatejo, Península de Setúbal e Alentejo, sendo por isso considerado como uma das referências da enologia portuguesa contemporânea.

No ano de 2000, associa-se a Joaquim Teixeira da Costa para criar o projecto Porto da Bouga Vinhos. Exclusiva do grupo Jerónimo Martins, nasce a marca Herdade do Porto da Bouga Reserva que, com o passar dos anos se posiciona como um dos vinhos mais vendidos pela cadeia Pingo Doce, especialmente devido a uma espectacular relação qualidade-preço.

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Em 2002 cria a empresa António Saramago-Vinhos, juntamente com a sua esposa Ausenda e os seus dois filhos, Nuno e António.

Em 2008 é distinguido como “Enólogo do Ano” pela revista Néctar.

Em 2009, internacionaliza a sua carreira levando para o Brasil toda a sua arte e conhecimento, através do projecto “Além Mar”, da Vinícola Villaggio Grando, no estado de Santa Catarina.

Em 2011 distingue-se como o melhor enólogo português no ranking “Top Winemaker” do concurso Wine Masters Challenge.

Em 2012 comemorou 50 anos de carreira.

É confrade membro da Confraria dos Enófilos do Alentejo e da Confraria dos Enófilos da Beira Interior.

É membro fundador da Associação Portuguesa de Enologia.

É um dos maiores especialistas a fazer Syrah em Portugal!